O Pai enviou o Filho
TEXTO ÁUREO
“Nisto se
manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao
mundo, para que por ele vivamos.” (1Jo 4.9).
ENTENDA O TEXTO ÁUREO
O apóstolo João introduz 1João 4.9 com uma afirmação densa e
reveladora. “Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco” indica que
o amor divino não é uma ideia abstrata nem um sentimento indefinido. O verbo
grego usado aqui é ephanerōthē (ἐφανερώθη), aoristo passivo de phaneróō, que
significa tornar visível, revelar de forma concreta aquilo que estava oculto.
João ensina que o amor de Deus, embora eterno, tornou-se historicamente
perceptível em um ato específico. O amor não é definido por palavras, mas por
uma ação redentora no tempo.
A expressão “o amor de Deus” deve ser
entendida como amor que procede de Deus, e não apenas amor dirigido a Ele. João
mantém coerência com todo o seu argumento na epístola, onde Deus não apenas
possui amor, mas é amor em sua essência. Esse amor, porém, não se revela de
maneira genérica à humanidade, mas “para conosco”, isto é, em direção a pessoas
concretas, pecadores reais, alcançados por uma iniciativa soberana.
Aqui já se percebe o fundamento
reformado da salvação como movimento descendente da graça, não como resposta ao
mérito humano. João afirma que esse amor se manifestou no fato de que “Deus
enviou”. O verbo apéstalken (ἀπέσταλκεν), perfeito ativo de apostéllō, carrega
a ideia de envio com missão definida e autoridade delegada. O Pai não apenas
permitiu que o Filho viesse, mas o enviou deliberadamente com um propósito
redentor. O uso do perfeito indica uma ação passada com efeitos permanentes. O
envio do Filho não foi um evento isolado do passado, mas uma realidade cujos
resultados continuam operando na história e na vida da igreja.
O título “Filho unigênito” traduz o
termo grego monogenḗs (μονογενής), que não significa “gerado” no sentido
biológico, mas “único em sua natureza”, “singular”, “sem igual”. João afirma a
singularidade absoluta do Filho em relação ao Pai. Ele não é apenas mais um
mensageiro, mas o Filho eterno que compartilha da mesma essência divina. A
profundidade do amor de Deus se mede não apenas pelo ato de enviar, mas por
quem foi enviado. Deus entregou o que lhe era único, precioso e eterno. O envio
ocorre “ao mundo”, termo que João usa frequentemente para designar a humanidade
caída, rebelde e espiritualmente hostil a Deus.
O amor revelado aqui não é reativo,
mas gracioso. Deus não amou um mundo que o buscava, mas um mundo que precisava
ser resgatado. Isso confronta qualquer visão sentimental do amor divino.
Trata-se de um amor santo, soberano e sacrificial, que age apesar da oposição
humana e não por causa da virtude humana.
O propósito do envio é expresso na
cláusula final “para que por ele vivamos”. O verbo zēsōmen (ζήσωμεν), aoristo
do subjuntivo de záō, aponta para vida verdadeira, espiritual e eterna, em
contraste com a morte produzida pelo pecado. A vida não é apenas prolongamento
da existência, mas participação na vida que procede de Deus. A expressão “por
ele” afirma mediação exclusiva. Não vivemos por princípios, por obras ou por
esforço moral, mas por meio da união com Cristo, aplicada pelo Espírito Santo.
Exegeticamente, 1 João 4.9 ensina que a salvação nasce no amor eterno do Pai, se
manifesta historicamente no envio do Filho e resulta em vida real para aqueles
que estão unidos a Cristo. Pastoralmente, o texto confronta a superficialidade
espiritual e chama a igreja a redefinir amor, fé e vida cristã à luz da cruz.
Quem compreende esse amor não vive mais para si, mas responde com gratidão,
obediência e uma vida transformada pelo Deus que se revelou em Cristo.
VERDADE PRÁTICA
O envio do Filho revela o amor do Pai e a perfeita
unidade da Trindade no plano da salvação, garantindo a redenção e a adoção dos
crentes.
ENTENDA A VERDADE PRÁTICA:
O envio eterno e soberano do Filho
pelo Pai manifesta de forma histórica e concreta o amor gracioso de Deus,
revela a perfeita unidade e harmonia da Trindade na obra da salvação e
assegura, pela atuação eficaz do Espírito Santo, a redenção plena, a vida nova
e a adoção filial daqueles que, pela fé, são unidos a Cristo.
LEITURA BÍBLICA = João
3.16,17; 1 João 4.9,10; Gálatas 4.4-6.
Observação
editorial: os comentários abaixo não são citações
literais, mas sínteses teológicas fiéis às linhas interpretativas das obras
citadas.
João 3.16,17
16 Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito,
para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
As Bíblias de Estudo Pentecostal
(CPAD), MacArthur (SBB), Plenitude (SBB) e Aplicação Pessoal (CPAD) convergem
ao afirmar que este versículo revela a iniciativa soberana do amor de Deus. O
verbo “amou” traduz o grego agapáō, indicando um amor ativo, deliberado e
sacrificial. Não se trata de mera afeição, mas de uma decisão graciosa de Deus
em favor de um mundo caído.
A Bíblia Pentecostal destaca que esse
amor se expressa em ação concreta. Deus “deu” o Filho, não apenas o enviou, mas
o entregou ao sofrimento redentor.
A Bíblia MacArthur enfatiza que
“mundo” (kósmos) não aponta para universalismo salvífico automático, mas para a
extensão do amor divino a pessoas de todas as nações e classes, sem distinção
étnica ou moral. A salvação, porém, é aplicada “ao que nele crer”. A Bíblia
Plenitude reforça que a fé não é mera aceitação intelectual, mas confiança pessoal
e submissão a Cristo. A vida eterna, segundo a Aplicação Pessoal, não começa
após a morte, mas no momento em que o pecador é unido a Cristo pela fé.
17. Porque Deus enviou o
seu Filho ao mundo não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse
salvo por ele.
Aqui, as Bíblias de Estudo destacam a
natureza redentiva da missão do Filho. O verbo “enviar” (apostéllō) aponta para
uma missão com autoridade divina. O Filho vem como o Enviado do Pai.
