sábado, 21 de março de 2015

Os Primeiros Discípulos



Os Primeiros Discípulos

No dia seguinte João estava outra vez ali, com dois dos seus discípulos 1.35

1:35-42      Texto da nossa segunda lição do trimestre. Esta seção nos fornece uma explicação de como Jesus obteve seus primeiros discípulos; e por meio dela aprendemos que os discípulos originais foram selecionados dentre o círculo dos discípulos de João Batista. Nos evangelhos sinópticos (ver Mc 1:16-20 e Mt 4:18-22), somos informados acerca de dois irmãos que a certo instante foram chamados à beira do mar da Galiléia, quando se ocupavam de seus misteres da pesca, a fim de que seguissem ao Senhor Jesus, apelo esse a que obedeceram imediatamente. Essa obediência sem discussões, mui provavelmente, não foi motivada por aquele primeiro e breve contato com Jesus, que antes ser-lhes-ia um completo estranho; pois é muito provável que esta narrativa do evangelho de João seja um incidente que antecede à narrativa dada pelos evangelhos sinópticos; e isso sem dúvida evidencia o fato de que aqueles primeiros discípulos já tinham algum conhecimento pessoal com Jesus, e isso por meio de João Batista, que teria servido de intermediário. A tradição utilizada por Marcos indica o fato de que os quatro primeiros discípulos, convocados para o discipulado de Jesus, foram os quatro pescadores de nome André (o primeiro de todos os discípulos), Pedro, que era seu irmão, e, em seguida, Tiago e João, estes últimos filhos de Zebedeu. O vs. 35 deste capítulo menciona dois discípulos. O vs. 40 deste mesmo capítulo dá o nome de um deles—André—, e, em seguida revela-nos que ele saiu à procura de seu irmão, Pedro; e isso significa que o outro discípulo do vs. 35. cujo nome não nos é fornecido, não era Pedro. O capítulo deixa sem identificação esse discípulo cujo nome não é dado, mas, confrontando a narrativa joanina com a dos evangelhos sinópticos, podemos concluir que esse discípulo era João, o qual, subsequentemente, e a exemplo do que já fizera André, saiu à procura de seu irmão, Tiago. O mais provável, por conseguinte, é que os dois discípulos originais tivessem sido André e João, os quais, sem tardança trouxeram a Jesus os seus respectivos irmãos, Pedro e Tiago. Esses quatro, pois, formaram o núcleo original de discípulos, tendo sido, anteriormente, seguidores de João Batista.

É de estranhar que, apesar de Tiago e João desempenharem tão importante papel, segundo a narrativa dos evangelhos sinópticos, —jamais sejam mencionados neste quarto evangelho senão já no trecho de João 21:2 (de forma definida), e que jamais se leia qualquer alusão a Salomé, mãe de ambos. Alguns estudiosos têm sugerido que a proeminência que lhes é conferida nos evangelhos sinópticos foi abafada neste quarto evangelho em face do fato de João ter sido o seu autor, o qual teria agido dessa maneira por modéstia. Mas outros sugerem que isso foi feito propositalmente pelo autor deste quarto evangelho, que na realidade não teria sido o apóstolo João, como artifício sutil, para sugerir que João foi o seu autor.

A comparação desta narrativa sobre a chamada dos discípulos originais de Jesus com a tradição dos evangelhos sinópticos é suficiente para convencer-nos, ainda mais, que os sinópticos não figuraram entre as fontes informativas utilizadas pelo autor do evangelho de João, e que, quando aparecem materiais de natureza similar, isso patenteia o fato de que tanto os evangelhos sinópticos como o evangelho de João se fundamentaram em fontes informativas similares, embora distintas. Menos de dez por cento do material do evangelho de João aparece nos evangelhos sinópticos, e isso serve de prova do fato de que João não lançou mão destes últimos, porquanto é impossível pensarmos que, se ele tivesse contado com os mesmos como fontes informativas, não haveria se utilizado deles em maior escala. Além disso, o autor do quarto evangelho expõe a vida e o ministério de Jesus de maneira tão diferente do que fazem os evangelhos sinópticos, em tantas questões diversas.

