A Obra do Filho
TEXTO ÁUREO
“Pelo que
também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome.”
(Fp 2.9).
ENTENDA O TEXTO ÁUREO
Filipenses 2.9 ocupa uma posição
central no chamado Hino Cristológico (Fp
2.6–11) e marca a transição decisiva da humilhação voluntária do Filho para
a sua exaltação gloriosa. O versículo não pode ser interpretado isoladamente,
pois está intrinsecamente ligado à obediência descrita no verso anterior:
“sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Fp 2.8). Assim, Paulo estabelece uma relação clara de causa e
consequência entre a obra redentora de Cristo e sua exaltação pelo Pai.
Pelo
que também (διὸ καὶ) A expressão grega dio kai possui
forte valor inferencial e conclusivo. Ela aponta diretamente para tudo o que
foi afirmado nos versículos 6–8. A
exaltação de Cristo não é arbitrária, mas é a resposta divina à sua humilhação
obediente. Trata-se de um princípio teológico recorrente nas Escrituras: Deus
exalta aquele que se humilha diante dEle (cf.
Pv 15.33; Mt 23.12). Nesse sentido, Paulo não sugere que Cristo “mereceu” a
exaltação no sentido humano de recompensa, mas que a exaltação é a vindicação
pública e cósmica da perfeita obediência do Filho. A cruz, vista como vergonha
no mundo romano, é reinterpretada à luz da ressurreição e da exaltação como o
caminho da verdadeira glória.
Deus
o exaltou soberanamente (ὁ Θεὸς αὐτὸν ὑπερύψωσεν) O sujeito
da ação é explicitamente Deus Pai. Isso preserva a distinção de pessoas na
Trindade e revela a harmonia da obra redentora: o Filho se humilha
voluntariamente, e o Pai o exalta gloriosamente. O verbo hyperypsōsen é um
termo intensivo, formado pela junção de hyper (acima, além de) e hypsóō
(exaltar). A ideia não é apenas exaltação, mas exaltação suprema, incomparável
e definitiva. Paulo afirma que Cristo foi elevado a uma posição acima de toda
autoridade criada, visível e invisível (cf.
Ef 1.20–22).
Teologicamente, essa exaltação inclui:
a ressurreição; a ascensão; a entronização à destra do Pai; o reconhecimento
universal de sua soberania. Cristo não retorna simplesmente ao estado anterior
à encarnação, mas agora é exaltado como o Deus-Homem glorificado, mediador
eterno entre Deus e os homens (1Tm 2.5).
E
lhe deu (καὶ ἐχαρίσατο αὐτῷ) O verbo charízomai
deriva da raiz charis (graça). Isso é teologicamente significativo: o Pai
“concede” ao Filho, em termos funcionais e históricos, aquilo que corresponde à
sua missão cumprida. Não se trata de uma concessão ontológica (como se Cristo
não possuísse dignidade divina), mas de uma concessão econômica, relacionada ao
papel messiânico do Filho após a obra da redenção. Essa linguagem preserva
tanto a plena divindade de Cristo quanto a realidade de sua missão mediadora. O
que Ele recebe, recebe como o Messias vitorioso e Redentor exaltado.
Um
nome que é sobre todo o nome (τὸ ὄνομα τὸ ὑπὲρ
πᾶν ὄνομα) Na mentalidade bíblica, nome não é apenas um título verbal, mas
representa autoridade, identidade, caráter e posição. O “nome sobre todo o
nome” não se refere meramente ao som da palavra “Jesus”, mas à senhoria
absoluta que lhe é atribuída. O contexto imediato (Fp 2.10–11) esclarece que esse nome está ligado à confissão
universal: “Jesus Cristo é o Senhor”. O termo Kyrios (Senhor) é particularmente
importante, pois no Antigo Testamento grego (LXX) é o termo usado para traduzir
o nome divino YHWH. Paulo, portanto, aplica a Jesus a linguagem e a honra que
pertencem exclusivamente ao Deus de Israel (cf.
Is 45.23). Isso significa que: Cristo compartilha da autoridade divina; toda
criatura está sujeita ao seu domínio; sua soberania é absoluta, universal e
eterna.
Filipenses
2.9 afirma, de forma inequívoca, que a cruz não
foi o fim da história, mas o caminho para a glória. A exaltação de Cristo
confirma que sua obra foi aceita, suficiente e vitoriosa. Ele reina hoje como
Senhor, não apenas da Igreja, mas de toda a criação. Para a Igreja, esse texto
tem implicações profundas: fundamenta a adoração cristã centrada em Cristo; reafirma
a exclusividade da autoridade de Jesus; chama os crentes a viverem sob o
senhorio daquele que se humilhou por amor. Assim, Filipenses 2.9 proclama que o Cristo crucificado é o Cristo
exaltado.
Aquele que desceu às profundezas da
humilhação foi elevado ao mais alto trono do Universo. Diante dEle, todo joelho
se dobrará para a glória de Deus Pai.
VERDADE
PRÁTICA
A
humilhação voluntária de Cristo, sua obra redentora e sua exaltação gloriosa
revelam que somente Ele é digno de toda adoração e obediência.
ENTENDA A VERDADE PRÁTICA
A trajetória redentora do Filho, da
humilhação voluntária na encarnação e na cruz, passando pela obra sacerdotal
perfeita e suficiente, até a sua exaltação soberana à destra do Pai, revela de
forma inequívoca que Jesus Cristo é o centro do plano eterno de Deus. Sua
obediência perfeita satisfez plenamente a justiça divina, sua morte vicária
garantiu redenção eterna aos que creem, e sua exaltação gloriosa confirma sua
autoridade absoluta sobre toda a criação. Portanto, somente Cristo, o Senhor
exaltado, é digno de adoração exclusiva, fé confiante e obediência integral,
pois nele Deus reconciliou o mundo consigo mesmo e estabeleceu o fundamento
eterno da salvação e do senhorio divino.