A Bíblia Pentecostal observa que a
condenação já repousa sobre o mundo por causa do pecado. Cristo não veio para
intensificá-la, mas para oferecer salvação. A Bíblia MacArthur ressalta que a
ausência de condenação não elimina o juízo final, mas revela que a primeira
vinda de Cristo teve caráter salvífico.
A Plenitude enfatiza que a salvação
ocorre “por meio dele”, reforçando a exclusividade cristológica. A Aplicação
Pessoal chama atenção para o apelo pastoral do texto. Rejeitar Cristo não é
neutralidade, mas permanecer sob condenação.
1 João 4.9,10
9 Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu
Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos.
As Bíblias de Estudo destacam que João
não define o amor em termos abstratos, mas históricos. A Bíblia Pentecostal
observa que “manifestou” (phaneróō) significa tornar visível aquilo que antes
estava oculto.
O amor de Deus se torna visível na
encarnação. A vida que recebemos “por meio dele” não é apenas biológica, mas
espiritual e eterna.
A Bíblia MacArthur enfatiza que a vida
verdadeira só existe em união com Cristo. Fora dele há existência, mas não
vida.
A Plenitude ressalta que o envio do
Filho aponta para a centralidade da encarnação no plano da salvação. A
Aplicação Pessoal sublinha que esse amor exige resposta. Quem recebeu vida por
meio do Filho é chamado a viver em amor.
10 Nisto está o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que
ele nos amou e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados.
Este versículo aprofunda o anterior ao
esclarecer a natureza unilateral da graça. A Bíblia Pentecostal destaca que o
amor não nasce da iniciativa humana. Ele procede exclusivamente de Deus. A
palavra “propiciação” traduz hilasmós, indicando um sacrifício que satisfaz a
justiça divina e remove a ira santa contra o pecado.
A Bíblia MacArthur enfatiza fortemente
o aspecto judicial do termo. O sacrifício de Cristo não apenas demonstra amor,
mas resolve o problema do pecado diante de Deus. A Bíblia Plenitude acrescenta
que essa propiciação restaura o relacionamento quebrado entre Deus e o homem.
A Aplicação Pessoal observa que
compreender essa verdade destrói qualquer tentativa de autossalvação e produz
humildade e gratidão.
Gálatas 4.4-6
4 mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de
mulher, nascido sob a lei,
As Bíblias de Estudo destacam a
soberania de Deus na história. A Bíblia Pentecostal aponta que “plenitude do
tempo” revela um momento determinado por Deus, não pelo acaso. A encarnação
ocorre no tempo exato do plano redentor. A expressão “nascido de mulher” afirma
a plena humanidade de Cristo, enquanto “debaixo da lei” indica sua submissão à
Lei para redimir os que estavam sob ela.
A Bíblia MacArthur reforça que Cristo
cumpriu perfeitamente a Lei em lugar dos pecadores. A Plenitude ressalta que
essa submissão foi voluntária e necessária para a redenção. A Aplicação Pessoal
destaca que Deus nunca se atrasa. Ele age no tempo certo, mesmo quando o ser
humano não percebe.
5 para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção
de filhos.
Aqui aparece o duplo resultado da obra
de Cristo. Redenção e adoção. A Bíblia Pentecostal observa que “redimir”
(exagorázō) aponta para libertação mediante pagamento de preço.
A Bíblia MacArthur enfatiza que a
adoção é um ato legal e relacional. O crente não é apenas perdoado, mas
recebido como filho legítimo. A Bíblia Plenitude destaca o privilégio da
filiação espiritual. A Aplicação Pessoal chama atenção para a mudança de
identidade. Não somos mais escravos do medo, mas filhos amados.
6 E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de
seu Filho, que clama: Aba, Pai.
Este versículo mostra a aplicação da
salvação pelo Espírito. A Bíblia Pentecostal enfatiza a atuação interna do
Espírito Santo, que gera comunhão viva com o Pai. O clamor “Aba” expressa
intimidade, confiança e dependência filial.
A Bíblia MacArthur ressalta que o
Espírito confirma objetivamente nossa filiação. A Plenitude destaca que essa
relação não é meramente doutrinária, mas experiencial. A Aplicação Pessoal
aponta que o Espírito transforma a oração, tornando-a relacional e viva.
INTRODUÇÃO
No coração da revelação bíblica está
uma verdade que sustenta toda a fé cristã: a salvação não nasce da iniciativa
humana, mas do movimento eterno de Deus em direção ao mundo. O Pai envia o
Filho. Esse envio não é um gesto reativo diante do pecado, mas a expressão
histórica de um propósito estabelecido antes da fundação do mundo. Quando as
Escrituras afirmam que Deus “enviou” o seu Filho, utilizam o verbo grego
apostéllō, que carrega a ideia de comissionamento com autoridade e missão
definida.
O Filho não vem por acaso, nem apenas
como exemplo moral. Ele vem investido da vontade do Pai, carregando em si a
decisão soberana de Deus de intervir na história para restaurar aquilo que foi
perdido. Aqui, a redenção não começa no Calvário, mas no conselho eterno do
Deus Triúno. Esse envio revela, de modo concreto, a natureza do amor divino. Em 1 João 4.9, o amor não é descrito
como sentimento abstrato, mas como ação visível e verificável. Deus amou
enviando.
O amor do Pai não é provocado pela
resposta humana, nem condicionado pela dignidade do mundo, mas nasce em Deus e
se dirige a um mundo espiritualmente morto. João afirma que o propósito desse
envio é “para que por ele vivamos”, indicando que a vida verdadeira não é
apenas prolongamento biológico, mas participação na vida que procede de Deus. Trata-se
de uma obra vivificadora, na qual o Filho assume a condição humana para
comunicar vida divina. A encarnação, portanto, não é um meio temporário, mas
parte essencial do modo como Deus decide amar e salvar.
Ao contemplarmos o envio do Filho,
somos conduzidos à harmonia perfeita da Trindade no plano da salvação. Não há
competição de vontades, nem divisão de essência. O Pai envia, o Filho vem
voluntariamente, e o Espírito aplica essa obra com eficácia. Cada Pessoa divina
atua de forma distinta, porém inseparável, revelando um único propósito
redentor. Essa verdade não é apenas doutrina a ser compreendida, mas fundamento
para a vida cristã.
Ela nos chama à confiança, pois a
salvação não repousa na instabilidade humana, mas na fidelidade eterna de Deus.
