domingo, 29 de abril de 2012

CARTA À IGREJA DE LAODICÉIA

CARTA À IGREJA DE LAODICÉIA, 3.14-22

1. Destinatário (3.14a)

A KJV traduz aqui: “à igreja dos Laodicenses”. Essa tradução tem provocado uma série de comentários e interpretações. Mas ela praticamente não tem apoio dos manuscritos gregos. A tradução correta é: “à igreja que está em Laodicéia”. Ela é similar em forma com os destinatários das outras igrejas. Laodicéia distava cerca de 60 quilômetros a sudeste de Filadélfia. Ela se localizava junto ao rio Licos, 10 quilômetros ao sul de Hierápolis e 16 quilômetros a oeste de Colossos. Fundada por Antíoco 11(267-246 a.C.), essa cidade foi chamada de Laodicéia em homenagem à sua esposa, Laodice.

Visto que estava localizada na junção de três estradas importantes, tornou-se uma grande cidade comercial e administrativa. O fato de ser um centro financeiro, a tornou tão próspera que foi capaz de reconstruir-se depois do grande terremoto em 60 d.C. sem o subsídio imperial. Ela também era conhecida pela fabricação de roupas e tapetes de uma lã preta, brilhante e macia. Laodicéia também era famosa por causa da sua renomada escola de medicina. A igreja de Laodicéia já existia quando Paulo estava preso em Roma. Ele escreveu uma carta a ela (cf. Cl 4.16) que evidentemente se perdeu.
A cidade foi conquistada pelos turcos. No lugar existe hoje uma série de ruínas, ainda não escavadas,

2. Autor (3.14b)

Jesus aqui se identifica como o Amém. Isso pode ser um eco de Isaías 65.16, em que encontramos no hebraico: “o Deus do Amém” (ou “o Deus da verdade”). A palavra foi traduzida do hebraico para o grego e, tempos depois, para o inglês e outras línguas modernas. Hoje, entre os cristãos de todos os países e línguas ouvimos o mesmo “Amém!”. Provavelmente há uma conexão próxima entre o uso freqüente desse termo por Jesus como está relatado nos Evangelhos. Essa palavra aparece 51 vezes nos Sinóticos e 50 vezes no Evangelho de João. Ela é traduzida como “na verdade” (sempre duplo em João) na frase: “Na verdade vos digo”.

O autor mais adiante se descreve como a testemunha fiel e verdadeira (veja comentários em 1.5; 3.7). Isso provavelmente é sinônimo de o Amém, que é colocado aqui “porque essa é a última das sete epístolas, para que possa confirmar o todo”.

O terceiro item na descrição é: o princípio da criação de Deus. Mestres heréticos têm se aproveitado dessa frase como prova de que Cristo não era eterno. Mas em Colossenses, em que Ele é designado “o primogênito de toda a criação” (1.15), é mencionado logo em seguida: “porque nele foram criadas todas as coisas [...] E ele é antes de todas as coisas” (1.16-17). Além disso, em seu Evangelho, João diz acerca do Logos: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). A frase aqui deve ser interpretada à luz dessas outras passagens. Ela significa “a origem (ou fonte original’) da criação de Deus”.





3. Aprovação (3.15-17)

No caso da igreja de Laodicéia não há palavras de aprovação ou recomendação. E um fato impressionante que não se diga nada aqui acerca dos nicolaítas ou qualquer outro grupo herético. Pelo que tudo indica, a igreja era ortodoxa. Mas era uma ortodoxia morta. O que estava errado com a igreja de Laodicéia não era um problema da cabeça, mas um problema do coração. Isso era muito mais sério.

A essa igreja o Senhor disse: Eu sei as tuas obras, que nem és frio nem quente.
Tomara que foras frio ou quente (15). A palavra grega para frio (psychros) é usada somente nos versículos 15-16 e em Mateus 10.42 — “um copo de água fria”. Quente é zestos (somente nos vv. 15-16 no NT). Essa palavra significa “quente a ponto de ferver”, assim frio aqui provavelmente significa “frio a ponto de congelar”. A igreja não era nem friamente indiferente nem fervorosa no espírito (cf. Rm 12.11).

A reação do Cabeça da Igreja é expressa com palavras fortes: Assim, porque és morno e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca (16). Alguns alimentos são gostosos somente quando estão frios, outros somente quando estão quentes. Alguns alimentos são gostosos tanto frios quanto quentes. A maioria das pessoas gosta de suco gelado e café ou chá quente; mas quem gosta de uma bebida morna? As palavras gregas para morno e vomitar (esta é emeo, no grego) são encontradas somente aqui no
Novo Testamento.