LEITURA
BÍBLICA = Filipenses 2.5-11;
Hebreus 9.24-28.
Observação
editorial: os comentários abaixo não são citações
literais, mas sínteses teológicas fiéis às linhas interpretativas das obras
citadas.
Filipenses 2
5 De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo
Jesus,
Sentimento
(phroneō) – mente, disposição interior, modo contínuo de pensar. O termo
phroneō não indica apenas emoção, mas uma mentalidade governante, uma
cosmovisão moldada pelo caráter de Cristo. As três Bíblias destacam que Paulo
não apresenta Cristo apenas como Salvador, mas como modelo ético supremo. Ter a
mente de Cristo significa viver sob o princípio da humildade, renúncia e
obediência.
A verdadeira espiritualidade não se
mede por dons ou posição, mas por quanto o caráter de Cristo governa nossas
decisões diárias.
6 que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus.
Forma
(morphē) – natureza essencial, aquilo que algo é em si mesmo. Igual a Deus;
plena igualdade ontológica. Morphē indica que Cristo possuía plenamente a
natureza divina, não uma aparência. MacArthur enfatiza que Cristo não tentou se
tornar Deus, Ele já era Deus. A Bíblia Pentecostal ressalta que a igualdade não
foi usada para autoexaltação. Cristo não se agarrou aos seus direitos. Aqui
aprendemos que verdadeira grandeza não está em afirmar privilégios, mas em
servir por amor.
7 Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se
semelhante aos homens;
Aniquilou-se
(kenóō) – esvaziar-se voluntariamente. Servo
(doulos) – escravo, alguém sem direitos próprios. A kénosis não significa perda
da divindade, mas renúncia voluntária da glória e dos privilégios divinos.
Plenitude destaca a identificação
total de Cristo com a humanidade. Cristo se fez servo para libertar escravos do
pecado. A Igreja é chamada não a dominar, mas a servir com o mesmo espírito de
entrega.
8 e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente
até à morte e morte de cruz.
Humilhou-se
– abaixar-se voluntariamente.
Obediente
– submissão total à vontade do Pai.
Cruz
– símbolo de maldição e vergonha. A obediência de Cristo foi ativa e passiva:
Ele viveu perfeitamente e morreu substitutivamente. A Bíblia MacArthur enfatiza
que a cruz foi o ponto máximo da humilhação. Nossa salvação está firmada na
obediência de Cristo, não na nossa. Isso gera gratidão e nos chama a obedecer
mesmo quando o caminho é difícil.
9 Pelo que também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é
sobre todo o nome,
Exaltou
soberanamente (hyperypsōsen) – elevar acima de
tudo. A exaltação é a resposta do Pai à obediência do Filho. Pentecostal
destaca a vitória pública; MacArthur aponta a entronização messiânica. A cruz
não foi derrota, mas caminho para a glória. Deus ainda exalta os que se
humilham diante dEle.
10 para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus,
e na terra, e debaixo da terra,
Todo
joelho – submissão universal. Céus, terra e inferno – totalidade da criação. Refere-se à
soberania absoluta de Cristo. Plenitude enfatiza a autoridade espiritual
presente; MacArthur destaca o juízo futuro. Hoje dobramos os joelhos
voluntariamente; no futuro, todos o farão. Adoração agora é privilégio; depois
será reconhecimento inevitável.
11 e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de
Deus Pai.
Senhor
(Kyrios) – título divino (YHWH). Glória
de Deus Pai – finalidade última. Confessar Jesus como Senhor é atribuir-Lhe
a identidade e autoridade do Deus do Antigo Testamento. Toda a cristologia
culmina na glória de Deus. Confessar Cristo hoje é viver sob seu senhorio
diariamente.
Hebreus 9.24-28.
24 Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do
verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer, por nós, perante a face
de Deus;
Santuário
verdadeiro – o céu. Comparecer
por nós – intercessão contínua. Cristo ministra no santuário celestial, não
em sombras. Pentecostal destaca a intercessão viva; MacArthur enfatiza a
superioridade do sacerdócio de Cristo. Temos um Salvador ativo no céu. Nossa fé
descansa em alguém que intercede continuamente por nós.
25 nem também para a si mesmo se oferecer muitas vezes, como o sumo
sacerdote cada ano entra no Santuário com sangue alheio.
Muitas
vezes – repetição ineficaz. Sangue alheio – sacrifícios imperfeitos. O sistema levítico era
provisório. Cristo rompe com a repetição ritual. Religião repete; Cristo
resolve. Não precisamos de novos sacrifícios, apenas de fé viva.
26 Doutra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a
fundação do mundo; mas, agora, na consumação dos séculos, uma vez se
manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo.
Aniquilar
– remover definitivamente. Consumação
dos séculos – clímax do plano divino. A cruz é o centro da história.
Plenitude destaca a vitória sobre o pecado; MacArthur ressalta a suficiência
absoluta. O pecado foi tratado na raiz. Não vivemos mais sob culpa, mas sob
graça transformadora.
27 E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo, depois
disso, o juízo,
Juízo
– prestação de contas. A vida é linear, não cíclica. Não há reencarnação nem
segunda chance pós-morte. O evangelho é urgente. Hoje é o dia de reconciliação
com Deus.
28 assim também Cristo, oferecendo-se uma vez, para tirar os pecados de
muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para a salvação..
Uma
vez – sacrifício completo.
Segunda
vez – retorno glorioso.
Salvação
final – glorificação. A primeira vinda tratou do
pecado; a segunda consumará a redenção. Vivemos entre a cruz e a glória. A
esperança cristã não é fuga do mundo, mas expectativa do retorno de Cristo.