Também nos chama à adoração reverente, pois fomos alcançados por um amor que
pensou nossa redenção antes mesmo de existirmos. Aqui começa nossa reflexão,
diante de um Deus que não apenas falou, mas enviou, entrou na história e nos
deu vida em seu Filho.
I. O ENVIO
DO FILHO E O AMOR DO PAI
1. O amor
incondicional do Pai. O envio de Jesus Cristo ao mundo é a
revelação mais clara e profunda do amor do Pai. João 3.16 não apresenta esse amor como ideia abstrata, mas como um
ato concreto e histórico. Deus amou, e por isso enviou. O verbo grego agapáō e
o substantivo agápē descrevem um amor que não nasce da atração, nem da resposta
do outro, mas da decisão soberana de quem ama. Trata-se de um amor que tem
origem em Deus, pois Ele mesmo é amor, como afirma 1 João 4.8.
Esse amor não reage ao valor do objeto
amado. Ele cria valor onde não havia. Aqui aprendemos que a salvação não começa
no esforço humano, mas no coração gracioso do Pai. Quando a Escritura declara
que Deus amou “o mundo”, ela não se refere a um mundo neutro ou disposto a
buscá-lo, mas a uma humanidade caída, rebelde e espiritualmente morta. O termo
kósmos, em João, aponta para o sistema humano em oposição a Deus. Ainda assim,
é esse mundo que Deus decide amar. Como observa a tradição exegética, o amor
divino não ignora o pecado, mas o enfrenta por meio do sacrifício. O Pai não
envia o Filho para negociar com a culpa humana, mas para resolvê-la. João 3.17 deixa claro que a intenção do
envio não é condenação, mas salvação.
Isso revela um amor que age com
propósito redentor, não com julgamento imediato. Esse amor é profundamente
gracioso. Efésios 2.4-5 afirma que
Deus nos amou quando ainda estávamos mortos em nossas transgressões. Aqui, o
amor precede qualquer arrependimento consciente. Ele não é resposta à fé; é a
fonte da fé.
Conforme ensina Stanley Horton, a
graça não apenas oferece perdão, mas cria as condições espirituais para que o
pecador responda a Deus. Assim, o envio do Filho demonstra que a iniciativa da
salvação pertence inteiramente ao Pai, que age movido por misericórdia e não
por mérito humano.
Essa verdade confronta nossa tendência
de condicionar o amor de Deus ao desempenho espiritual. Muitos vivem como se
fossem tolerados por Deus, e não amados por Ele. O evangelho corrige essa
distorção. O Pai não nos amou depois que mudamos. Ele nos amou para que
fôssemos transformados. Esse amor incondicional não produz acomodação, mas
gratidão obediente.
Quem compreende o envio do Filho como
expressão do amor do Pai passa a viver não para conquistar aceitação, mas a
partir dela. Na prática, essa doutrina nos chama a refletir o mesmo amor que
recebemos. Paulo afirma que o amor cristão busca o bem do outro, não a
autopromoção. Se fomos alcançados por um amor que nos encontrou na indignidade,
não podemos nos relacionar com o próximo a partir de critérios de merecimento.
O envio do Filho redefine nossa forma de amar, de servir e de anunciar o
evangelho. Amar como Deus amou é viver com o coração moldado pela graça que nos
salvou.
2. A
iniciativa soberana de Deus. A
Escritura afirma com clareza que a salvação nasce na iniciativa de Deus, não na
reação humana. Efésios 1.4-5 nos
conduz ao coração desse plano ao declarar que Deus “nos elegeu nele antes da
fundação do mundo”. Essa afirmação não descreve um decreto arbitrário ou
oculto, mas um propósito redentor estabelecido em Cristo. O texto não diz que
fomos eleitos fora dele, nem independentemente dele, mas “nele”. A eleição,
portanto, é cristocêntrica. Deus determinou, desde a eternidade, que todos os
que estivessem unidos a Cristo pela fé participariam das bênçãos da salvação.
O foco do texto não está na exclusão
de indivíduos, mas na provisão graciosa de um caminho seguro de redenção em seu
Filho. O verbo grego traduzido por “elegeu” é eklegomai, que significa escolher
com propósito e intenção. No contexto paulino, essa escolha não anula a
responsabilidade humana, mas revela a prioridade da graça. Deus escolhe em
Cristo uma comunidade santa, destinada à adoção, e convida a humanidade a
participar dessa realidade por meio da fé. A expressão “antes da fundação do
mundo” aponta para a anterioridade do plano, não para a predeterminação
fatalista de destinos individuais.
Como destacam intérpretes arminianos
clássicos, Paulo descreve o “como” e o “em quem” da salvação, não um decreto
secreto sobre quem crerá ou não. Efésios
1.5 aprofunda essa verdade ao afirmar que Deus nos predestinou para adoção
de filhos por meio de Jesus Cristo. O termo proorízō indica estabelecer limites
ou um destino previamente definido. Esse destino, porém, é a adoção, não a fé.
Deus predestinou o tipo de relacionamento que teria com os que estivessem em
Cristo.
A adoção não é imposta, mas oferecida.
Ela se concretiza quando o pecador responde, pela fé, ao chamado gracioso do
evangelho. Assim, a predestinação bíblica não elimina a liberdade humana, mas assegura
que todo aquele que crê será plenamente recebido como filho. Essa leitura é
confirmada por 1 Pedro 1.18-20, onde
o Filho é apresentado como conhecido antes da criação do mundo, mas manifestado
no tempo devido.
O plano estava pronto antes da queda,
pois Deus jamais foi surpreendido pelo pecado. Contudo, a aplicação desse plano
ocorre na história, mediante a resposta humana à revelação divina. Deus tomou a
iniciativa ao enviar o Salvador, mas não força a aceitação dessa salvação. Ele
age soberanamente, sem violar a liberdade que Ele mesmo concedeu ao ser humano.
A declaração de 1 João 4.10 reforça esse ponto ao afirmar que o amor de Deus
precede qualquer atitude humana. Não fomos nós que iniciamos o movimento em
direção a Deus. Foi Ele quem nos amou e enviou o Filho como propiciação pelos
nossos pecados. A iniciativa é divina, a resposta é humana, e o mérito é
inteiramente da graça. Romanos 5.8
afirma que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores, revelando que o
amor salvador de Deus antecede nossa conversão, mas não dispensa nossa fé.