Diversas indicações de tempo são fornecidas neste primeiro capítulo. Os vss. 29-34 descrevem acontecimentos ocorridos no dia seguinte ao do anúncio feito em Betânia. Os vss. 35-42 descrevem o dia seguinte, ou seja, o terceiro dia (segundo o cômputo judaico) após o anúncio feito em Betânia, acerca do caráter messiânico de Jesus (ver o vs. 29). E os vss. 43-51 cobrem os acontecimentos de um quarto dia após aquele.

«A convocação dos primeiros discípulos de Jesus, vss. 35-52. Os humildes começos de poderosos resultados. O berço da igreja cristã. Essa chamada na Judéia, às margens do rio Jordão, foi meramente uma oportunidade preliminar de familiaridade, que João supriu à base de sua experiência pessoal, ao passo que a chamada final, ao discipulado permanente, conforme é narrada pelos evangelhos sinópticos, teve lugar em data posterior, na Galiléia». (Philip Schaff, no Lange's Commentary).

1:36    e, olhando para Jesus, que passava, disse: Eis o Cordeiro de Deus!

Este versículo é uma repetição do vs. 29 VEJA AQUI. Os comentadores supõem que João Batista, e Jesus, após a declaração do primeiro acerca do caráter messiânico de Jesus, chegaram a uma espécie de acordo quanto à orientação que imprimiriam aos seus ministérios complementares, embora distintos. E asseveram que mui provavelmente esse acordo incluiria a questão da transferência de discípulos de João para Jesus, de tal modo que o ministério messiânico em Israel pudesse ter o seu começo. «Eis o Cordeiro de Deus. Essa breve repetição daquela maravilhosa proclamação, em termos idênticos e sem qualquer palavra adicional, teria por intuito servir de gentil impulso para que os discípulos seguissem a Cristo fixando a luz sob a qual deveria considerá-lo. E isso surtiu os efeitos desejados, conforme passamos a ouvir (nos versículos seguintes)». (Brown, in loc.). «...a repetição da declaração serve, neste caso, de sinal para os discípulos passarem a seguir a Jesus». (Alford, in loc.).

1:37    Aqueles dois discípulos ouviram-no dizer isto, e seguiram a Jesus
1:38    Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: que buscais? Disseram-lhe eles: Rabi (que, traduzido, quer dizer Mestre), onde pousas?

«...os dois...seguiram a Jesus...». Esse seguir ao Senhor Jesus provavelmente foi feito pelos discípulos em profunda reverência e na expectativa de grandes coisas. O pensamento do discipulado estava em suas mentes, mas a chamada real (em senso um tanto formal) teve lugar mais tarde, na Galiléia; e é justamente essa chamada final que é registrada pelos evangelhos sinópticos. Por conseguinte, este seguir a Jesus até onde ele assistia não equivaleu ao «deixá-lo simplesmente a um seguir mecânico após Cristo, conforme Alford sugeriu.

«...seguiram...» Bengel observa sobre esta informação: «Aqui encontramos a origem da igreja cristã». E Adam Clarke (in loc.) observa: «E eles compreenderam perfeitamente o que tencionava o seu mestre; e, em consequência disso, puseram-se a seguir a Jesus. Felizes são aqueles que, ao ouvirem sobre a salvação que há em Cristo, imediatamente se apegam ao seu autor!»

«...Que buscais?...». Jesus abriu o caminho para se tornarem conhecidos, porque, mui provavelmente, seguiam-no de forma um tanto tímida e nervosa. Essas são as primeiras palavras a brotar dos lábios de Jesus, de acordo com o evangelho de João, e tinham por intenção facilitar a amizade e o entabulamento de relações que se seguiu por mais três anos, amizade essa que se foi aprofundando em todos os aspectos, e que, apesar de ter recebido o golpe cruel da crucificação do Mestre, no entanto floresceu novamente, embora em plano muito mais elevado, quando Jesus, já conquistador da morte, voltou a eles.