INTRODUÇÃO
Como pode o Deus eterno, criador de
todas as coisas, escolher o caminho da humilhação, da cruz e da morte para
revelar plenamente sua glória? Essa pergunta está no coração da fé cristã e
conduz diretamente ao centro da Obra do Filho. Diferentemente de qualquer líder
religioso ou herói moral da história, Jesus Cristo não apenas ensinou sobre
Deus, Ele é Deus que age na história para redimir, reconciliar e reinar.
A Escritura revela que a obra de
Cristo não pode ser compreendida de forma fragmentada ou superficial. Ela se
desenvolve em um movimento teológico profundo e progressivo: humilhação
voluntária, redenção eficaz e exaltação gloriosa. Em Filipenses 2.5–11, o apóstolo Paulo apresenta esse movimento como o
paradigma supremo do agir divino e, ao mesmo tempo, como o modelo ético para a
vida cristã. Já em Hebreus 9.24–28,
somos conduzidos ao coração da obra sacerdotal de Cristo, que supera
definitivamente o sistema levítico e inaugura uma redenção eterna.
Esta lição parte da convicção de que a
obra do Filho é histórica, substitutiva, suficiente e escatológica. Histórica,
porque se manifesta na encarnação real do Verbo; substitutiva, porque Cristo
assume o lugar do pecador diante da justiça divina; suficiente, porque seu
sacrifício é único e definitivo; e escatológica, porque culmina na exaltação de
Cristo e em seu retorno glorioso. Não se trata apenas do perdão dos pecados
individuais, mas da revelação plena do caráter do Pai, da restauração da
comunhão entre Deus e os homens e da afirmação da soberania universal de
Cristo.
Ao longo desta lição, veremos como o
Filho se humilhou sem deixar de ser Deus, como sua morte foi o sacrifício
perfeito e final pelos pecados, e como sua exaltação confirma sua autoridade
suprema sobre toda a criação.
Esse percurso não apenas esclarece a
doutrina cristológica, mas confronta o leitor com uma resposta inevitável: se
Cristo é quem a Escritura afirma que Ele é, então somente Ele é digno de
adoração, obediência e entrega total da vida. Esta é a obra do Filho e ela
redefine tudo.
I. A
HUMILHAÇÃO VOLUNTÁRIA DO FILHO
1.
A submissão de Cristo. Paulo inicia sua exortação aos
filipenses não com uma doutrina abstrata, mas com um chamado pastoral urgente à
unidade e à humildade, virtudes indispensáveis para a saúde espiritual da
igreja. Em Filipenses 2.1–4, ele
prepara o terreno ao confrontar o egoísmo, a vanglória e a busca por interesses
próprios. É nesse contexto comunitário concreto que surge a ordem central do
texto: “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus” (Fp 2.5, NVI). A cristologia paulina
aqui não é apenas confessional, mas formativa. Cristo não é apresentado somente
como objeto de fé, mas como o padrão que molda o caráter e o comportamento da
comunidade cristã. O termo grego traduzido por “sentimento” é phroneō, que vai
muito além de um estado emocional passageiro. Trata-se de uma disposição
interior contínua, um modo de pensar que governa decisões, prioridades e
relações.
Gordon Fee observa que phroneō envolve
orientação prática da vida, não mera reflexão intelectual. Paulo, portanto,
chama a igreja a adotar a cosmovisão de Cristo. Uma mente treinada pela
humildade, pelo amor sacrificial e pela obediência ao Pai. Essa mente não nasce
naturalmente no coração humano. Ela é fruto da obra regeneradora do Espírito
Santo e do exercício diário da vida cristã, como ensina Romanos 12.2. Ter a mente de Cristo significa alinhar a consciência
à lógica do Reino, que é oposta à lógica do mundo.
Enquanto o mundo exalta a
autopromoção, Cristo escolheu o caminho da submissão. Enquanto a cultura busca
poder, Ele abraçou o serviço. Jesus mesmo declarou ter deixado um exemplo a ser
seguido: “Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz” (Jo 13.15, NVI).
Aqui não se trata de mera imitação
externa, mas de conformação interior. Anthony Palma destaca que essa submissão
de Cristo é voluntária, consciente e orientada pelo amor. Ela revela não
fraqueza, mas força moral e espiritual. Essa submissão se manifesta de forma
prática na renúncia do egoísmo e na busca sincera pelo bem do próximo. Viver
segundo a mente de Cristo implica deslocar o centro da vida do “eu” para Deus e
para o outro. João afirma que “aquele que afirma permanecer nele, deve andar
como ele andou” (1Jo 2.6, NVI).
Isso confronta uma fé apenas teórica.
A espiritualidade bíblica é visível, relacional e ética. Ela se expressa em
escolhas diárias que glorificam a Deus, mesmo quando exigem renúncia pessoal. Por
fim, essa verdade nos conduz a uma aplicação pastoral inevitável. Crer em
Cristo é inseparável de pensar como Cristo e agir como Cristo. A submissão do
Filho ao Pai torna-se o fundamento da submissão do crente à vontade de Deus.
Aprender de Cristo, que é “manso e humilde de coração” (Mt 11.29, NVI), não é um convite à
passividade, mas à transformação profunda do caráter. Uma igreja moldada pela
mente de Cristo será uma igreja mais humilde, mais unida e mais fiel à sua
missão no mundo.
2. O esvaziamento de sua glória. Ao
afirmar que Jesus, “sendo em forma de Deus, não considerou que o ser igual a
Deus era algo a que devia apegar-se” (Fp
2.6, NVI), o apóstolo Paulo nos conduz ao coração da cristologia bíblica. A
expressão “forma de Deus” traduz o termo grego morphē, que indica a
natureza essencial e imutável de Cristo. Ele não apenas se assemelhava a Deus.
Ele é Deus em sua plena essência, conforme João declara ao afirmar que “o Verbo
era Deus” (Jo 1.1, NVI).
