O DEUS
FILHO
TEXTO ÁUREO
“Este é o
meu Filho amado, em quem me comprazo; escutai-o.”
Mateus
17.5b.
ENTENDA O TEXTO ÁUREO
Este
é o meu Filho amado - este; Pronome demonstrativo enfático.
Aponta diretamente para Jesus. O Pai não fala de forma genérica, mas identifica
publicamente o Filho. A construção tem força declarativa e revelacional. é. Verbo no presente do indicativo de
eimí (ser, existir). Indica realidade ontológica contínua, não temporária.
Jesus é, por natureza, o Filho.
O
meu Filho. O indica exclusividade. Não é “um filho”, mas
o Filho, em sentido único, eterno e relacional. Aqui está implícita a filiação
eterna, não meramente adotiva ou funcional. O amado. Deriva de agapáō (amar com amor eletivo, sacrificial).
O termo indica amor eterno, profundo e
eletivo, ecoando: Salmo 2.7
(filiação messiânica) Isaías 42.1 (o
Servo em quem Deus se compraz). O Pai declara a identidade divina e messiânica
de Jesus. Ele não se torna Filho naquele momento; Ele é o Filho amado desde
toda a eternidade (Jo 1.18).
Em
quem me comprazo = em quem. Expressa relação
íntima e permanente. O prazer do Pai reside no Filho. Me comprazo. Aoristo indicativo ativo de “ter prazer profundo,
aprovar plenamente, deleitar-se”. Não indica um prazer momentâneo, mas uma declaração
solene e absoluta de aprovação divina.
O Pai se deleita plenamente no Filho
porque: Ele é perfeitamente obediente (Jo
8.29). Ele cumpre integralmente a vontade divina (Fp 2.8). Ele é o Servo fiel que trará redenção (Is 53). O prazer do Pai não está em
obras humanas, mas exclusivamente no Filho. Escutai-o. escutai / ouvi continuamente.
Verbo no imperativo presente ativo de
akoúō. Indica: Ação contínua; Obediência perseverante; Atenção submissa. Não é
apenas “ouvir sons”, mas ouvir com disposição para obedecer. a ele. Pronome pessoal enfático. O
foco exclusivo da revelação agora é Cristo.
Aqui há uma clara alusão a Deuteronômio 18.15: “A ele ouvireis.” O
Pai declara que Jesus é o Profeta definitivo, superior à Lei (Moisés) e aos
Profetas (Elias). A revelação agora é cristocêntrica (Hb 1.1–2).
Esta declaração do Pai reúne, em uma
única frase: Cristologia elevada → Jesus é o Filho eterno. Trindade revelada →
Pai fala, Filho é exaltado, nuvem indica a presença do Espírito. Autoridade
suprema de Cristo → Ele deve ser ouvido acima de toda outra voz. Transição da
Antiga para a Nova Aliança → Lei e Profetas se submetem ao Filho. Em termos
exegéticos, Mateus 17.5b afirma que:
Jesus é ontologicamente Filho, relacionalmente amado, plenamente aprovado pelo Pai
e absolutamente autoritativo como revelação final de Deus.
VERDADE
PRÁTICA
Jesus Cristo, o Deus Filho, é a revelação plena do
Pai, centro da revelação divina e único mediador entre Deus e os homens.
ENTENDA A VERDADE PRÁTICA:
Jesus Cristo, o Filho eterno e
consubstancial ao Pai, é a auto-revelação perfeita de Deus, o cumprimento da
Lei e dos Profetas, o centro absoluto de toda a Escritura e o único Mediador
que, por sua encarnação, obediência e obra redentora, reconcilia definitivamente
Deus e os homens.
LEITURA BÍBLICA = Lucas
1.31,32,34,35; Mateus 17.1-8.
Observação
editorial: os comentários abaixo não são citações
literais, mas sínteses teológicas fiéis às linhas interpretativas das obras
citadas.
Lucas 1: 31,32,34,35
31 E eis que em teu ventre conceberás, e darás à luz um filho, e
pôr-lhe-ás o nome de Jesus.
As Bíblias concordam que este
versículo inaugura a cristologia lucana. O anúncio do anjo Gabriel revela que a
encarnação é um ato soberano da iniciativa divina, não uma construção humana. O
nome Jesus (Iēsous), equivalente ao hebraico Yehoshua (“YHWH salva”), já
comunica sua missão redentora (Mt 1.21).
BEP: destaca que a salvação é obra trinitária desde a concepção. MacArthur:
ressalta que o nome define a missão antes mesmo do nascimento.