Essa verdade corrige dois extremos
perigosos. De um lado, o orgulho espiritual que imagina ter conquistado a
salvação. De outro, o fatalismo que paralisa a responsabilidade pessoal. A
iniciativa soberana de Deus não nos leva à passividade, mas à gratidão e à
obediência. Sabemos que Deus agiu primeiro, mas também sabemos que somos
chamados a responder com arrependimento e fé viva. Essa compreensão gera
humildade diante de Deus e zelo na proclamação do evangelho.
Na vida diária, essa doutrina nos
convida a descansar na fidelidade do plano divino e, ao mesmo tempo, a viver
com urgência espiritual. Deus já preparou, em Cristo, tudo o que é necessário
para a salvação. Cabe a nós permanecer nele, pela fé, e anunciar ao mundo que a
porta da graça continua aberta. A iniciativa foi de Deus. A resposta agora
passa por nossas mãos, nossos lábios e nosso testemunho.
3. O envio
do Filho e a Trindade. Quando o Evangelho de João afirma que
o Pai “enviou” o Filho, o texto não sugere inferioridade ou submissão
ontológica dentro da Trindade. O verbo grego apostéllō descreve uma missão
confiada, não uma relação de superioridade de essência. Nas Escrituras, o envio
do Filho deve ser lido à luz do amor do Pai e do propósito redentor
estabelecido desde a eternidade.
Em 1 João 4.10, o envio é apresentado como dádiva graciosa, não como
imposição hierárquica. O Pai oferece o que tem de mais precioso, não porque o
Filho seja menor, mas porque ambos compartilham a mesma natureza divina e a
mesma vontade salvadora. A ideia de uma hierarquia interna na Trindade surgiu
historicamente de leituras equivocadas da obediência do Filho durante a
encarnação. Textos como João 6.38 e
Filipenses 2.8 foram interpretados fora de seu contexto redentor,
confundindo submissão funcional com inferioridade essencial.
A tradição cristã histórica sempre
distinguiu entre a Trindade imanente, que diz respeito ao ser eterno de Deus, e
a Trindade econômica, que trata da atuação de cada Pessoa no plano da salvação.
O erro surge quando funções temporárias assumidas na economia da redenção são
projetadas para dentro da essência eterna de Deus. Biblicamente, a igualdade
das Pessoas divinas é afirmada de modo inequívoco.
João
1.1 declara que o Verbo era Deus. João 10.30 revela a unidade essencial
entre o Pai e o Filho.
João
14.26 apresenta o Espírito como enviado com a mesma
autoridade divina. Nenhuma dessas afirmações permite uma leitura hierárquica no
ser de Deus. O Pai não é mais Deus que o Filho, nem o Espírito é menos divino
por proceder do Pai e do Filho. Como ensinam os comentários clássicos, há
distinção de Pessoas, mas não gradação de divindade. A distinção que a
Escritura apresenta é funcional e redentiva.
O Pai planeja a salvação, o Filho a
executa por meio da encarnação e da cruz, e o Espírito a aplica eficazmente ao
coração humano. Essa ordem não revela desigualdade, mas harmonia. Jesus afirma
que veio fazer a vontade do Pai porque compartilha dessa vontade, não porque
lhe seja alheio ou inferior. A obediência do Filho é expressão de amor
trinitário, não de coerção. Trata-se de uma obediência voluntária, assumida no
contexto da encarnação, para cumprir a redenção da humanidade.
Teologicamente, insistir em hierarquia
dentro da Trindade enfraquece a própria doutrina da salvação. Se o Filho fosse
inferior, sua obra não teria valor infinito.
Se o Espírito fosse subordinado em
essência, sua aplicação da salvação seria limitada. A fé cristã repousa na
convicção de que o Deus que salva é plenamente Deus em cada uma de suas
Pessoas. Como afirma Efésios 1.3-14,
a obra redentora é uma sinfonia trinitária, na qual cada Pessoa atua em
perfeita unidade, do decreto eterno à consumação final.
Essa verdade nos ensina a adorar com
reverência e equilíbrio. Não adoramos três deuses, nem um Deus fragmentado.
Adoramos o Deus Triúno, perfeito em amor e unidade. Também aprendemos que
serviço e submissão, quando vividos à luz do amor, não diminuem ninguém. O
Filho nos mostra que é possível servir sem perder dignidade, obedecer sem
perder glória, e amar sem reservas.
A Trindade se torna, assim, não apenas
fundamento da fé, mas modelo para a vida cristã. Na prática diária, compreender
o envio do Filho como expressão do amor trinitário transforma nossa
espiritualidade. Vivemos seguros, porque a salvação não depende de forças
concorrentes dentro de Deus, mas de um propósito único e fiel. Vivemos
humildes, porque fomos alcançados por uma graça que flui da perfeita comunhão
divina. E vivemos em missão, porque o Deus que enviou o Filho continua enviando
sua igreja ao mundo, não por hierarquia de valor, mas por participação no seu
amor eterno.
II. O FILHO E A PLENITUDE DOS TEMPOS
1. A
preparação histórica e religiosa. A
afirmação de Paulo de que Cristo veio “na plenitude dos tempos” (Gálatas 4.4) revela que a encarnação
não foi um evento fortuito, nem uma resposta emergencial ao pecado humano. O
apóstolo utiliza a expressão grega plḗrōma tou chrónou, que indica o tempo
plenamente completado, amadurecido segundo o propósito de Deus. Não se trata
apenas de um momento cronológico adequado, mas do cumprimento de um plano
cuidadosamente conduzido pela soberania divina. Deus não apenas age no tempo.
Ele governa o tempo.
A vinda do Filho ocorre quando tudo
estava espiritualmente, historicamente e teologicamente preparado. Essa
plenitude aponta, antes de tudo, para a fidelidade de Deus às suas promessas.
Desde Gênesis 3.15, a história
bíblica avança em direção a esse momento. Cada aliança, cada profecia e cada
expectativa messiânica funcionam como fios que conduzem ao advento de Cristo.
Romanos
5.6 afirma que Cristo morreu “no tempo certo”,
reforçando a ideia de que Deus nunca se adianta nem se atrasa. Ele age no tempo
exato, quando sua vontade redentora pode ser plenamente revelada e
compreendida. Do ponto de vista histórico, o cenário do mundo antigo cooperou
para a expansão do evangelho de maneira singular.