A pior coisa a respeito da condição dessa igreja era sua autocomplacência: Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta (17). A igreja evidentemente refletia o comportamento da comunidade (veja comentários no v. 14). Enriquecido significa literalmente: “acumulei riquezas” (mesma raiz de rico na frase anterior); em outras palavras: “Obtive minha riqueza com meu próprio esforço”. A primeira frase expressa auto-satisfação; a segunda, orgulho.

Não existe um exemplo mais triste de orgulho insensível do que o que é exibido na declaração: de nada tenho falta. Que contraste com a humildade realista expressa nas palavras do hino “Preciso de Ti a toda hora”. Esse é o verdadeiro espírito cristão de dependência.

A avaliação de Cristo acerca dessa igreja era bem diferente da avaliação que essa igreja fez dela mesma. Ele disse: e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu. O grego é consideravelmente mais vivido: “e não sabes que thou (enfático no gr. — tu que tens te vangloriado) és o desgraçado, e desprezível, e pobre, e cego e nu”. Desgraçado é encontrado somente aqui e em Romanos 7.24 (no texto grego):
“Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”. Miserável ocorre somente aqui e em 1 Coríntios 15.19: “Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens”.

Swete resume o restante do versículo da seguinte forma: Os três adjetivos seguintes relatam os motivos para a comiseração; um pedinte cego [...] escassamente vestido (cf. Jo 21.7 ) não era mais merecedor de compaixão do que essa igreja rica e presunçosa”.” Pobre [...] cego [...) nu devem ser entendidos metaforicamente, descrevendo a condição espiritual da igreja. No entanto, pode haver uma alusão indireta aos recursos ostentosos da cidade onde estavam localizados.
A igreja era pobre em um centro financeiro opulento, cego em uma comunidade que tinha uma excelente escola de medicina, e nu em um lugar famoso pela fabricação de roupas feitas de uma lã de alta qualidade. E possível que a Igreja dos nossos dias prospere exteriormente no meio de prosperidade material, e mesmo assim seja pobre, cega e espiritualmente nu.

4. Exortação (3.18-20)

A essa igreja opulenta, que “não tinha falta de nada”, Jesus disse: aconselho- te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças (18). O termo compres é um eco de Isaías 55.1: “vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite”. Essa é a única maneira de comprarmos de Deus. De mim é enfático. Essas coisas necessárias podem ser adquiridas somente de Cristo.

Provado no fogo ou “refinado no fogo”, isto é, purificado pelo fogo. A mesma forma verbal ocorre na Septuaginta em Salmos 18.30 — “a palavra do Senhor é provada”. Em Provérbios 30.5, lemos “pura” — “Toda palavra de Deus é pura». Assim, aqui significa que esse ouro é puro e genuíno.

Além disso, a igreja precisava de vestes brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez. A roupa branca e pura estava em contraste com a lã preta, pela qual Laodicéia era famosa. Em terceiro lugar, Jesus aconselhou a igreja para que unjas os olhos com colírio, para que vejas. Acerca desse remédio, Charles diz: “Em nosso texto refere-se ao famoso pó da Frígia usado pela escola de medicina de Laodicéia.

Não se deve deixar de notar que as três partes do versículo 18 correspondem aos últimos três adjetivos do versículo 17: “pobre”, “nu”, “cego”. A igreja de Laodicéia achava que não precisava de nada. Na verdade, ela sentia falta das necessidades mais básicas da vida espiritual.

Nesse versículo, vemos “O que é o Evangelho”: 1) Riqueza divina para nossa pobreza espiritual; 2) Veste branca de justiça para nossa pecaminosidade; 3) Visão espiritual para nossa cegueira.

A exortação continua: Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê, pois, zeloso e arrepende-te (19). O castigo é um sinal do cuidado amoroso de Deus como nosso Pai celestial (cf. Hb 12.5-11). E interessante que o verbo amo aqui não é o costumeiro agapao, mas phileo, que introduz um toque meigo e sentimental — para a igreja que menos o merecia! Repreendo é “declarar culpado”. Castigo é literalmente “educar uma criança”. Tudo isso mostra a compaixão de Cristo em lidar com essa igreja como uma criança geniosa que precisava do amor e disciplina do Pai. Swete observa: “Talvez a condição deplorável da igreja de Laodicéia era devida à falta de correção; não há nenhuma palavra de quaisquer provas até aqui sofridas por essa igreja”.