«...Rabi...onde assistes?...». A réplica dada pelos discípulos saiu nervosa, porquanto tinham consciência de estarem diante de uma augusta figura, um personagem profético, destinado a cumprir um gigantesco ministério, embora não pudessem, por enquanto, nem ao menos imaginar a sua magnitude. Não obstante, não tinham passado a seguir a Jesus na ignorância completa, pois João proferira elevadíssimas palavras acerca dele, e a sua missão messiânica já fora anunciada por ele. Por essas razões é que escolheram o vocábulo mais elevado que puderam encontrar—«Rabi»—que nos é esclarecido pelo termo grego aqui traduzido por «Mestre». No entanto, a tradução fica muito aquém do que estava implicado no termo «rabi». Sabemos que não fazia muito tempo que esse vocábulo tinha entrado em uso, provavelmente tendo sido originado quando das rivalidades entre as escolas de Hilel e de Shamai, porquanto os seguidores de um e de outro ansiavam por exaltar os seus respectivos líderes, em contraste com outros líderes; e assim em certo sentido, tais seguidores justificavam as características e distintivas crenças de suas seitas, posto que, mediante o emprego de tal título, os seus líderes seriam vistos como ocupantes de exaltados ofícios.

Hilel (30 A.C.) era reverenciado por sua profunda erudição e por sua santidade inspiradora, misturada com o amor que demonstrava possuir por seus semelhantes e com o seu espírito de humildade. Muitas lendas se desenvolveram em torno de sua pessoa, conforme sempre acontece no caso das vidas de indivíduos notoriamente grandes. Uma dessas histórias diz-nos que uma delegação de gentios lhe foi enviada, para que ele desse uma concisa declaração da essência do judaísmo, que pudesse proferir enquanto estivesse equilibrado apenas numa das pernas. A sua resposta foi: «O que te é odioso, não o faças aos teus semelhantes: Nisso consiste toda a lei; o resto é mero comentário». (Shab. 31a).

O originador da escola teológica rival do judaísmo foi Shamai, homem igual e extraordinariamente reverenciado por motivo de seu conhecimento e piedade. Ordinariamente, a escola de Hilel era paciente e mais liberal em sua interpretação da lei, ao passo que a escola de Shamai era inflexivelmente severa. No primeiro século da era cristã floresciam essas duas escolas, e faziam constante oposição uma à outra. Mas as opiniões de Hilel gradualmente foram obtendo aceitação popular.

Foi à base desse contexto que se originou o costume de dirigir-se alguém a outrem pelo título de rabi (já esclarecido para facilitar o Pr Antonio Carlos, dicionarista da Continental.). O termo significa Minha grandeza, «Minha majestade» ou «Meu Honroso Senhor». Deriva-se da raiz hebraica que significa grande, e passou a ser comumente usado pelos judeus, ao se dirigirem aos seus professores. E gradualmente o seu sentido, em muitos casos, passou a ser mero sinônimo de «mestre», sem indicar, necessariamente, qualquer grande atribuição de honra a um indivíduo qualquer.

Também foi nesse costume que teve início a prática de atribuir elevados títulos aos eclesiásticos, prática essa que foi severamente condenada pelo Senhor Jesus conforme lemos em Mt 23:7-12. Essa condenação, por si mesma, serve para mostrar que tal apelativo não significa simplesmente mestre, porquanto chamar alguém de mestre certamente não é demonstração de que está sendo exaltado; mas o que Jesus condenava era justamente o elemento de orgulho, que transparecia no uso de tal termo. Todavia, a despeitadas claríssimas reprimendas de Jesus contra essa prática, ela permanece muito popular na igreja cristã, apenas com o reparo que tal pronome de tratamento foi substituído por títulos como «padre», «reverendo», «doutor», e outros pronomes de tratamento. Não obstante, esse vocábulo pode ser corretamente usado com respeito à pessoa de Cristo, e podemos reter a sua mais ampla significação, porquanto foi empregada por aqueles discípulos originais do «Mestre» para expressarem a sua elevada estima e consideração, embora, por enquanto, o conhecimento que tinham dele ainda não fosse muito grande.

1:39    Respondeu-lhes: Vinde, e vereis. Foram, pois, e viram onde pousava; e passaram o dia com ele; era cerca da hora décima.