O domínio romano trouxe estabilidade
política, um sistema jurídico unificado e uma extensa malha de estradas que
conectava cidades e províncias. Essas vias, construídas para fins militares e
administrativos, tornaram-se instrumentos providenciais para a propagação da
mensagem cristã. A história humana, muitas vezes marcada por ambições
imperiais, foi silenciosamente conduzida para servir ao propósito do Reino de
Deus. No campo cultural, a disseminação do grego koiné foi igualmente decisiva.
Essa língua comum permitiu que a mensagem do evangelho fosse registrada e
anunciada de forma acessível a diferentes povos.
O Novo Testamento não foi escrito em
uma língua elitizada, mas no idioma do povo. Isso revela o caráter missionário
do plano divino. Deus se comunica de modo que o mundo possa ouvir, entender e responder.
Como observam os estudos histórico-culturais, essa unidade linguística foi um
dos maiores facilitadores da rápida expansão cristã no primeiro século.
Religiosamente, o judaísmo vivia um
tempo de intensa expectativa messiânica. Mesmo com a corrupção de muitos
líderes, havia no coração do povo piedoso uma esperança viva pela redenção de
Israel. Lucas registra personagens como Simeão e Ana, que aguardavam “a
consolação de Israel” e reconhecem no menino Jesus o cumprimento dessa
esperança. Esse ambiente espiritual demonstra que Deus também preparou corações
sensíveis para discernir a chegada do Salvador. Teologicamente, a plenitude dos
tempos revela a harmonia da Trindade na condução da história.
Efésios
1.10-11 afirma que Deus estabeleceu o plano de “fazer
convergir em Cristo todas as coisas”. O Pai determina o tempo, o Filho entra na
história, e o Espírito passa a aplicar essa obra no coração humano. Nada é
improvisado. Tudo coopera para a revelação da graça. A encarnação, portanto, é
o ponto em que o céu toca a história de forma decisiva.
Essa verdade nos ensina a confiar no
agir de Deus mesmo quando o tempo parece lento ou confuso. O mesmo Deus que
conduziu a história até a vinda de Cristo continua governando os tempos da
nossa vida. A plenitude dos tempos nos chama à paciência, à esperança e à
fidelidade. Deus age quando o tempo está maduro, não quando nossa ansiedade
exige. Viver à luz dessa verdade é aprender a descansar na soberania de Deus e
a discernir sua mão mesmo nos processos silenciosos da história e do coração.
2. O Filho
nascido sob a Lei. A afirmação paulina de que o Filho
veio “nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4b, NVI) nos conduz ao coração da encarnação e da obra
redentora de Cristo. Paulo não escreve de forma poética ou meramente
devocional. Ele é preciso, teológico e pastoral. Cada expressão carrega peso
doutrinário.
A encarnação acontece dentro da
história humana real, marcada por limites, obrigações e responsabilidade moral
diante de Deus. O Filho eterno entra no tempo e se submete às condições da
existência humana para nos resgatar desde dentro. A expressão “nascido de
mulher” afirma, sem rodeios, a plena humanidade de Jesus.
O Filho não aparentou ser humano. Ele
tornou-se humano. O autor de Hebreus declara que Ele participou da nossa carne
e do nosso sangue (Hb 2.14).
Paulo reforça que assumiu a forma de
servo, humilhando-se voluntariamente (Fp
2.7–8). Aqui não há mito nem símbolo. Há encarnação real. Cristo
experimentou cansaço, dor, fome e sofrimento. Contudo, diferente de nós,
enfrentou essas limitações sem jamais ceder ao pecado (Hb 4.15).
Sua humanidade não foi manchada. Foi
perfeita, íntegra e obediente. Essa encarnação não ocorreu por acaso. Cumpre-se
a promessa profética de Isaías: a virgem conceberia e daria à luz um filho (Is 7.14), interpretada por Mateus como
obra direta da soberania divina (Mt
1.23).
Deus não apenas prometeu o Salvador.
Preparou o meio, o tempo e a forma. A concepção virginal preserva uma verdade
essencial. Jesus nasce verdadeiramente homem, mas não herda a corrupção do
pecado. Ele entra na humanidade como o novo Adão, não como repetição da queda,
mas como início da restauração.
Quando Paulo afirma que Cristo nasceu
“sob a lei”, ele utiliza a expressão grega hypò nómon, que significa estar sob
jurisdição, autoridade e obrigação legal. Isso indica que Jesus se colocou
voluntariamente debaixo da Lei mosaica em toda a sua abrangência. Ele foi
circuncidado, participou das festas judaicas, frequentou o templo e submeteu-se
às prescrições cerimoniais, civis e morais da Lei. Não como alguém forçado, mas
como Servo obediente. Ele viveu exatamente onde Israel falhou. Essa submissão à
Lei não teve como objetivo a salvação pessoal de Cristo, mas a redenção dos que
estavam presos sob a condenação da Lei.
Jesus declara que não veio abolir a
Lei, mas cumpri-la (Mt 5.17). Ele é
o único que a cumpriu perfeitamente, não apenas em atos externos, mas em
intenções, desejos e motivações do coração. Pedro testemunha que Ele não
cometeu pecado algum (1Pe 2.22). Sua
obediência ativa é essencial à nossa justificação. Ele obedeceu onde
desobedecemos.
Teologicamente, essa obediência
qualifica Cristo como o sacrifício perfeito. Hebreus afirma que Ele é santo,
inculpável, puro e separado dos pecadores (Hb
7.26–27).
Sua vida sem pecado não é detalhe
secundário. É fundamento da redenção. Somente alguém plenamente obediente
poderia oferecer-se em favor de transgressores. Ele não apenas morreu por nós.
Viveu por nós. Sua justiça é imputada aos que creem, libertando-os da culpa e
da condenação da Lei. Essa verdade confronta e consola.
Confronta-nos porque revela o alto
padrão da santidade de Deus. Consola-nos porque mostra que nossa salvação não
repousa em nossa obediência imperfeita, mas na obediência perfeita de Cristo.
Viver à luz disso transforma nossa relação com Deus. Não obedecemos para sermos
aceitos. Obedecemos porque já fomos aceitos em Cristo. O Filho nasceu sob a Lei
para nos libertar da escravidão da Lei e nos conduzir à vida madura de filhos
que andam em gratidão, reverência e amor.