Essa igreja tinha falta de “tempero” (veja comentários acerca de “quente”, v. 15). Ela carecia de zelo. Assim, o Senhor disse: sê, pois, zeloso (imperativo presente, sê constantemente zeloso). Arrepende-te está no aoristo, requerendo uma ação imediata em uma decisão crucial. Pode parecer estranho que sê [..] zeloso preceda arrepende-te. Plumptre observa: “A raiz da maldade da igreja de Laodicéia e seus representantes era sua indiferença e mornidão, a ausência de qualquer zelo, de qualquer seriedade.
E o primeiro passo, portanto, para coisas mais elevadas era passar para um estado em que esses elementos de vida não mais seriam manifestos pela sua ausência”.
A esse chamado para arrependimento “Cristo acrescenta a mensagem mais terna encontrada nessas cartas”:”7 Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e com ele cearei, e ele, comigo (20).

Esse é um dos mais importantes textos do evangelho no Novo Testamento e deveria ser citado freqüentemente na evangelização pública e na abordagem pessoal. Por esse motivo, esse versículo deveria ser memorizado por todo cristão e ganhador de almas.
A simplicidade do evangelho é expressa de maneira singular nessa passagem. Cristo está parado à porta do coração de cada pecador, batendo e esperando para entrar. Ele não vai demolir a porta e forçar a entrada, porque nos criou com vontade própria e não violará esse aspecto. Mas se o pecador abrir a porta, o que só ele pode fazer, o Salvador promete entrar. A grande tela de Holman Hunt, “A Luz do Mundo”, é a evangelização tornada visual.

A idéia de “cear” é de comunhão, e mais especificamente de uma comunhão sem pressa ao redor da mesa do jantar, quando a agitação do dia passou. O pensamento é expresso belamente pela NEB: “e sentar para jantar com ele”. Esse aspecto também antevê o banquete eterno com Cristo. A comunhão é dupla. G. Campbell Morgan a descreve da seguinte forma: “Primeiro, serei seu Convidado, ‘Eu cearei com ele’. Ele será o meu convidado, ‘e ele comigo’. Sentarei à mesa que o seu amor provê e satisfarei o meu coração. Ele sentará à mesa que o meu amor proverá e satisfará o seu coração”.

5. Recompensa (3.21)

A promessa final é: Ao que vencer, lhe concederei que se assente comigo no meu trono, assim como eu venci e me assentei com meu Pai no seu trono. Esse é um eco e extensão da promessa que Jesus fez aos seus doze apóstolos em Mateus 19.28 e Lucas 22.29,30. Jesus venceu todas as tentações e provações na sua vida na terra e recebeu sua recompensa. Para aqueles que o seguem plena e fielmente até o fim, uma recompensa igual o estará aguardando. Essa promessa obviamente antecipa a vida futura.

6. Convite (3.22)

Mais uma vez os ouvintes dessas cartas são admoestados a ouvir o que o Espírito diz às igrejas. Todas as sete mensagens estão repletas de advertências e exortações salutares para os cristãos de hoje. Faríamos bem se prestássemos atenção a elas.


Elaboração pelo:- Evangelista Isaias Silva de Jesus
Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Em Dourados – MS

Comentário Bíblico Beacon

A Igreja em Laodicéia


A Igreja em Laodicéia -- vv. 14-22

Chegamos agora à última e pior das igrejas da Ásia, o oposto da igreja de Filadélfia; se, por um lado, na de Filadélfia não houve nada que fosse reprovado, na de Laodicéia não há nada que se elogie, e mesmo assim esse era um dos sete castiçais de ouro, pois uma igreja corrompido pode ainda assim ser uma igreja. Temos aqui, como anteriormente:

O sobrescrito, para quem e de quem. 1. Para quem: “...ao anjo da igreja que está em Laodicéia”. Essa tinha sido uma cidade famosa à beira do rio Licos, tinha um muro de grande circunferência, e três teatros de mármore, e, como Roma, estava construída sobre sete colinas. Parece que o apóstolo Paulo foi instrumento na implantação do evangelho nessa cidade, da qual ele escreveu urna epístola, como menciona na epístola aos Colossenses, no último capítulo, na qual lhes envia saudações. distando Laodicéia não mais do que 30 quilômetros de Colossos.