Plenitude: vê aqui o cumprimento das
promessas messiânicas do AT. Aplicação Pessoal: enfatiza que Deus age antes que
o ser humano compreenda plenamente seus planos. Cristo nasce com identidade e
missão definidas por Deus.
32 Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; e o Senhor Deus
lhe dará o trono de Davi, seu pai.
O texto afirma simultaneamente a
divindade e a realeza messiânica de Jesus. “Será grande” não descreve grandeza
moral apenas, mas posição única diante de Deus. O título Filho do Altíssimo
indica filiação singular, não adotiva. MacArthur: enfatiza que esta filiação é
ontológica, não funcional. Pentecostal: associa o trono de Davi à esperança
escatológica messiânica. Plenitude: aponta o cumprimento da Aliança Davídica (2Sm 7). Aplicação Pessoal: destaca que
Deus cumpre promessas antigas em tempos inesperados. Jesus é simultaneamente o
Filho eterno e o Rei prometido.
34 E disse Maria ao anjo: Como se fará isso, visto que não conheço varão?
Maria não expressa incredulidade, mas
busca compreensão. Diferente de Zacarias (Lc 1.18), sua pergunta nasce da fé
obediente. As Bíblias destacam a integridade moral de Maria e a singularidade
do milagre. Pentecostal: vê aqui uma fé que dialoga com Deus. MacArthur:
distingue dúvida de ignorância legítima. Aplicação Pessoal: mostra que
questionar não é o mesmo que duvidar. A fé verdadeira pode perguntar sem
resistir.
35 E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e
a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que também o Santo,
que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.
Este é um dos textos mais trinitários
do Novo Testamento. O Espírito Santo atua, o poder do Pai envolve, e o Filho é
gerado. A expressão “cobrirá com a sua sombra” remete à Shekinah (Êx 40.35). Pentecostal: destaca a ação
soberana do Espírito na encarnação. MacArthur: afirma que a santidade de Cristo
é preservada desde a concepção. Plenitude: vê aqui paralelos com a criação (Gn 1.2). Aplicação Pessoal: enfatiza
que Deus age de forma sobrenatural sem violar sua santidade. Jesus é plenamente
humano, plenamente divino e absolutamente santo.
Mateus 17:1-8
1 Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, e a Tiago, e a João,
seu irmão, e os conduziu em particular a um alto monte.
Jesus escolhe testemunhas íntimas. As
Bíblias observam que esses três também testemunharão o Getsêmani, mostrando que
glória e sofrimento caminham juntos. Revelações profundas exigem maturidade
espiritual.
2 E transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol,
e as suas vestes se tornaram brancas como a luz.
O verbo metamorphóō indica revelação
da glória interior, não mudança essencial. Cristo revela o que sempre foi.
MacArthur: glória não adquirida, mas revelada. Pentecostal: antecipação
escatológica do Reino. A glória de Cristo precede a cruz.
3 E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele.
Representam Lei e Profetas. Todas as
Bíblias concordam que não há necromancia, mas revelação divina. Toda a
Escritura converge para Cristo.
4 E Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: Senhor, bom é estarmos
aqui; se queres, façamos aqui três tabernáculos, um para ti, um para Moisés e
um para Elias.
Pedro tenta igualar Jesus aos demais.
As Bíblias observam que boas intenções podem revelar compreensão teológica
incompleta. Cristo não pode ser colocado no mesmo nível de ninguém.
5 E, estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem luminosa os cobriu. E
da nuvem saiu uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo;
escutai-o.
Clímax da revelação. O Pai corrige
Pedro e estabelece a supremacia absoluta do Filho. A autoridade final pertence
somente a Cristo.
6 E os discípulos, ouvindo isso, caíram sobre seu rosto e tiveram grande
medo.
A resposta correta à revelação da
glória divina é temor reverente. A glória de Deus humilha o homem.
7 E, aproximando-se Jesus, tocou-lhes e disse: Levantai-vos e não
tenhais medo.
O Cristo glorioso é também o Cristo
compassivo. A majestade de Cristo não elimina sua ternura.
8 E, erguendo eles os olhos, ninguém viram, senão a Jesus.
A revelação termina com exclusividade cristológica.
Lei e Profetas se retiram; Cristo permanece.