Paulo,
portanto, não começa falando da humilhação de alguém inferior, mas do
autoesvaziamento daquele que possui plena igualdade com o Pai. O ponto central
do texto não é a perda da divindade, mas a maneira como Cristo lidou com seus
direitos divinos. A expressão “não teve por usurpação” revela que Jesus não
considerou sua igualdade com Deus como algo a ser explorado em benefício
próprio. Aqui está o contraste radical com o primeiro Adão.
Em
Gênesis 3.5, Adão desejou ser como
Deus, mesmo sendo criatura. Cristo, o segundo Adão, sendo Deus, escolheu não se
valer dessa condição para sua própria vantagem. Gordon Fee observa que esse
movimento revela a lógica invertida do Reino. A verdadeira glória não está em
tomar, mas em se doar. Paulo prossegue afirmando que Cristo “esvaziou-se a
si mesmo” (Fp 2.7, NVI). O verbo
grego kenóō, de onde vem o termo kénosis, não indica anulação da divindade, mas
renúncia voluntária de status, prerrogativas e glória. Jesus não deixou de ser
quem era. Ele escolheu não viver a partir de seus privilégios divinos. Stanley
Horton ressalta que o esvaziamento está ligado à encarnação real e completa. O
Filho assume a condição humana sem deixar de ser Deus. Ele se torna verdadeiramente
homem, sujeito às limitações da existência humana, exceto o pecado (Hb 4.15).
Esse
esvaziamento se expressa de forma concreta ao “tomar a forma de servo”.
O termo doulos descreve alguém sem direitos próprios, totalmente submetido à
vontade de outro. Cristo assume a posição mais baixa na escala social e
religiosa do mundo antigo. Frank Macchia observa que essa escolha revela a
profundidade do amor divino. Deus não salva à distância. Ele entra na condição
humana e a redime por dentro. O esvaziamento de Cristo é, portanto, um ato
ativo de amor e obediência, não uma diminuição de sua identidade divina. Esse
texto confronta nossas noções de poder, sucesso e espiritualidade. Seguir a
Cristo significa aprender a abrir mão do orgulho, do controle e da autopromoção.
A kénosis do Filho nos chama a uma espiritualidade marcada pela humildade
consciente e pelo serviço sacrificial. A glória que Cristo renunciou
temporariamente foi restaurada na exaltação. A glória que o cristão renuncia
por amor será transformada em maturidade espiritual. O caminho de Cristo
continua sendo o caminho do discípulo.
3. Obediência sacrificial até a
cruz. A afirmação paulina de que Cristo “humilhou-se a si mesmo e
foi obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp 2.8, NVI) nos conduz ao ponto mais profundo da humilhação do
Filho. A obediência de Jesus não foi episódica, nem limitada a momentos
específicos de sua missão. Ela atravessa toda a sua existência encarnada, desde
a manjedoura até o Calvário. O verbo grego hypēkoos, traduzido por “obediente”,
descreve alguém que se submete voluntariamente à autoridade de outro, ouvindo
com atenção e respondendo com ação.
Cristo
não apenas conhecia a vontade do Pai. Ele a abraçou integralmente, mesmo quando
essa vontade o conduziu ao sofrimento extremo. Essa obediência se torna ainda
mais escandalosa quando Paulo acrescenta “e morte de cruz”. No mundo
romano, a cruz era símbolo de vergonha, maldição e rejeição pública. Não era
apenas morte, mas morte infame. Segundo o Comentário Histórico-Cultural do Novo
Testamento, a crucificação era reservada aos piores criminosos e escravos
rebeldes. Ao aceitar esse tipo de morte, Jesus assume a posição mais baixa
possível. Como afirma Paulo em outro texto, “sendo rico, se fez pobre por amor
de vocês” (2Co 8.9, NVI). Aqui não
se trata de pobreza material apenas, mas de esvaziamento existencial. O Filho
eterno se coloca no lugar do servo sofredor.
O autor de Hebreus acrescenta que
Cristo suportou a cruz “pela alegria que lhe fora proposta” (Hb 12.2, NVI). Essa alegria não estava
no sofrimento em si, mas no propósito redentor que seria cumprido. A obediência
de Jesus é teleológica. Ela tem um alvo claro. A redenção dos pecadores e a
glorificação do Pai. Nesse ponto, a Escritura estabelece um contraste teológico
decisivo entre Adão e Cristo.
Por meio da desobediência do primeiro,
muitos foram feitos pecadores. Por meio da obediência do segundo, muitos são
feitos justos (Rm 5.19). Cristo é o
último Adão, aquele que reescreve a história humana a partir da obediência
perfeita.
Essa verdade revela o fundamento da
obra redentora. A salvação não repousa em sentimentos humanos, ritos religiosos
ou méritos pessoais. Ela está ancorada na obediência completa do Filho ao Pai.
Jesus afirmou claramente: “desci dos céus, não para fazer a minha vontade, mas
para fazer a vontade daquele que me enviou” (Jo 6.38, NVI). Stanley Horton observa que essa obediência não
diminui a divindade de Cristo, mas manifesta sua perfeita comunhão com o Pai
dentro da economia da redenção. A cruz, portanto, não é um acidente no plano
divino, mas o seu centro.
Esse texto confronta a espiritualidade
superficial e autocentrada. Somos salvos pela obediência de Cristo, não pela
nossa. “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé” (Ef 2.8–9, NVI). No entanto, essa mesma
graça nos chama a uma vida de entrega. Paulo conclui essa lógica ao exortar os
crentes a se oferecerem como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (Rm 12.1). A obediência de Cristo não
apenas nos redime. Ela nos ensina como viver. Seguir Jesus é aprender a
obedecer mesmo quando o caminho passa pela cruz, confiando que a vontade do Pai
sempre conduz à vida.