«Vinde e vede...». Não teria sido de conformidade com os costumes orientais se os discípulos se tivessem convidado a si mesmos para visitar a casa onde Jesus morava, sem algum convite prévio, e certamente isso teria demonstrado grande falta de educação, especialmente no caso de quase totais estranhos, conforme vemos aqui. Assim sendo, devemos compreender a inquirição dos discípulos meramente como exibição de interesse em descobrir onde Jesus morava, a fim de que, em data posterior, pudessem estabelecer alguma forma de contato e relação com ele. Mas Jesus facilitou-lhes as coisas, tornando mais difícil algum embaraço, ao fazer-lhes imediatamente o convite de irem visitá-lo. Nas palavras vinde e vede, alguns estudiosos veem uma alusão à fórmula rabínica que era proferida, como desafio, a futuros discípulos e aprendizes, para que vissem a validade da doutrina e a correção da vida que advogavam em seus ensinamentos. Essa fórmula requeria que cada um se convencesse pessoalmente, mediante a observação e a prática, da validade dos ensinamentos oferecidos. Contudo, é nos impossível saber se Jesus tinha em vista qualquer coisa tão profunda como essa, com palavras tão simples; mas, pelo menos, o resultado final certamente esteve de conformidade com tal desafio. Isso foi o começo da convicção deles, e, realmente, o começo da convicção de muitos milhões de pessoas, acerca da validade das palavras e ensinamentos de Jesus, bem como do valor da vida que resulta da obediência a essas palavras.

Muitos pregadores têm intitulado suas mensagens de «Vinde e vede», passando a anunciar uma apologética do cristianismo, que tem suas raízes na convicção pessoal sobre a veracidade da mensagem, mediante a prática dos preceitos cristãos. Ao assim fazerem, talvez muito inconscientemente, tais pregadores têm repetido o desafio lançado pelos antigos rabinos, para que os possíveis discípulos pusessem à prova a verdade religiosa mediante o exame e a prática pessoais. «A experiência pessoal é o melhor teste para comprovação da veracidade do cristianismo, o qual, tal como o sol no firmamento, só pode ser visto em sua própria luz. Acredito que foi Pascal que disse que as coisas humanas precisam ser conhecidas para que sejam amadas, mas que as coisas divinas devem ser primeiramente amadas, antes de poderem ser conhecidas». (Philip Schaff, no Lange’s Commentary, in loc.).

«...ficaram com ele aquele dia...». Os comentadores não concordam quanto à ocasião em foco, nesta expressão, porquanto alguns acreditam que o evangelho de João segue o cômputo romano de contar o tempo (conforme nós também fazemos, de meia-noite à meia-noite), ao invés do cômputo judaico, que ia de pôr-do-sol ao pôr-do-sol. Se foi seguido o método judaico de computar o tempo, então seria cerca das quatro horas da tarde. Ellicott diz (in loc.): «Seria, conforme diríamos, quatro horas da tarde, porquanto não existem razões suficientes para crermos que o método babilônico de contar as horas, comum tanto em Éfeso como em Jerusalém, não foi usado neste evangelho». A suposição, por detrás dessas palavras de Ellicott, é que esse tenha sido o evangelho efésio (escrito em Éfeso, tendo como fontes informativas a comunidade cristã ali existente. Bruce (in loc.) salienta que se por um lado os romanos calculavam o seu dia civil de meia-noite à meia-noite ( o dia civil, mediante o qual eram datados os contratos e os empréstimos), por outro lado, o cômputo romano ordinário das horas do dia, segundo o uso popular, está em foco aqui, o qual era contado do nascer do sol ao pôr-do-sol. Isso parece ser consubstanciado por diversos descobrimentos de relógios-de-sol romanos, nos quais o meio-dia aparece assinalado como a hora sexta.

Os argumentos que favorecem o método judaico de calcular a passagem das horas, são os seguintes: 1. Os gregos da Ásia Menor, para quem João teria escrito, usavam o cômputo babilônico, também tomado por emprésti­mo pelos judeus (do pôr-do-sol ao pôr-do-sol). 2. Os romanos também se utilizavam desse método mui comumente, juntamente com o cálculo do dia civil, conforme foi explicado mais acima. 3. No trecho de João 4:6, a sexta hora mui mais provavelmente significa o meio-dia do que as seis horas da manhã ou as seis horas da tarde. Em João 4:52, a sétima hora mais provavelmente equivale à primeira hora depois do meio-dia. A passagem de João 11:9 subentende o cômputo babilônico. O trecho de João 19:14, que fala sobre a sexta hora, não pode indicar as seis horas da manhã (embora essa referência talvez não tenha por intenção ser exata em sua designação do horário).