Nessa cidade foi realizado um concílio no quarto século, mas já faz muito tempo que foi demolida, e está em ruínas até os dias de hoje, um monumento medonho à ira do Cordeiro. 2. De quem foi enviada essa mensagem. Aqui o nosso Senhor se apresenta como “. .0 Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus”. (1) O Amém, o que é estável e imutável em todos os seus propósitos e promessas, que são nele sim, e por meio dele o Amém. (2) A testemunha fiel e verdadeira, cujo testemunho de Deus aos homens deve ser completamente recebido e totalmente crido, e cujo testemunho dos homens acerca de Deus será plenamente recebido e considerado, e será uma testemunha rápida mas verdadeira contra todos os que professam ser cristãos mas são indiferentes e mornos. (3) O princípio da criação de Deus, seja da primeira criação, e assim Ele é o princípio, isto é, a primeira causa, o Criador e Governador dela; seja da segunda criação, a igreja, e assim Ele é o cabeça do corpo, o primogênito dos mortos, como está no capítulo 1.5, de onde esses títulos são tomados. Cristo, tendo ressuscitado a si mesmo por meio do seu próprio e divino poder, como o cabeça de uni novo mundo, ressuscita almas mortas para que sejam templo e igreja vivos para Ele mesmo.

 O tópico da carta, em que observamos:

1. A séria acusação formulada contra essa igreja, ministros e pessoas, por alguém que os conhecia melhor do que eles se conheciam a si mesmos:  “. . nem és frio nem quente”, mas pior do que qualquer um desses. “Tomara que foras frio ou quente!” (v. 15). Mornidão ou indiferença na religião é a pior condição no mundo. Se a religião é algo real, é a coisa mais excelente, e por isso devemos levá-la muito a sério; se não é uma coisa real, é o mais vil dos embustes, e deveríamos ser muito sérios na nossa oposição a ela.
Se a religião é digna de alguma coisa, é digna de tudo; uma indiferença aqui é inescusável. “Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; e, se Baal (é Deus), segui-o”. Aqui não há lugar para neutralidade. Um inimigo declarado deve ter tratamento mais justo do que uma pessoa neutra e traiçoeira; e há mais esperança no caso de um pagão do que de alguém assim.

2. A ameaça de severo castigo: “. . .vomitar-te-ei da minha boca”. Assim como a água morna vira o estômago e provoca o vômito, assim os que professam sua fé mas são mornos viram o coração de Cristo contra eles. Ele está cansado deles, e não pode suportá-los por muito tempo.
Eles podem chamar sua mornidão de caridade, mansidão, moderação e grandeza da alma; é nauseante a Cristo, e torna assim os que se permitem a isso. Eles serão rejeitados, e definitivamente rejeitados; pois longe esteja do santo Jesus voltar-se ao que foi rejeitado.

3. Temos aqui a identificação de uma das causas dessa indiferença e inconsistência na religião, e essa é a presunção ou a auto-ilusão. Eles achavam que já estavam muito bem, e por isso eram indiferentes quanto a se estavam melhorando ou não: “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido...” (v. 17). Observe aqui: Que diferença havia entre os pensamentos que eles tinham de si mesmos e os pensamentos que Cristo tinha deles. (1) Os elevados pensamentos que eles tinham de si mesmos: “...dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta”; estavam ricos e enriquecendo mais, e foram enriquecidos a tal ponto que estavam acima de necessidades ou da possibilidade de necessidades. Talvez estivessem bem supridos com relação a seus corpos, e isso fez com que negligenciassem as necessidades da sua alma.

Ou talvez se sentissem bem supridos na sua alma; tinham conhecimento, e tomavam isso por religião; tinham dons, e os tomavam por graça; tinham inteligência, e a tomavam por verdadeira sabedoria; tinham ordenanças, e se apegaram a elas em vez de se apegarem ao Deus das ordenanças. Como deveríamos ser cuidadosos em não permitir a entrada do engano na nossa alma! Sem dúvida há muitos no inferno que uma vez pensavam estar no caminho para o céu. Supliquemos a Deus diariamente que não caiamos no erro de nos lisonjearmos e nos enganarmos a nós mesmos na preocupação pela nossa alma. (2) Os pensamentos maus que Cristo tinha deles; e Ele não estava enganado.

Ele sabia, embora eles não soubessem, que eles eram desgraçados, e miseráveis, e pobres, e cegos, e nus. O seu estado era desgraçado em si mesmo, e era tal que requeria piedade e compaixão de outros: embora eles estivessem orgulhosos de si mesmos, todos que conheciam o seu caso tinham pena deles. Pois: [1] Eles eram pobres, realmente pobres, quando diziam e pensavam que eram ricos; não tinham provisão para a alma da qual pudessem depender; sua alma estava morrendo de fome em meio à sua abundância; eles estavam em grande dívida para com a justiça de Deus, e não tinham nada para pagar nem que fosse a menor parte da dívida. [2] Eles estavam cegos; não conseguiam enxergar o seu estado, nem seu caminho, nem seu perigo; não conseguiam enxergar dentro de si mesmos; não conseguiam enxergar adiante; eram cegos, e mesmo assim pensavam que enxergavam; a própria luz que estava dentro deles era escuridão, e como deve ser grande essa escuridão.