II. A OBRA REDENTORA DO FILHO
1. A
ineficácia do sacerdócio levítico. A
Escritura nos conduz a uma constatação inevitável. O sistema sacrificial do
Antigo Testamento, embora instituído por Deus, jamais teve poder em si mesmo
para remover o pecado. No Dia da Expiação, o sumo sacerdote entrava no Santo
dos Santos apenas uma vez por ano, levando sangue alheio, o sangue de animais,
para expiar os próprios pecados e os do povo (Lv 16.11–15). O autor de Hebreus é direto ao afirmar que essa
repetição anual revelava a limitação do sacerdócio levítico. Se o sacrifício
fosse eficaz, não precisaria ser continuamente renovado (Hb 9.25). O ritual apontava para algo maior, ainda por vir, e não
para sua própria suficiência.
Essa ineficácia não estava no
propósito de Deus, mas na natureza provisória do sistema. O sacerdócio levítico
era tipológico. O termo bíblico indica uma figura pedagógica, um modelo que
prepara o entendimento do povo para a realidade definitiva.
O sumo sacerdote terreno prefigurava
Cristo, que se tornaria misericordioso e fiel Sumo Sacerdote nas coisas
referentes a Deus (Hb 2.17). Gordon
Fee observa que a tipologia em Hebreus não diminui o valor do Antigo
Testamento, mas revela sua função preparatória na economia da redenção. O
problema não era a Lei, mas sua incapacidade de transformar o coração humano de
forma plena e definitiva.
O autor de Hebreus aprofunda essa
ideia ao contrastar o santuário terreno com o celestial. O tabernáculo e, mais
tarde, o templo eram apenas sombra e cópia das realidades celestiais (Hb 8.5). Cristo, porém, não entrou em
um espaço feito por mãos humanas. Ele entrou no próprio céu, agora comparecendo
diante de Deus em nosso favor (Hb 9.24).
Aqui está um ponto teológico decisivo. A obra redentora de Cristo não se limita
ao passado da cruz, mas se estende ao presente de sua intercessão. Seu sacerdócio
é vivo, ativo e contínuo, fundamentado em sua obra consumada.
A diferença essencial está no
sacrifício oferecido. Enquanto os sacerdotes levíticos levavam sangue alheio,
Cristo entrou no santuário com o seu próprio sangue, obtendo eterna redenção (Hb 9.12). O termo grego usado para
redenção comunica a ideia de libertação definitiva mediante pagamento pleno.
Não se trata de um alívio temporário da culpa, mas de uma libertação eterna do
poder do pecado. As Bíblias de Estudo Pentecostal e Plenitude destacam que essa
redenção possui efeitos espirituais contínuos, alcançando consciência, culto e
comunhão com Deus. A obra de Cristo não apenas perdoa, ela transforma o
relacionamento do crente com Deus.
Por isso, o sacerdócio levítico foi
superado por um sacerdócio superior. Os sacerdotes antigos eram muitos, porque
a morte os impedia de permanecer. Cristo, porém, vive para sempre e possui um
sacerdócio imutável (Hb 7.23–24). Essa
verdade não é apenas doutrinária. Ela é profundamente pastoral. Nossa segurança
não repousa em ritos, líderes humanos ou esforços religiosos, mas em um Sumo
Sacerdote eterno que intercede continuamente por nós. Viver à luz dessa
redenção é abandonar a confiança em obras mortas e aprender a descansar,
obedecer e servir a partir da obra perfeita de Cristo.
2. O
Sacrifício único e suficiente. A
fragilidade do sistema sacrificial da Antiga Aliança não estava na ordem
divina, mas em sua função provisória. Os sacrifícios eram oferecidos
continuamente porque jamais conseguiam remover o pecado de modo definitivo.
Hebreus afirma que essa repetição constante
revelava sua limitação espiritual e pedagógica. Eles apontavam para a gravidade
do pecado, mas não transformavam a consciência humana (Hb 9.25; 10.1–4). O altar precisava ser revisitado porque a culpa
permanecia. Assim, Deus estava ensinando ao seu povo que algo maior seria
necessário para lidar, de forma plena, com a ruptura causada pelo pecado. É
nesse contexto que o sacrifício de Cristo se revela absolutamente singular. O
autor de Hebreus declara que Ele se ofereceu “uma vez” para tirar os
pecados de muitos (Hb 9.28). O termo
grego hápax não comunica apenas um evento isolado no tempo, mas uma ação
definitiva, irrepetível e com efeitos permanentes.
Stanley Horton observa que hápax
expressa a suficiência absoluta do sacrifício de Cristo, em contraste com a
repetição impotente dos sacrifícios levíticos. O que foi feito não precisa ser
renovado, corrigido ou complementado. A cruz não foi um ensaio, mas a
consumação do plano eterno de Deus. Essa suficiência está diretamente ligada à
eficácia da obra de Cristo. Pela sua morte, fomos santificados de uma vez por
todas, não por ritos, mas pela oferta do seu próprio corpo (Hb 10.10). Aqui, a redenção deixa de ser ritual e se torna
relacional. Jesus não apenas morreu por nós; Ele nos levou para dentro da
presença de Deus. Quando declara “Está consumado” (Jo 19.30), Ele afirma que a dívida foi paga integralmente. Silas
Queiroz destaca que a redenção alcança corpo, alma e espírito, restaurando o
ser humano em sua totalidade. Nada ficou pendente no Calvário.
O rasgar do véu do templo confirma
essa verdade de forma visível e teológica (Mt
27.51). Aquilo que separava o homem da presença santa de Deus foi removido,
não por iniciativa humana, mas pela ação soberana do Filho. Não há mais
barreiras cerimoniais, mediadores humanos ou sacrifícios adicionais. Cristo
abriu um novo e vivo caminho. As Escrituras são categóricas ao afirmar que não
existe outro meio de salvação, nem outro nome dado entre os homens pelo qual
devamos ser salvos (At 4.12).