3. A adoção
de filhos. A obra redentora de Cristo não se
limita ao perdão dos pecados. Ela nos conduz a uma mudança radical de posição
diante de Deus. Paulo afirma que o Filho veio para “resgatar os que estavam
sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos” (Gl 4.5, NVI).
A salvação não nos deixa apenas
absolvidos no tribunal divino. Ela nos introduz na casa do Pai. O evangelho não
termina na cruz. Ele prossegue na família. O Novo Testamento faz uma distinção
essencial entre o Filho e os filhos. Jesus é o Filho unigênito por natureza.
João declara que Ele é o monogenēs do Pai, o Filho único em essência e
eternidade (Jo 1.18).
Os crentes, por sua vez, tornam-se
filhos por adoção. João afirma que aos que receberam Cristo foi concedida
autoridade para se tornarem filhos de Deus (Jo
1.12). A palavra grega exousía indica direito legítimo, status concedido,
não mera permissão emocional. Não nascemos filhos. Somos feitos filhos pela
graça. João reforça essa verdade ao afirmar que essa filiação não procede do
sangue, nem da vontade humana, mas de Deus (Jo
1.13).
A nova identidade do crente não é
construída por herança religiosa, mérito moral ou esforço espiritual. Ela é
resultado direto da ação soberana de Deus. Aqui se revela a profundidade da
graça. Deus não apenas nos perdoa. Ele nos recebe. Não apenas cancela nossa
dívida. Ele muda nosso nome e nosso lugar. Paulo emprega o termo grego
huiothesía, traduzido por adoção, expressão retirada do contexto greco-romano.
Diferente do mundo judaico, a adoção era uma prática legal amplamente
reconhecida entre os gentios. O filho adotado recebia novo status jurídico,
novo nome e plenos direitos de herança. Paulo se apropria dessa imagem para
ensinar que Deus, deliberadamente, decidiu nos inserir em sua família. Efésios 1.5 afirma que essa adoção
ocorreu “segundo o bom propósito da sua vontade”. Não foi necessidade.
Foi prazer divino. Essa nova relação não é apenas jurídica.
Ela é profundamente relacional. Paulo
afirma que Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse
Espírito clama “Aba, Pai” (Gl 4.6).
A palavra aramaica Abba expressa intimidade reverente, proximidade sem
irreverência. É o mesmo termo usado por Jesus em sua oração no Getsêmani (Mc 14.36). O que antes pertencia à
relação exclusiva do Filho com o Pai agora é compartilhado, pela graça, com os
filhos adotivos.
Essa experiência de filiação é
aplicada e confirmada pelo Espírito Santo. Romanos
8.15–16 afirma que não recebemos um espírito de escravidão, mas o Espírito
de adoção, que testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. A
salvação, portanto, é obra trinitária. O Pai planeja, o Filho redime e o
Espírito aplica. Não há competição entre as pessoas da Trindade. Há unidade
perfeita na obra da redenção. Essa verdade transforma a maneira como vivemos
diante de Deus. Não nos aproximamos mais como servos temerosos, mas como filhos
amados. A obediência cristã deixa de ser motivada pelo medo e passa a fluir do
amor e da gratidão. A adoção nos chama a viver com identidade, segurança e
maturidade espiritual. Quem sabe que é filho não vive como órfão. E quem chama
Deus de Pai aprende a caminhar com confiança, reverência e esperança diária.
III. A TRINDADE NO PLANO DA SALVAÇÃO
1. A
vontade do Pai realizada pelo Filho. A
salvação cristã nasce no coração do Pai e se manifesta na obediência perfeita
do Filho. Jesus declara com clareza: “desci do céu, não para fazer a minha
vontade, mas para fazer a vontade daquele que me enviou” (João 6.38, NVI). Essa afirmação revela
mais do que submissão funcional. Ela expõe a comunhão eterna e amorosa da
Trindade. O Filho não age de forma independente nem concorrente. Ele age em
perfeita sintonia com o querer do Pai, tornando visível, na história, aquilo
que foi determinado na eternidade.
A vontade do Pai, segundo o próprio
Cristo, é profundamente redentora e pastoral. Ele afirma que nenhum dos que o
Pai lhe deu se perderá, mas todos receberão a vida eterna (João 6.39-40). O verbo “dar”, do grego didōmi, indica uma ação
soberana e graciosa do Pai. A salvação não começa no esforço humano, mas na
iniciativa divina. O Filho recebe do Pai um povo, e sua missão é conduzi-lo com
segurança até o fim. Aqui repousa a base da esperança cristã e da segurança da
fé. A obediência de Jesus não foi ocasional nem limitada a momentos específicos
de sua vida. Ele afirma: “eu faço sempre o que lhe agrada” (João 8.29). O advérbio “sempre” aponta
para uma obediência contínua, integral e sem falhas. Cristo não apenas ensinou
a vontade de Deus. Ele a encarnou. Sua vida inteira foi um ato de submissão
amorosa ao Pai. Diferente de Adão, que desobedeceu em um jardim, Cristo obedece
plenamente, inclusive no caminho que o leva à cruz.
Essa obediência alcança seu ponto
máximo na cruz. Paulo afirma que Jesus se humilhou, “tornando-se obediente até
a morte, e morte de cruz” (Filipenses
2.8). O termo grego hypēkoos expressa uma obediência que nasce da escuta
atenta e da disposição voluntária. Cristo não foi forçado ao sacrifício. Ele se
entregou. A cruz não é um acidente da história, mas o ápice da fidelidade do
Filho ao Pai e do amor de Deus pelos pecadores. Na cruz, a justiça divina não
foi ignorada nem suavizada. Ela foi plenamente satisfeita. Romanos 3.24-26 ensina que Deus apresentou Cristo como sacrifício
de expiação, demonstrando sua justiça ao justificar o pecador. O termo
hilastērion aponta para um sacrifício que remove a culpa e restaura a comunhão.
O Pai permanece justo. O pecador é justificado. E o Filho é glorificado como o
mediador perfeito entre Deus e os homens.
A obra do Filho revela, assim, a
perfeita unidade da Trindade no plano da salvação. O Pai planeja, o Filho
executa e o Espírito aplica essa obra ao coração humano. Não há divisão de
vontades, nem conflito de propósitos. Há harmonia santa. A cruz é o lugar onde
o amor do Pai, a obediência do Filho e a ação vivificadora do Espírito
convergem para a redenção do ser humano. Essa verdade nos chama a uma vida de
confiança e submissão.