Não conseguiam enxergar a Cristo, embora evidentemente exposto, e crucificado, diante de seus olhos. Não conseguiam enxergar a Deus pela fé, embora sempre estivesse presente com eles. Não conseguiam enxergar a morte, embora estivesse à frente deles. Não conseguiam olhar para dentro da eternidade, embora estivessem no limiar dela continuamente. [3] Eles estavam nus, sem roupas e sem casa ou refúgio para sua alma. Não tinham roupa, nem as vestes da justificação nem da santificação. Sua nudez tanto de culpa quanto de contaminação não tinha cobertura. Estavam sempre expostos ao pecado e à vergonha.

A sua justiça era de trapos de imundícia; eles eram trapos, que não os cobriam, trapos de imundícia, e os contaminavam. E estavam nus, sem casa e abrigo, pois estavam sem Deus, e Ele tem sido a habitação do seu povo em todas as épocas; somente nele a alma do homem pode encontrar descanso, e segurança, e todas as acomodações adequadas. As riquezas do corpo não enriquecem a alma; a visão do corpo não alumia a alma; a casa mais aconchegante para o corpo não vai fornecer o descanso e a segurança para a alma. A alma é uma coisa diferente do corpo, e precisa de acomodações adequadas à sua natureza, ou então em meio à prosperidade do corpo será desgraçada e miserável.

4. Temos aqui bom conselho dado por Cristo a esse povo pecaminoso, e o conselho é que abandonem essa vã e falsa opinião que têm de si mesmos, e se empenhem para serem o que aparentam ser: “...aconselho-te que de mim compres (v. 18). Observe: (1) O nosso Senhor Jesus continua a dar bons conselhos a quem lançou para trás seus conselhos. (2) A condição dos pecadores nunca é desesperadora enquanto desfrutarem dos generosos chamados e conselhos de Cristo. (3) O nosso bendito Senhor, o conselheiro, sempre dá o melhor conselho, e o que for mais apropriado à situação do pecador; como aqui: [1] Eles eram pobres; Cristo lhes aconselha que comprem dele ouro provado no fogo, para que sejam ricos.

Ele lhes dá a conhecer onde podem obter as verdadeiras riquezas e como podem obtê-las. Em primeiro lugar, onde podem obtê-las — com Ele mesmo; Ele não os envia aos ribeiros do Pactolus, nem às minas de Potosi, mas os convida a virem a Ele mesmo, a pérola de grande valor. Em segundo lugar, como eles devem obter esse verdadeiro ouro dele? Eles precisam comprá-lo. Mas isso parece desdizer tudo novamente. Como os que são pobres podem comprar ouro? Assim como podem comprar de Cristo vinho e leite, sem dinheiro e sem preço (Is 55.1).

E verdade que precisamos dispor de algo, mas não é nada de consideração valiosa, é somente para fazer lugar para receber as verdadeiras riquezas. “Separe-se do pecado e da auto-suficiência e venha a Cristo com a percepção da sua pobreza e do seu vazio, para que você possa ser preenchido com os tesouros escondidos dele”. [2] Eles estavam nus; Cristo lhes conta onde podem obter roupas, e roupas tais que possam cobrir sua vergonha e nudez.

Isso eles precisam receber de Cristo; e precisam somente tirar seus trapos de imundícia para que recebam e ponham as vestes brancas que Ele comprou e proveu para eles — sua própria justiça imputada como justificação e as vestes da santidade e da santificação. [3] Eles estavam cegos; e Ele lhes aconselha que dele comprem colírio para que vejam que abram mão da sua própria sabedoria e razão, que não são nada mais do que cegueira nas coisas de Deus, e se entreguem à sua palavra e Espírito, e seus olhos serão abertos para que vejam seu caminho e seu fim, sua tarefa e seus verdadeiros interesses; um novo e glorioso cenário se abrirá então para sua alma; um novo mundo provido dos objetos mais belos e excelentes, e essa luz será maravilhosa para os que estiverem recém libertadas dos poderes das trevas. Esse é o sábio e bom conselho que Cristo dá a almas indiferentes; e, se elas o seguirem, Ele vai se comprometer para honrar a sua realização.