INTRODUÇÃO
A fé cristã é, essencialmente,
cristocêntrica. No coração da revelação bíblica não está um sistema religioso,
um código moral ou uma experiência espiritual isolada, mas uma Pessoa: Jesus
Cristo, o Filho eterno de Deus. A doutrina da Trindade afirma que há um só Deus
em essência, subsistindo eternamente em três Pessoas distintas e coiguais: Pai,
Filho e Espírito Santo. Essa verdade, longe de ser uma construção tardia da
teologia cristã, emerge progressivamente ao longo das Escrituras e encontra em
Cristo sua mais plena e definitiva revelação. O episódio da transfiguração (Mt 17.1–8) constitui um dos momentos
mais elevados dessa revelação. Nele, o véu da humanidade de Cristo é, por um
instante, afastado, permitindo que sua glória divina, normalmente ocultada na
encarnação, seja manifestada diante de testemunhas escolhidas.
Não se trata apenas de um evento
extraordinário, mas de uma revelação teológica profunda: o Filho encarnado é o
mesmo Filho eterno, consubstancial ao Pai, digno de honra, glória e obediência
absolutas. A transfiguração confirma que Jesus não é apenas o Messias esperado
por Israel, mas o próprio Deus que entrou na história para redimir o seu povo. Nesse
cenário, a voz do Pai, procedente da nuvem da glória, não apenas autentica a
identidade do Filho, mas estabelece sua supremacia definitiva: “Este é o meu
Filho amado, em quem me comprazo; escutai-o”.
A revelação culmina em uma ordem clara
e inegociável: Cristo deve ser ouvido acima de toda outra autoridade. A Lei e
os Profetas, representados por Moisés e Elias, apontam para Ele e se submetem a
Ele. Assim, a transfiguração se torna uma chave hermenêutica para toda a
Escritura, afirmando que Jesus é o centro da revelação divina, o intérprete
final da vontade de Deus e o único mediador entre o céu e a terra. Esta lição,
portanto, nos conduz a contemplar com reverência e fé a pessoa do Deus Filho,
sua divindade plena, sua centralidade absoluta e sua missão redentora
irrevogável. Ao estudarmos Cristo, não estamos lidando apenas com conceitos
doutrinários, mas com a revelação viva do próprio Deus. Conhecer o Filho é
conhecer o Pai; ouvir o Filho é submeter-se à voz de Deus; crer no Filho é
participar da vida eterna.
I. A
DIVINDADE DO FILHO
1. A
Concepção Virginal de Jesus. A concepção
virginal de Jesus não é um detalhe periférico da fé cristã, mas um pilar
essencial da cristologia bíblica. Lucas apresenta esse evento como uma
iniciativa soberana de Deus, que irrompe na história sem depender de ação
humana. A encarnação do Filho não nasce da vontade do homem, mas do propósito
eterno do Pai, revelando que a salvação é, desde o início, obra exclusiva da
graça divina. Quando o anjo Gabriel declara a Maria: “O Espírito Santo virá
sobre você, e o poder do Altíssimo a envolverá com a sua sombra” (Lc 1.35, NVI), ele descreve uma ação
profundamente teológica e trinitária. O verbo grego eperchomai “vir sobre”
indica uma intervenção direta e eficaz de Deus, não simbólica, mas real. O
nascimento de Jesus não é resultado de geração natural, mas de um ato criador
semelhante àquele que marcou o princípio do mundo. A expressão “envolverá com a
sua sombra” traduz o verbo grego episkiázō, que carrega forte peso
veterotestamentário. Esse termo é usado na Septuaginta para descrever a
manifestação visível da presença gloriosa de Deus, a Shekinah, que cobriu o
tabernáculo no deserto (Êx 40.35).
Lucas, portanto, associa o ventre de
Maria ao lugar santo onde Deus decide habitar. O mesmo Deus que enchia o
santuário agora se faz presente para gerar o Salvador. O texto também menciona
“o poder do Altíssimo”, expressão ligada ao substantivo grego dýnamis, que
aponta para a força ativa e eficaz de Deus. Não se trata apenas de autoridade,
mas de poder criador.
Aqui, o Espírito Santo age como agente
da nova criação, ecoando Gênesis 1.2,
onde o Espírito pairava sobre as águas. A encarnação inaugura uma nova etapa da
história redentora, em que Deus começa a restaurar a humanidade a partir do
interior da própria condição humana. É importante notar que a concepção
virginal preserva tanto a plena humanidade quanto a plena divindade de Cristo.
Jesus nasce de mulher, participa da nossa natureza, mas não herda a corrupção
do pecado adâmico. Como afirmam os comentaristas pentecostais, Ele é
verdadeiramente homem, mas sem pecado; verdadeiramente Deus, sem diminuição de
sua glória. Por isso, Lucas afirma que o menino será chamado “santo” e “Filho
de Deus” (Lc 1.35).