Se o Filho viveu em obediência amorosa
ao Pai, nós, que fomos unidos a Cristo, somos chamados a viver da mesma forma.
A obediência cristã não nasce do medo, mas do amor. Não é tentativa de merecer
salvação, mas resposta grata à graça recebida. Contemplar a obediência do Filho
nos ensina a descansar na vontade do Pai e a caminhar com fidelidade, mesmo
quando o caminho passa pela cruz.
2. A
mediação exclusiva do Filho. A
Escritura é direta e pastoral ao tratar do acesso a Deus. Jesus afirma: “Eu sou
o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (João 14.6, NVI). Essa declaração não
nasce de exclusivismo religioso, mas da própria identidade do Filho. Ele não
aponta um caminho. Ele é o caminho. No grego, hodos não descreve apenas uma
rota, mas um meio vivo de acesso.
Em Cristo, Deus não apenas orienta o ser
humano. Ele mesmo se oferece como a ponte segura entre o céu e a terra. A
exclusividade dessa mediação está enraizada na revelação plena do Pai no Filho.
João afirma que ninguém jamais viu a Deus, mas o Filho unigênito o revelou (João 1.18). O verbo exēgēsato indica
explicação completa e definitiva. Tudo o que precisamos saber sobre Deus para a
salvação foi revelado em Cristo. Não há revelação paralela, complementar ou
concorrente. Fora dele, Deus permanece desconhecido de forma redentora. Nele, o
Pai se torna acessível, próximo e gracioso.
Essa mediação é exclusiva porque
somente o Filho satisfez plenamente a justiça divina. Hebreus ensina que Ele é
o mediador de uma nova aliança, estabelecida por meio de seu próprio sangue (Hebreus 9.15). O termo grego mesitēs
descreve aquele que se coloca entre duas partes para restaurar a comunhão
rompida. Cristo não media apenas com palavras ou exemplos morais. Ele media com
sua vida entregue. Sua morte substitutiva resolve aquilo que nenhum ser humano
poderia resolver. O problema do pecado diante de um Deus santo. A estrutura
trinitária da salvação confirma essa exclusividade. O Pai envia o Filho por
amor ao mundo (João 3.16). O Filho
realiza a obra redentora de forma perfeita e suficiente. O Espírito Santo
testifica do Filho e aplica sua obra ao coração humano (João 15.26). Não há competição entre as Pessoas da Trindade. Há
cooperação santa. O caminho ao Pai não ignora o Espírito, nem contorna o Filho.
Ele passa, necessariamente, pela fé naquele que foi enviado.
Paulo resume essa verdade com clareza
teológica e simplicidade pastoral: “há um só Deus e um só mediador entre Deus e
os homens, Jesus Cristo, homem” (1
Timóteo 2.5). A ênfase no termo “homem” não diminui a divindade de Cristo.
Antes, destaca sua plena identificação conosco. Somente alguém verdadeiramente
humano poderia nos representar. Somente alguém verdadeiramente divino poderia
nos reconciliar com Deus. Na pessoa de Cristo, essas duas realidades se
encontram sem confusão e sem separação.
Por isso, a salvação não acontece por
mérito, herança religiosa ou esforço moral. Ela acontece unicamente pela fé em
Cristo. Atos afirma que “não há salvação em nenhum outro” (Atos 4.12). Essa exclusividade não
fecha portas. Ela abre uma porta segura. A fé cristã não se baseia em
possibilidades espirituais, mas em uma obra consumada. Quem está em Cristo tem
acesso real, contínuo e confiante ao Pai. Essa verdade nos chama à fidelidade e
à humildade. Fidelidade, porque não precisamos buscar outros mediadores,
atalhos espirituais ou substitutos religiosos. Humildade, porque o acesso a
Deus não foi conquistado por nós, mas recebido como graça. Viver sob a mediação
exclusiva de Cristo é viver em descanso, gratidão e obediência. É caminhar
diariamente com a certeza de que, em Cristo, estamos plenamente aceitos diante
do Pai.
3. A
aplicação da salvação pelo Espírito. A
obra da salvação não termina na cruz nem se esgota na ressurreição. Ela precisa
ser aplicada ao coração humano. É aqui que a atuação do Espírito Santo se
revela essencial e pastoralmente decisiva. Jesus o chama de Consolador e
Espírito da verdade, enviado pelo Pai e pelo Filho para tornar viva, eficaz e
pessoal a obra consumada por Cristo (João
14.16,26; 15.26). Sem o Espírito, a salvação permaneceria apenas como um anúncio
externo. Com Ele, torna-se experiência transformadora. Jesus ensina que o
Espírito convence o mundo “do pecado, da justiça e do juízo” (João 16.8-11, NVI).
O verbo grego elenchō indica convencer
com evidência, trazer à luz aquilo que estava oculto. O Espírito revela a
gravidade do pecado, a suficiência da justiça de Cristo e a certeza do juízo já
inaugurado na vitória da cruz. Essa convicção não é mero remorso psicológico. É
um despertar espiritual profundo que conduz ao arrependimento genuíno e à fé
salvadora.
Essa obra continua na iluminação da
mente. Paulo afirma que Deus resplandece em nossos corações para o conhecimento
da sua glória revelada em Cristo (2
Coríntios 4.6). Essa iluminação não cria novas verdades, mas abre os olhos
para enxergar aquilo que sempre esteve diante de nós. O Espírito ensina, lembra
e aplica as palavras de Cristo (João
14.26).
Ele conduz o crente à verdade, não
como informação fria, mas como sabedoria que transforma o modo de pensar e
viver. O Espírito também opera a regeneração. Tito descreve essa obra como o
“lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tito 3.5). O termo palingenesia aponta para um novo nascimento,
uma nova origem de vida. Não se trata de reforma moral, mas de criação espiritual.
O coração endurecido é vivificado. A fé nasce como resposta graciosa à ação
prévia de Deus. Aqui se preserva o equilíbrio da teologia reformada
continuísta. Deus age soberanamente. O ser humano responde responsavelmente.