5. Aqui é acrescentado grande e generoso encorajamento a esse povo pecaminoso para que levem em séria consideração a admoestação e o conselho que Cristo lhes deu (vv. 19,20). Ele lhes diz: (1) Isso lhes foi dado com verdadeira e meiga afeição: “Eu repreendo e castigo a todos quantos amo. Vocês podem pensar que lhes dei palavras duras e severas censuras; tudo isso foi por amor por suas almas. Eu não teria repreendido e corrigido tão abertamente sua mornidão pecaminosa e sua vã confiança, se Eu não fosse um amante das suas almas; se eu os tivesse odiado, Eu os teria abandonado, para que continuassem no pecado até a sua ruína”. Os pecadores devem aceitar as repreensões da palavra e da vara de Deus como sinais da sua boa vontade por suas almas, e como conseqüência devem se arrepender com seriedade, e se voltar para aquele que os fere; melhores são as censuras e as feridas feitas pelo amigo do que os sorrisos lisonjeiros do inimigo. (2) Se eles se submetessem às suas admoestações, Ele estava disposto a torná-los bons para sua alma: “Eis que estou à porta e bato...” (v. 20).

Observe aqui: [1] Cristo prazer por meio da sua palavra e Espírito para vir à porta do coração dos pecadores; Ele se aproxima deles wu misericórdia, disposto a fazer-lhes uma visita bondosa. [2] Ele encontra essa porta fechada para Ele; o coração do homem por natureza está fechado para Cristo por ignorância, incredulidade, preconceitos pecaminosos. [3] Quando Ele encontra o coração fechado, não recua imediatamente, mas espera a oportunidade de ser gracioso, mesmo que sua cabeça se cubra de sereno. [4] Ele usa todos os meios adequados para despertar pecadores, e fazer com que se abram para Ele; Ele chama por meio da sua palavra, Ele bate à porta por impulso do seu Espírito sobre a consciência deles. [5] Os que abrem a porta para Ele vão desfrutar da sua presença, para seu grande conforto e vantagem. Ele vai cear com eles; Ele vai aceitar o que houver de bom neles; Ele vai comer seu fruto prazeroso; e Ele vai trazer consigo a melhor parte da celebração. Se o que Ele encontra dá somente uma festa escassa, o que Ele traz vai compensar a deficiência; Ele vai dar nova provisão de graça e conforto, e por meio disso estimular novas ações de fé, e amor, e prazer; e em tudo isso Cristo e o seu povo arrependido vão desfrutar da agradável comunhão uns com os outros. Que infelicidade que pecadores indiferentes e obstinados perdem tanto por se negarem a abrir a porta do seu coração a Cristo!

Chegamos agora à conclusão dessa carta; e aqui temos como anteriormente:

1. A promessa feita ao fiel que vencer. Sugere-se aqui: (1) Que, embora essa igreja aparentemente estivesse totalmente devastada e destruída pela mornidão e autoconfiança, mesmo assim era possível que por meio das repreensões e conselhos de Cristo eles pudessem ser inspirados com novo zelo e vigor, e pudessem se tornar vencedores na sua batalha espiritual. (2) Que, se fizessem isso, todas as faltas anteriores seriam perdoadas, e teriam uma grande recompensa.

E o que é essa recompensa? “Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono, assim como eu venci e me assentei com meu Pai no seu trono” (v. 21).
Aqui está claro: [1] Que o próprio Cristo enfrentou suas tentações e conflitos. [2] Que Ele as venceu todas e foi mais do que vencedor. [3] Que, como recompensa por seu conflito e vitória, Ele se assentou com Deus Pai no seu trono, tomado por aquela glória que Ele possuía com o Pai desde a eternidade, mas que Ele teve prazer em guardar em segredo aqui na terra, deixando-a por assim dizer nas mãos do Pai, como garantia de que terminaria sua obra como Salvador antes de reassumir aquela glória manifesta; e, tendo feito isso, então pignus reposcere — Ele reivindica a garantia, Ele aparece na sua glória divina igual à do Pai. [4] Que os que são conformes a Cristo nas suas provações e vitórias serão conformes a Ele na sua glória; eles se assentarão com Ele no seu trono, no seu trono de juízo no fim dos tempos, no seu trono de glória para toda a eternidade, brilhando por seus raios em virtude de sua união com Ele e de sua relação com Ele, como o corpo místico de que Ele é o cabeça.

2. Tudo é concluído com o pedido geral de atenção (v. 22), colocando na mente de todos a quem essas cartas são dirigidas que o que elas contêm não é de interpretação particular, não tem a intenção de ser instrução, censura e correção dessas igrejas em particular somente, mas de todas as igrejas de Cristo em todas as épocas e partes do mundo; e como vai haver uma semelhança em todas as igrejas sucessoras destas, tanto na sua beleza quanto nos seus pecados, assim elas podem esperar que Deus vai tratar delas da forma em que tratou destas aqui, que são padrão do que igrejas fiéis e frutíferas podem esperar de Deus, e o que as que são infiéis podem esperar sofrer de suas mãos; sim, que a forma de Deus tratar as suas igrejas possa prover instrução útil ao restante do mundo, para que se ponham a refletir: “Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e, se primeiro começa por nós, qual será o fim daqueles que são desobedientes ao evangelho de Deus?” (1 Pe 4.17).