Qualquer tentativa de acrescentar algo
à cruz é, na prática, negar sua suficiência. Diante disso, a aplicação pastoral
é inevitável. Muitos ainda vivem como se o Calvário não fosse suficiente,
buscando segurança em obras, méritos ou práticas religiosas. A fé cristã madura
aprende a descansar na obra consumada de Cristo e a obedecer a partir dessa
segurança, não para conquistá-la. O Calvário não precisa ser repetido. Ele
precisa ser crido, vivido e proclamado. Jesus é suficiente para salvar,
sustentar e conduzir o seu povo até o fim. Nele, não falta nada.
3. A
substituição vicária. A cruz não foi um gesto simbólico, mas
um ato jurídico e redentor. O termo “vicária”, do latim vicarius,
comunica a ideia de alguém que ocupa o lugar de outro. Biblicamente, isso
significa que Cristo assumiu uma posição que não era sua para que recebêssemos
um destino que não merecíamos. Em Romanos
3.26, Paulo afirma que Deus é, ao mesmo tempo, justo e aquele que justifica
o pecador. Essa tensão só é resolvida na cruz. O pecado não é ignorado,
relativizado ou varrido para debaixo do tapete. Ele é julgado. A justiça divina
não é suspensa; é satisfeita.
A Escritura ensina que o salário do
pecado é a morte e que o reinado do pecado produz condenação (Rm 5.21). Deus, sendo santo, não
poderia simplesmente absolver o culpado sem que a penalidade fosse aplicada.
Por isso, “não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós” (Rm
8.32). Aqui se revela o coração do evangelho. O Pai entrega o Filho, e o
Filho se entrega voluntariamente. Não há injustiça divina nesse ato, pois o
próprio Deus, na pessoa do Filho, assume a pena. Gordon Fee observa que a cruz
não é um conflito entre amor e justiça, mas a manifestação suprema de ambos
atuando em perfeita harmonia.
O sistema sacrificial da Lei apontava
para essa verdade, mas não tinha poder para concretizá-la. Os animais
oferecidos no altar morriam no lugar do pecador, mas seu sangue não removia a
culpa, apenas a cobria temporariamente (Hb
10.4). Eram sombras pedagógicas, não soluções definitivas.
O Comentário Bíblico Beacon destaca
que esses sacrifícios funcionavam como sinais proféticos, preparando o
entendimento do povo para a necessidade de um substituto perfeito. A repetição
constante denunciava sua insuficiência. Algo maior estava por vir. Em Cristo,
essa expectativa se cumpre plenamente. Hebreus declara que Ele se manifestou “uma
vez por todas” para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo (Hb 9.26). O verbo usado indica uma
ação eficaz, não apenas declarativa. Jesus não apenas encobre o pecado; Ele o
remove. Ele não oferece algo externo a si.
Ele oferece a si mesmo. Frank Macchia
ressalta que a substituição vicária em Cristo não é apenas penal, mas também
restauradora, pois reconcilia o ser humano com Deus e inaugura uma nova vida no
Espírito. A resposta a essa obra não pode ser superficial. Se Cristo morreu em
nosso lugar, nossa vida não nos pertence mais. Paulo afirma que fomos chamados
a viver para aquele que por nós morreu e ressuscitou (2Co 5.15). A cruz redefine nossa identidade, nossa obediência e
nossa adoração. Não obedecemos para sermos aceitos.
Obedecemos porque fomos aceitos. A
substituição vicária não apenas nos livra da condenação; ela nos convoca a uma
vida rendida, grata e profundamente transformada diante de Deus.
III. A EXALTAÇÃO GLORIOSA DO FILHO
1. Recebido
à destra do Pai. A
exaltação de Cristo não é um acréscimo tardio à sua obra, mas o selo divino que
confirma tudo o que Ele realizou na humilhação. Filipenses 2.9 afirma que Deus “o exaltou soberanamente”,
ligando de forma direta a exaltação à obediência descrita no versículo
anterior. O Pai responde à entrega total do Filho com uma elevação que
ultrapassa qualquer categoria humana. Não se trata apenas de retorno à glória
pré-encarnada, mas da entronização pública do Filho como o Senhor vitorioso da
história da redenção. A cruz não foi o fim. Foi o caminho para o trono.
O verbo grego traduzido por “exaltou”,
hyperypsōsen, carrega a ideia de elevação máxima, acima de toda medida e
comparação. É uma palavra rara, intensiva, que comunica supremacia absoluta.
Como observam a Bíblia de Estudo Pentecostal e Gordon Fee, Paulo não descreve
apenas honra, mas supremacia cósmica. Cristo é elevado acima de toda autoridade
criada, espiritual ou terrena. Sua exaltação não é simbólica, mas real,
objetiva e universal. Ele não apenas venceu a morte. Ele reina sobre tudo o que
existe.
A expressão “à destra do Pai”,
amplamente atestada nas Escrituras, não descreve um lugar físico, mas uma
posição de autoridade e governo. Hebreus
1.3 afirma que, depois de realizar a purificação dos pecados, o Filho
assentou-se à direita da Majestade nas alturas. Sentar-se indica obra
consumada. O sacrifício foi aceito. A redenção foi concluída. Diferente dos
sacerdotes levíticos, que permaneciam em pé oferecendo repetidos sacrifícios,
Cristo se assenta porque nada mais precisa ser feito. A Bíblia de Estudo
MacArthur destaca que esse assentar-se é a declaração divina de que a obra do
Filho foi perfeita e suficiente.
Essa exaltação também possui um
caráter intercessório e pastoral. Romanos
8.34 afirma que Cristo está à direita de Deus e intercede por nós. O Cristo
exaltado não é distante da igreja. Ele reina e, ao mesmo tempo, cuida. Sua
autoridade não o afasta do povo redimido. Pelo contrário, garante nosso acesso
contínuo à presença do Pai.