Além de regenerar, o Espírito sela os
que creem (Efésios 1.13). O selo
indica pertencimento, segurança e autenticidade. Essa obra não elimina a
necessidade de perseverança, mas a fundamenta. O mesmo Espírito que inicia a
boa obra sustenta o crente em um processo contínuo de santificação (2 Tessalonicenses 2.13). Santificação
aqui não é isolamento do mundo, mas transformação diária do caráter, alinhando
a vida do crente à vontade de Deus. Essa atuação culmina na certeza da
perseverança. Paulo expressa essa confiança ao afirmar que Deus completará a
boa obra iniciada (Filipenses 1.6).
O Espírito testemunha com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Romanos 8.16). Essa segurança não gera
acomodação espiritual, mas gratidão obediente. O crente persevera porque é
sustentado pela graça, não porque confia em sua própria força.
Por fim, o Espírito glorifica o Filho.
Ele não age de forma independente nem ocupa o centro da fé cristã. Sua missão é
revelar Cristo, testificar de sua obra e conduzir os crentes à comunhão com o
Deus Triúno (João 15.26; 16.13,14).
Onde o Espírito atua plenamente, Cristo é exaltado, o Pai é glorificado e a
igreja é edificada. Pastoralmente, isso nos chama a uma vida sensível à voz do
Espírito, submissa à Palavra e profundamente centrada em Cristo.
CONCLUSÃO
A salvação cristã não começa no homem,
mas no coração eterno de Deus. O envio do Filho pelo Pai revela um amor que
antecede o tempo e governa a história.
Em João 3.16,
a expressão “Deus amou” traduz o verbo grego ēgapēsen, indicando um amor
deliberado, ativo e sacrificial. Não se trata de afeição abstrata, mas de uma
decisão soberana de Deus em agir em favor de um mundo incapaz de salvar a si
mesmo. Aqui somos confrontados com a origem trinitária da redenção. A salvação
nasce no conselho eterno de Deus, não na resposta humana. Esse envio ocorre “na
plenitude do tempo” (Gl 4.4, NVI),
expressão que aponta para o momento exato determinado pelo Pai. Nada foi
improvisado.
A encarnação não foi reação ao pecado,
mas execução fiel de um plano eterno. O Pai envia, o Filho vem e o Espírito
prepara o cenário histórico e espiritual para que a redenção se manifeste. A
Trindade não atua de forma fragmentada, mas em perfeita unidade de propósito e
vontade. Cada Pessoa divina age distintamente, sem jamais agir isoladamente. O
Filho assume a missão redentora em obediência plena.
Filipenses 2.8 afirma que Ele “foi obediente até a morte”. O
termo grego hypēkoos descreve uma obediência voluntária, consciente e amorosa.
Cristo não foi constrangido ao sacrifício. Ele se entregou. Sua obediência não
apenas cumpre a lei, mas revela o caráter do Deus que salva por meio da
entrega.
Como destacam Horton e Fee, a cruz é o
ponto máximo da revelação do amor trinitário em ação histórica. A obra do
Espírito Santo não é secundária, mas absolutamente necessária. Ele não apenas
testemunha a redenção, mas a aplica eficazmente ao coração humano.
Jesus afirma em João 16.8 que o Espírito “convencerá o mundo do pecado, da justiça
e do juízo”. O verbo grego elenchō indica convencimento profundo, interno,
transformador. Sem essa atuação, a obra objetiva da cruz permaneceria externa
ao pecador. É o Espírito quem vivifica, ilumina e sela a obra do Filho na
experiência do crente. Essa dinâmica revela a beleza da economia da salvação. O
Pai planeja, o Filho executa, o Espírito aplica. Não há competição entre as
Pessoas divinas, mas perfeita cooperação.
Como observam Arrington e Macchia,
essa unidade trinitária fundamenta tanto a segurança da salvação quanto a vida
espiritual contínua do crente. Nossa fé se fortalece quando compreendemos que
fomos alcançados por uma obra completa, eficaz e graciosa do Deus Triúno.
Essa verdade nos livra de duas
armadilhas. A autossuficiência espiritual e a insegurança constante. Não fomos
salvos por esforço humano, nem somos mantidos pela força da nossa perseverança
isolada. Somos guardados pelo Deus que age do começo ao fim. Essa compreensão
gera humildade, descanso espiritual e profunda gratidão. A vida cristã deixa de
ser uma tentativa ansiosa de agradar a Deus e passa a ser resposta amorosa ao
Deus que já nos amou primeiro.
Diante disso, somos convidados não
apenas a compreender, mas a adorar. Conhecer o Deus Triúno que salva transforma
nossa devoção diária, nosso ensino na EBD e nossa prática cristã. Adoramos
porque fomos alcançados. Servimos porque fomos redimidos. Vivemos em santidade
porque o Espírito habita em nós. Essa verdade não apenas informa a mente, mas
reorienta o coração e molda uma vida inteira para a glória de Deus.
Temos, então, três Aplicações Práticas
para esta preciosa lição:
1.
Viver a fé com descanso e segurança espiritual: Compreender
que a salvação nasce no Pai, é consumada no Filho e aplicada pelo Espírito nos
chama a abandonar a ansiedade espiritual. Muitos cristãos vivem tentando “se
manter salvos” por esforço próprio, quando a Escritura nos mostra que somos
guardados por uma obra trinitária completa e eficaz. Essa verdade nos convida a
descansar na graça, cultivando uma vida de confiança, oração e perseverança que
flui da segurança em Deus, e não do medo de falhar.
2.
Ensinar e servir com consciência trinitária: Na Escola
Bíblica Dominical, essa compreensão transforma a maneira como ensinamos e
servimos. O professor não transmite apenas conteúdos, mas testemunha a ação
viva do Deus Triúno. O Pai chama, o Filho é anunciado e o Espírito convence e
transforma. Isso nos livra do ativismo estéril e nos leva a depender do
Espírito Santo tanto no preparo quanto na ministração, reconhecendo que só Ele
aplica a verdade ao coração dos alunos.
3.
Responder à salvação com adoração e santidade diária: Se
fomos alcançados por uma obra tão profunda, nossa resposta não pode ser
superficial. A consciência da atuação trinitária na salvação nos chama a uma
vida de adoração sincera, gratidão constante e santidade prática. No lar, no
trabalho e na igreja, passamos a viver não para conquistar o favor de Deus, mas
para honrá-lo. A obediência deixa de ser peso e se torna resposta amorosa ao
Deus que nos salvou por inteiro.
BOA
AULA
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