Assim terminam as mensagens de Cristo às igrejas da Asia, a parte epistolar deste livro. Chegamos agora à parte profética.



Elaboração pelo:- Evangelista Isaias Silva de Jesus
Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Em Dourados – MS

Comentário Bíblico Mathew Henry  - Novo Testamento Edição Completa



A Carta à Igreja em Laodicéia

A Carta à Igreja em Laodicéia

O vale de Lico, na Ásia Menor, tinha três cidades principais: Colossos, conhecida por suas fontes de água fria, Hierápolis, conhecida por suas fontes de águas termais, e Laodicéia, conhecida por sua igreja morna, que causou enjôo no seu Senhor, Jesus Cristo.

Ao Anjo da Igreja em Laodicéia (3:14-22)

A igreja em Laodicéia (14): A igreja em Laodicéia é citada no Apocalipse (aqui e em 1:11) e na carta de Paulo aos colossenses (4:13-16). As cidades de Laodicéia, Colossos e Hierápolis (veja Colossenses 4:13) ficavam no vale do rio Lico. Laodicéia situava-se no local da cidade moderna de Denizli, Turquia, no cruzamento de estradas principais da Ásia Menor. Antigamente, a água da cidade vinha via aquedutos das fontes termais ao sul da cidade. Até chegar em Laodicéia, a água ficava morna. A qualidade dela não era boa, e a cidade ganhou a reputação de ter água não potável. Ao engolir esta água, muitas pessoas vomitavam. Semelhantemente, Jesus sentiu vontade de vomitar de sua boca a igreja de Laodicéia (3:15-16).
Outras características de Laodicéia servem como base para a linguagem desta carta. Foi conhecida como um centro bancário (3:17-18). A região produzia lã preta (3:18) e um tipo de colírio para os olhos (3:19).

O Amém (14): Esta palavra vem de origem hebraica. No começo de uma afirmação significa “certamente” ou “verdadeiramente”. No fim, pode ser entendida como “que seja assim”. Jesus é a palavra final, a autoridade absoluta.

A testemunha fiel e verdadeira (14): Quase a mesma descrição encontrada em 1:5. Jesus traz o verdadeiro testemunho sobre seu Pai e a vontade dele para com os homens. Ele fala a verdade em cada promessa e cada advertência que vem da sua boca.

O princípio da criação de Deus (14): Esta expressão admite duas interpretações. Dependemos de informações de outros trechos bíblicos para escolher o sentido correto. A frase em si pode ser entendida no sentido passivo (o primeiro criado por Deus), ou no sentido ativo (a origem ou a fonte da criação). A diferença é óbvia e enorme. Jesus é uma criatura ou o eterno Criador? Ele foi feito por Deus ou é Deus? A resposta vem de outras passagens. Jesus é eterno (João 1:1; Apocalipse 1:18), o primeiro e o último (Apocalipse 1:17). Ele é Deus conosco (Mateus 1:23), o verdadeiro Deus que se fez carne (João 1:14). Ele é o “Eu Sou” (João 8:24,58; veja Êxodo 3:14), o soberano “Senhor dos senhores e o Rei dos reis” (Apocalipse 17:14). Jesus não foi criado. Ele não veio a existir. Ele é eterno. Ele é Deus. Quem não aceitar este fato morrerá no seu pecado (João 8:24).

Conheço as tuas obras (15): Como fez com todas as igrejas destes dois capítulos, Jesus expressa o seu conhecimento íntimo da igreja em Laodicéia. Ele anda no meio dos candeeiros (1:13,20; 2:1).

Que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! (15): As águas termais de Hierápolis ajudavam no tratamento de alguns problemas de saúde. As águas frias de Colossos eram boas para beber. Mas as águas mornas de Laodicéia basicamente não serviam para nada; só davam ânsia de vômito!
Assim...estou a ponto de vomitar-te da minha boca (16): Jesus olhou para a igreja de Laodicéia, contente no seu estado de auto-suficiência e falsa confiança, e sentiu vontade de expulsá-la de sua presença.

Pois dizes (17): As afirmações da própria igreja de Laodicéia não refletiam o verdadeiro estado dela. É fácil 
dizer que está tudo bem na vida espiritual de uma igreja ou de uma pessoa, mas Jesus sabe a verdade. Ele vê as obras e sonda os corações. A igreja de Laodicéia mentia para si mesma, mas Jesus não foi enganado!

Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu (17): O orgulho dos discípulos de Laodicéia os cegou ao ponto de não enxergarem os seus problemas. Eles se achavam fortes e independentes, mas Jesus viu o estado real de uma igreja fraca, cega e infrutífera. A cidade de Laodicéia sofreu um terremoto em 60 d.C. e foi reedificada com recursos próprios, sem auxílio do governo romano. Parece que a igreja sentia a mesma atitude de auto-suficiência, perigosíssima num rebanho de ovelhas que precisa seguir o seu Bom Pastor! Numa cidade conhecida por tratamentos de olhos, a igreja se tornou cega e não procurou o tratamento do Grande Médico. Precisavam da humildade dos publicanos e pecadores (Lucas 5:31-32). Numa cidade que produzia roupas de lã, a igreja andava nua, sem a vestimenta de justiça oferecida por seu Senhor (2 Coríntios 5:3; Colossenses 3:9-10).

Aconselho-te (18): Jesus não elogiou a igreja em Laodicéia, mas ofereceu conselho para guiá-la de volta à comunhão íntima com ele. Sugeriu três coisas necessárias para a igreja:

1. Comprar de Cristo ouro refinado. A verdadeira riqueza é espiritual, e vem exclusivamente de Deus. Ele oferece o ouro puro, refinado pelo fogo.

2. Comprar do Senhor vestiduras brancas. É Deus quem lava os nossos pecados e nos veste de pureza e de atos de justiça (3:4; 19:8).

3. Comprar de Jesus colírio para os olhos. Somente Jesus pode curar a cegueira espiritual que aflige os orgulhosos e auto-suficientes. Foi exatamente o mesmo problema que Jesus criticou nos fariseus (Mateus 15:14; 23:25-26). É o mesmo problema de qualquer um que esquece da importância do sacrifício de Jesus e começa a confiar em si mesmo (2 Pedro 1:9).

Eu repreendo e disciplino a quantos amo (19): A correção que vem de Deus é uma manifestação do seu amor (Hebreus 12:4-11). Quando Deus nos corrige, devemos aceitar a disciplina como ele deseja, para o nosso próprio bem. Ele quer nos conduzir ao arrependimento e à plena comunhão com ele. A disciplina aplicada pelos servos de Deus deve, também, ser motivada pelo amor (Hebreus 12:12-13). Esta atitude deve guiar os pais que corrigem os seus filhos (Provérbios 13:24), e os cristãos que corrigem os seus irmãos na fé (Tiago 5:19-20; 2 Coríntios 2:5-8).

Sê, pois, zeloso e arrepende-te (19): A solução ao problema dos discípulos em Laodicéia não seria meramente algumas mudanças externas. Precisavam do zelo para com Deus para se arrependerem.
Eis que estou à porta e bato (20): Jesus pôs uma porta aberta diante da igreja de Filadélfia (3:7), mas a igreja de Laodicéia colocou uma porta fechada diante de Jesus! Ele bate, mas não força ninguém a abrir a porta. Ele chama, mas depende dos ouvintes atender à voz dele. Este versículo reforça o entendimento do livre arbítrio do homem. Jesus oferece a salvação a todos, mas cada pessoa toma a sua própria decisão.
Entrarei ... e cearei (20): Ambas as figuras, aqui, representam a comunhão com Cristo. Ele entra na casa e habita naqueles que obedecem a palavra dele (João 14:23). Cear com alguém sugere uma relação especial de estar de acordo ou em comunhão (1 Coríntios 10:21; 5:11). É um privilégio especial comer à mesa do rei (2 Samuel 19:28). Não há privilégio maior do que a bênção de cear com o Rei dos reis!

Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono (21): Os vencedores terão o privilégio de reinar com Cristo (veja 2:26-27; 20:4). Tal honra não seria para os orgulhosos e auto-suficientes, mas para os humildes e obedientes. Jesus foi obediente ao Pai aqui na terra para ser exaltado ao lado dele no céu (Filipenses 2:8-9). Somente os obedientes serão exaltados com Cristo.

Quem tem ouvidos... (22): Jesus bate e chama. Cabe ao homem ouvir e atender a sua voz!

Conclusão

Na carta à igreja em Laodicéia, Jesus não citou nenhuma doutrina errada e nenhum pecado de imoralidade. Ele não condenou a igreja por práticas idólatras. Esta igreja, que se achava rica e forte, foi criticada por seu orgulho e auto-suficiência. Exaltou-se, ao invés de se humilhar diante do Senhor dos senhores.


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