E verdade que os outros evangelhos lançam mão do cômputo judaico de contar as horas, mas isso não prova, necessariamente, que assim também tenha ocorrido neste evangelho de João. Vincent (in loc.) demonstra, com citações de escritos de Aélio Aristides, sofista grego do século II D.C. (dos Discursos Sagrados), bem como dos escritos de Lívio, o historiador romano (IX:37), que o método «judaico» (na realidade, originado na Babilônia) era de uso comum no mundo greco-romano. Outro tanto foi demonstrado por Aristófanes («Ecclesizusai», 648) e por Horácio (lib. 1, VII.69). Embora alguns bons eruditos discordem disso, parece mais acertado aceitar essa multiplicidade de testemunho, afirmando que este quarto evangelho, tal como os outros também, seguiu o cômputo «judaico», e que essa designação, aqui, tem por intuito indicar as quatro horas da tarde. Nenhuma objeção sólida contra isso pode ser levantada à base da expressão que lemos no próprio versículo—«...e ficaram com ele aquele dia...»—porquanto isso não significa, necessariamente, um dia inteiro, mas meramente que ali ficaram pelo resto do dia, das quatro horas da tarde em diante.

1:40: André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João falar, e que seguiram a Jesus.

«Era André...». Portanto, André foi o primeiro de todos os discípulos de Jesus, e não é mesmo impossível que esta história, pelo menos quanto ao seu esboço e conteúdo gerais, acerca do contato original com Jesus e do começo de seu movimento religioso, tenha tido André como a principal fonte informativa. Essa tradição foi, mui provavelmente, preservada pela comunidade da igreja cristã em Éfeso, e dali é que passou para o evangelho de João. Por qual motivo a comunidade romana não a incluía, pelo que também não figura no evangelho de Marcos, e, subsequentemente, nos demais evangelhos sinópticos, é algo que não sabemos dizer.

André foi um dos doze apóstolos; o seu nome significa varonil. Era filho de Jonas ou «João», e procedia de Betsaida, na Galiléia. (Ver Jo 1:44). Entretanto, mais tarde fora viver com Pedro, em Cafarnaum (ver Mc 1:29), que pode ter sido a cidade onde morava a sogra de Pedro, e para onde este último pode ter-se mudado após o seu casamento. Em Cafarnaum, os dois irmãos se tinham tornado ativos pescadores. (Ver Mt 4:18). André se tornara discípulo de João Batista (ver Jo 1:35-40), e foi partindo desse contato que chegou a conhecer ao Senhor Jesus. Posteriormente, André foi convocado para o completo discipulado (ver Mt 4:18-20; Mc 1:16-18). André geralmente é relembrado por sua fé prática, porquanto saiu em busca de seu irmão e o trouxe a Cristo. A tradição (considerada provável) assevera que ele, afinal, teve de morrer como mártir, na Acaia. Os evangelhos sinópticos pouco falam a respeito dele, e o seu grande serviço consistiu em levar Pedro a Cristo, acerca do que observou William Temple: «Talvez seja tão grande serviço, prestado à Igreja, como qualquer outro jamais realizou». (Extraído de Readings in St. John ’s Gospel, pág. 29). André foi o primeiro missionário nacional (Jo 1:42), e também o primeiro missionário ao estrangeiro (Jo 12:21,22).

«André, que paira nos limiares do círculo mais íntimo dos discípulos, ocasionalmente dentro desse círculo, embora não usualmente, não recebe proeminência na narrativa dos evangelhos. Porém, quando podemos obter alguma visão a respeito dele, ele está sempre fazendo a mesma coisa, isto é, conduzindo outros a Cristo; e, por meio desses outros, em segunda mão, efetuando poderosas coisas para Cristo, pois, não fora ele, nada teriam feito. Pedro era o amigo mais íntimo de nosso Senhor, e foi André que deu a Cristo esse presente especial. Também foi a André que o jovem trouxe, um tanto envergonhado, o seu pequenino pacote de alimentos; e foi André, igualmente, também um tanto envergonhado, que trouxe o jovem e a sua inadequada oferta a Cristo...Foi um obscuro frade dominicano quem primeiro levou João Knox aos pés de Cristo...Assim também, pessoas simples, sem quaisquer dotes particulares, podem fazer coisas maravilhosas para Cristo, por intermédio daqueles a quem influenciam». (Arthur John Gossip, in loc.).