Como enfatiza Frank Macchia, a
exaltação de Cristo inaugura uma nova fase do seu ministério, agora exercido em
favor da igreja, no poder do Espírito.
Por fim, a exaltação do Filho redefine
nossa fé e nossa prática. Ele não apenas voltou ao céu. Ele foi entronizado. Apocalipse 3.21 revela que Ele venceu e
se assentou com o Pai no trono. Isso nos chama à confiança, à submissão e à
perseverança. O Cristo exaltado reina sobre a história, sustenta a igreja e
governa o futuro. Vivemos, servimos e adoramos não um Cristo derrotado, mas um
Senhor glorificado, presente, ativo e soberano. Essa verdade fortalece a fé,
corrige nossa visão de sofrimento e nos chama a viver sob o senhorio daquele
que reina eternamente.
2. Um nome
acima de todo nome. A exaltação de Cristo atinge seu ponto
mais elevado quando o Pai lhe concede “um nome que é sobre todo o nome” (Fp 2.9b). Na Escritura, o nome nunca é
mero rótulo. Ele expressa identidade, caráter e autoridade. Ao afirmar que
Jesus recebeu um nome supremo, Paulo declara que Deus o investiu publicamente
com autoridade absoluta. Trata-se do reconhecimento divino de quem Cristo é e
do que realizou. Aquele que se humilhou até a cruz agora é revelado como o
Senhor soberano de toda a criação.
O pano de fundo do texto indica que
esse “nome” está ligado ao título Kyrios, Senhor, aplicado a Jesus de
forma inequívoca nos versículos seguintes. No contexto judaico, Kyrios era o
termo usado na Septuaginta para traduzir o nome santo de Deus. Ao aplicá-lo a
Cristo, o Novo Testamento afirma sua plena participação na identidade divina.
Como observam a Bíblia de Estudo Pentecostal e Gordon Fee, Paulo não sugere uma
promoção ontológica, mas uma entronização funcional e histórica. O Filho
eterno, agora encarnado, morto e ressuscitado, é publicamente confessado como
Senhor absoluto.
Essa supremacia é descrita em termos
cósmicos. Efésios 1.21 afirma que
Cristo está acima de todo principado, potestade, poder e domínio. Nada no mundo
visível ou invisível escapa à sua autoridade. A Bíblia de Estudo MacArthur
destaca que essa linguagem inclui forças espirituais, governos humanos e
qualquer sistema que pretenda rivalizar com o senhorio de Cristo. Não há
hierarquia paralela. Não há poder equivalente. Tudo está sujeito ao Filho
exaltado, como também confirma 1 Pedro
3.22. Esse nome supremo não é apenas uma verdade doutrinária. Ele tem
implicações práticas para a vida da igreja. O Cristo exaltado delega à sua
Igreja autoridade para agir em seu nome.
Em Marcos 16.17 e 18, o nome de Jesus está associado à missão, à
libertação e ao testemunho do Reino. A Bíblia de Estudo Plenitude enfatiza que
essa autoridade não é mágica nem automática. Ela flui de uma relação viva com o
Senhor exaltado e de uma vida submissa ao seu governo. Usar o nome de Jesus é
representar seu caráter e agir sob seu senhorio.
Por fim, confessar que Jesus tem um
nome acima de todo nome é um chamado à rendição. Não se trata apenas de
invocá-lo em oração, mas de dobrar o coração diante dele. O Cristo exaltado não
divide sua glória. Ele governa. Ele envia. Ele sustenta. Viver sob esse nome é
viver em obediência, confiança e missão. Quando a igreja entende quem Jesus é,
ela não teme poderes, não negocia a verdade e não vive de forma superficial.
Ela caminha com reverência, autoridade espiritual e esperança firme naquele que
reina para sempre.
3.
Soberania universal e retorno triunfal. A
exaltação de Cristo culmina na afirmação de sua soberania absoluta sobre toda a
criação. Paulo declara que “ao nome de Jesus se dobre todo joelho” (Fp 2.10). O verbo grego kamptō indica
submissão real e inevitável. Não se trata de um gesto simbólico, mas do
reconhecimento efetivo de autoridade. O Cristo humilhado agora é confessado
como Senhor universal.
Atos
2.36 confirma essa entronização histórica e
teológica. Deus constituiu Jesus como Senhor e Cristo. Aquele que foi rejeitado
pelos homens foi exaltado pelo Pai como soberano de tudo. Essa submissão será
universal e inevitável. Paulo inclui todas as esferas da existência. Nos céus,
na terra e debaixo da terra. Nada fica fora desse domínio. Anjos, seres humanos
e poderes espirituais reconhecerão a autoridade de Cristo. A Bíblia de Estudo
Pentecostal observa que essa linguagem aponta para uma realidade cósmica. O
senhorio de Jesus não se limita à igreja ou à experiência pessoal de fé. Ele
governa toda a ordem criada, visível e invisível. A soberania de Cristo é
total, presente e final.
A confissão de que “Jesus Cristo é
o Senhor” (Fp 2.11) ocorrerá de
duas maneiras distintas. Para os que creem, essa confissão já acontece de forma
voluntária, pela fé e pela obediência (Rm
10.9,10). Para os que rejeitam o evangelho, essa confissão será
compulsória, no contexto do juízo final (Rm
14.11). O verbo exomologeō indica uma declaração pública e inescapável.
Todos reconhecerão quem Cristo é. A diferença estará no momento e no resultado
dessa confissão. Uns o confessam para salvação. Outros o reconhecerão para
condenação.