Disciplina e Diligencia

1. O discipulado tem sua origem no fato de que nossos destinos estão vinculados ao de Cristo; portanto, devemos seguir o seu caminho, moral e espiritualmente falando, para que nossas respectivas missões e potenciali­dades sejam cumpridas. (Ver Rm 8:29 e Mt 28:18-20).

2. O discipulado requer a renúncia no presente (ver Mc 8:36 e ss.).

3. O discipulado requer completa dedicação (ver Rm 12:1-2).

4. O discipulado requer o uso dos meios de desenvolvimento espiritual, como a oração (ver Ef 6:18); a meditação que nos capacita a ver a iluminação (ver Ef 1:18); a santificação (ver I Ts 4:3); a prática da lei do amor, que é a comprovação da espiritualidade (ver a I Jo 4:7); a dedicação da mente aos princípios espirituais, através do estudo dos livros sagrados e de outra literatura de valor (ver I Ts 4:13); e o emprego dos dons espirituais (ver I Co 12 e Ef 4:8 e ss.).

1:41    Ele achou primeiro o seu irmão Simão, e disse-lhe: Havemos achado o Messias (que traduzido, quer dizer Cristo).
1:42    E o levou a Jesus, fixando nele o olhar, disse: Tu és Simão, filho de João; tu será chamado Cefas (que quer dizer Pedro)

«...achou primeiro ao seu próprio irmão...» (Quanto à exposição e às implicações desta declaração, ver as notas anteriores, no vs. 40). André é aqui descrito como irmão de Pedro, sem dúvida por causa da distinção mais aviltada de Pedro na narrativa evangélica; mas não parece haver margens para dúvidas de que André exerceu influência tanto sobre Pedro como sobre João, embora leiamos que ele procurou a seu irmão e a ele proclamou confiantemente o caráter messiânico de Jesus. «Ele (André) aparece novamente como mediador e pioneiro, em João 12:22». (Lange, in loc.). Com base no próprio texto sagrado, não podemos determinar quando ocorreu esse levar de Pedro, por parte de André, à presença de Jesus; provavelmente teria acontecido no mesmo dia em que Pedro conheceu a Jesus, embora o mais provável seja que o tenha feito no dia seguinte. Seja como for, notícias tão importantes como aquelas, para os ouvidos judeus, não poderiam ter ficado adormecidas por longo tempo. Alguns intérpretes (como Meyer) supõem que João também agiu da mesma maneira que André, isto é, que não se demorou em trazer a Jesus Cristo o seu próprio irmão, Tiago, embora sobre isso a narrativa dos evangelhos faça o mais total silêncio.

Há uma variante textual aqui, em torno do vocábulo «primeiro». Essa variante é entre protos (nos mss Aleph, L e W, bem como na maioria dos manuscritos gregos posteriores), o que provavelmente indicaria que ele, antes de João, trouxe o seu próprio irmão a Jesus, ficando subentendido que João mais tarde fez outro tanto, trazendo a Jesus o seu irmão, Tiago. Não obstante, o texto mais bem comprovado, é «proton» (nos mss P(66), P(75), BA, Theta, Fam 1, Fam 13 e na maioria das versões latinas). Algumas antigas versões têm traduzido essa palavra como «pela manhã» (assim dizem a versão latina b e o Si(s). Ou talvez isso signifique que André tenha procurado a seu irmão antes de qualquer outra coisa, ficando subentendida a prioridade dessa ação. Mui provavelmente esse é o sentido aqui tencionado. Temos, pois, aqui, o «precedente evangélico». Este ensina-nos que, antes de qualquer outra coisa, é nossa responsabilidade conduzir os homens a Cristo, não de maneira superficial ou «mágica», ensinando-lhes orações e encantando os simplistas, como se essas coisas tivessem o mágico efeito de converter aqueles que os proferem, mas de uma maneira tal que lhes mostre que Cristo é o alvo mesmo de toda a existência humana, e que ele é o caminho de volta para o Pai, e que por intermédio de seu Espírito seremos transformados segundo a imagem de Cristo. E assim daremos aos homens uma melhor compreensão sobre as razões e sobre o destino da existência humana.

«...Messias... que quer dizer Cristo...». Outra tradução, tal como já se vira no vs. 38, o que novamente demonstra que este quarto evangelho foi escrito para alguma comunidade não judaica, provavelmente a igreja cristã de Éfeso.

«...tu serás chamado Cefas...». Outra tradução ainda aparece aqui, a terceira deste capítulo. (Ver as notas referentes ao parágrafo anterior, quanto ao sentido disso. Outras instâncias dessa prática do autor existem, o que mostra que ele escreveu para uma comunidade não-judaica, ver os trechos de João 4:25; 5:2; 9:7; 11:16; 19:13,17 e 20:16). Cefas também é um nome aramaico, apelativo esse que também foi usado por Paulo e Pedro, e que aparece nas epístolas de 1 Coríntios e de Gálatas por nada menos de oito vezes, embora em mais nenhuma outra porção do N.T., sem contar com a deste versículo. «Pedro» significa homem de rocha, e aparece na lista dos doze, no evangelho de Marcos (3:16).

«Além desses também havia Pedro, um dos personagens mais vividamente retratados na literatura; intensamente humano em todas as ocasiões, e digno de afeição até mesmo em seus piores equívocos—e esses foram muitos—tinha como ‘sinal especial, como homem’, a sua estranha inconstância. Era tão repentino e surpreendente, nas ondas de seus sentimentos interiores, como o mar da Galiléia, onde, sem qualquer aviso, os ventos sopram das colinas circundantes e, em um momento, agitam furiosamente o lago; não obstante, quase que no momento seguinte, pode ficar novamente calmo como a morte. Ora, Cristo olhou para ele e disse com toda a confiança: ‘Serás um homem forte como uma rocha, sobre o qual poderei edificar a minha igreja’. À primeira vista não parecia assim, e muito demorou para que ele nisso se tornasse. E houve nesse ínterim dolorosos desvios. Mas, finalmente, assim aconteceu. As possibilidades que somente Cristo percebeu no homem estavam presentes, e se transformaram em um fato. E Cristo prometeu que podemos desenvolver-nos segundo a sua própria imagem. Tudo ainda nos parece muito distante; e talvez nos pareça tão impossível como sempre. Não obstante, no dizer de Paulo, nenhum dos que confiam em Cristo jamais será desapontado. (Ver Rm 10:11, tradução de Moffatt). Se Cristo assim declarou, certamente pode realizá-lo, e assim fará. E assim, um dia, tudo será uma realidade, e o sonho se materializará». (Arthur John Gossip, in loc.).
Há certa variante textual em torno do nome do pai de Pedro. Alguns manuscritos (a maioria dos posteriores, incluindo os mss AB(3) EFGHKMSUVX, Gamma, Delta e Fam Pi) dizem Jonas. Theta assim também diz, embora com variação na forma escrita. Todavia, os manuscritos mais antigos, P(66), P(75), Aleph, BL e a maioria das antigas versões latinas, dizem João. Não parece haver dúvidas que esse seja o texto correto neste evangelho de João. Porém, o texto correto em Mt 16:17, é Jonas. O apócrifo evangelho segundo aos Hebreus diz «João». A passagem de João 21:15,17, uma vez mais, fornece-nos o nome de «João» como o pai de Pedro. Diversas tentativas têm sido feitas para explicar que «João» realmente surgiu como modificação de «Jonas». Alguns eruditos acreditam que «João» surgiu, como nome do progenitor de Pedro, tanto neste evangelho de João como em outras tradições, por causa da helenizaçâo do apelativo hebraico «Jonas», ou então por simples erro de identificação dos dois nomes, por serem tão semelhantes entre si.

Bibliografia R. N. Champlin


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