Hebreus amplia essa visão ao afirmar
que Cristo “aparecerá segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer
salvação aos que o aguardam” (Hb
9.28). Sua primeira vinda foi marcada pela humilhação. A segunda será
caracterizada por glória, poder e juízo. Como destacam o Comentário Bíblico
Beacon e a Bíblia de Estudo MacArthur, o retorno de Cristo não será secreto nem
simbólico. Será visível, histórico e definitivo. Ele virá como Rei vitorioso,
não mais como Servo sofredor. Essa verdade tem implicações pastorais profundas.
A igreja vive entre a exaltação já
consumada e o retorno ainda esperado. Enquanto aguardamos, somos chamados a
viver sob o senhorio de Cristo, com fidelidade, reverência e esperança. João 14.2 e 3 nos lembra que Ele
voltará para buscar os seus. Apocalipse 11.15
proclama que o Reino do mundo passou a ser do nosso Senhor e do seu Cristo.
Viver à luz dessa esperança transforma prioridades, fortalece a perseverança e
purifica a fé. O Cristo exaltado reina agora. E voltará, triunfante, para
reinar eternamente.
CONCLUSÃO
A obra do Filho de Deus não admite
lacunas nem complementos humanos. Ela é perfeita em sua origem, suficiente em
seu alcance e gloriosa em seu desfecho. Desde a humilhação voluntária da
encarnação até a exaltação soberana à destra do Pai, Cristo percorre um caminho
traçado pelo próprio Deus para a redenção do seu povo. Filipenses 2 revela que essa descida não foi perda de glória, mas
expressão de obediência. O verbo grego ekenōsen indica que o Filho não deixou
de ser Deus, mas abriu mão de seus direitos, assumindo plenamente a condição
humana para cumprir o propósito eterno da salvação.
Na cruz, essa obediência alcança seu
ponto máximo. Cristo não apenas morreu, mas se ofereceu. Hebreus descreve sua
morte como um sacrifício único, definitivo e eficaz. Ele não entrou em um
santuário feito por mãos humanas, mas no próprio céu, apresentando-se diante de
Deus em nosso favor. Sua oferta vicária satisfez plenamente a justiça divina e
removeu de uma vez por todas o problema do pecado. Não há necessidade de
repetição, nem espaço para méritos adicionais. Onde o sangue de Cristo foi
aplicado, a culpa foi definitivamente resolvida.
A exaltação do Filho é a resposta do
Pai à sua obediência perfeita. Deus o exaltou soberanamente e lhe deu o Nome
que está acima de todo nome. Isso significa autoridade absoluta, senhorio
universal e governo eterno. Toda criatura, consciente ou constrangida,
reconhecerá essa realidade.
A confissão de que Jesus Cristo é o
Senhor não é apenas uma declaração futura, mas uma verdade presente que
redefine toda a vida cristã. Ele reina agora, e sua soberania não está suspensa
até a consumação final.
À luz dessa verdade, a Igreja não vive
em expectativa passiva, mas em vigilância ativa. Aquele que se ofereceu uma
única vez para tirar os pecados voltará, não para lidar novamente com o pecado,
mas para consumar a salvação dos que o aguardam. Essa esperança molda nossa
ética, nossa espiritualidade e nossa missão. Vivemos entre o já da obra
concluída e o ainda não da glória plenamente revelada, sustentados pela certeza
de que o Rei voltará.
Por isso, a resposta adequada da
Igreja é comunhão, obediência e serviço. Vivemos como servos daquele que se fez
Servo. Seguimos aquele que nos amou até o fim e nos comprou com seu próprio
sangue. Cada escolha diária, cada ato de fidelidade e cada expressão de amor
cristão devem refletir essa verdade central. A obra do Filho está consumada, o
trono está ocupado e o retorno é certo. Cabe a nós viver de modo digno daquele
que nos salvou e que reina para sempre. Três aplicações práticas à luz de toda
a lição, para aplicar à nossa vida cristã:
1.
Viver sob o senhorio real de Cristo no cotidiano: Se
Cristo foi exaltado soberanamente e recebeu autoridade sobre todas as coisas,
então a fé cristã não pode ser apenas confessional, mas governamental.
Reconhecer que “Jesus Cristo é o Senhor” implica submeter decisões,
valores, prioridades e comportamentos ao seu governo. Isso alcança a vida
pessoal, familiar, profissional e eclesiástica. A aplicação prática é clara: o
crente não vive mais para si, mas responde diariamente à pergunta pastoral e
espiritual: o que o Senhor deseja que eu faça? Onde Cristo reina de fato, o ego
perde o trono e a obediência se torna um ato de adoração.
2.
Cultivar uma espiritualidade marcada pela humildade e pelo serviço: A
lição revela que o caminho da glória de Cristo passou, necessariamente, pela
humilhação voluntária. O mesmo princípio rege a vida da Igreja. A verdadeira
maturidade espiritual não se expressa em status, títulos ou visibilidade, mas
em serviço sacrificial, disposição para sofrer por amor e compromisso com o bem
do outro. Na prática, isso significa servir mesmo quando não há reconhecimento,
perdoar quando o orgulho pede vingança e amar quando o custo é alto. A Igreja
se torna mais parecida com Cristo quando aprende a descer, e não quando luta
para subir.
3.
Viver em esperança vigilante e compromisso com a missão: A
certeza do retorno glorioso de Cristo redefine a forma como a Igreja ocupa o
tempo presente. Não vivemos na ansiedade do mundo, nem na passividade
espiritual, mas em esperança ativa. Sabemos que Aquele que se ofereceu uma
única vez voltará para consumar a salvação dos que o aguardam. Isso nos chama a
uma vida santa, vigilante e missionária. Na prática, essa esperança nos move a
anunciar o evangelho, perseverar na fé, resistir ao pecado e investir no que
tem valor eterno. Quem espera o Rei vive preparado, fiel e comprometido com o
seu Reino.
Boa
aula
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