Do ponto de vista trinitário, este
texto é uma das declarações mais claras do Novo Testamento. O Pai é
identificado como o Altíssimo, o Espírito Santo atua diretamente na concepção,
e o Filho é gerado de forma santa e única. Não há hierarquia de valor, mas
distinção de pessoas e unidade de essência. A encarnação não fragmenta a
Trindade, mas a revela em ação redentora.
A concepção virginal nos confronta com
uma verdade essencial. Deus age além das possibilidades humanas. Maria não
oferece capacidade, apenas disponibilidade. Onde a razão humana encontra
limites, o poder de Deus inicia sua obra. Isso ensina à igreja que a fé cristã
não se sustenta na explicação natural dos fatos, mas na confiança no Deus que cria,
sustenta e salva.
Por fim, confessar a concepção
virginal é confessar que Jesus não é apenas um grande mestre ou profeta, mas o
Filho eterno que entrou na história sem deixar de ser quem sempre foi. Negar
esse milagre é comprometer toda a doutrina da salvação. Crer nele é reconhecer
que Deus visitou o seu povo, assumiu nossa carne e iniciou, desde o ventre, a
obra que culminaria na cruz e na ressurreição. Essa verdade nos chama à
reverência, à fé obediente e à adoração sincera. O Cristo que nasceu por obra
do Espírito é o mesmo que hoje forma Cristo em nós pelo mesmo Espírito. Aqui
não há apenas doutrina a ser aprendida, mas vida a ser transformada.
2. A
deidade absoluta do Filho. A fé cristã sempre confessou que Jesus
Cristo não é apenas semelhante a Deus, nem um intermediário elevado entre o
divino e o humano. Desde os primeiros testemunhos apostólicos, a igreja
reconheceu que Jesus é plenamente Deus. Essa convicção não surgiu de debates
filosóficos tardios, mas da leitura cuidadosa das Escrituras e da experiência
viva com o Cristo ressurreto. Os discípulos não adoraram Jesus por devoção
exagerada, mas porque reconheceram nele a própria presença de Deus agindo e
falando entre os homens. Quando Jesus afirma: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30, NVI), Ele não fala de
unidade moral ou de propósito apenas, mas de unidade de essência. O verbo está
no singular, e o termo “um” aponta para comunhão ontológica. Por isso, em João
14.9, Jesus declara que quem o vê, vê o Pai. Não se trata de confusão entre as
Pessoas da Trindade, mas de revelação perfeita. O Filho torna visível aquilo
que, no Pai, é invisível.
A igreja primitiva expressou essa
verdade com o termo grego homooúsios, que significa “da mesma substância” ou
“da mesma essência”. Essa palavra foi usada para afirmar que o Filho não é
criado, nem inferior, mas eterno como o Pai. Ele compartilha plenamente da
natureza divina. Assim, a divindade de Jesus não é derivada, concedida ou
adquirida, mas essencial e eterna. O Evangelho de João aprofunda essa realidade
ao declarar: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo
era Deus” (Jo 1.1, NVI). A expressão
“no princípio” remete à eternidade, antes da criação.
O termo Lógos não descreve apenas fala
ou mensagem, mas a autoexpressão racional e pessoal de Deus. O Filho sempre
existiu em comunhão com o Pai e, ao mesmo tempo, é identificado claramente como
Deus.
Essa existência eterna do Filho não
começa na encarnação. Belém não é o início de Cristo, mas o ponto em que Ele
assume a carne. O Novo Testamento afirma que o Filho foi enviado pelo Pai ao
mundo (1Jo 4.9), o que pressupõe sua
preexistência. Ele vem de fora da história para dentro dela, sem jamais deixar
de ser quem sempre foi. A encarnação não reduz sua divindade, mas a revela de
forma acessível. A fé cristã também reconhece que essa verdade já estava
anunciada no Antigo Testamento. O Filho eterno se manifesta de maneira
progressiva na história da revelação. O Anjo do Senhor, que fala como Deus e
recebe adoração, as teofanias em que Deus se torna visível, a Sabedoria
personificada em Provérbios 8 e as profecias messiânicas que atribuem títulos
divinos ao Messias apontam para a atuação pré-encarnada do Filho. Isaías o
chama de “Deus Forte” e “Pai da Eternidade” (Is 9.6), revelando que o Messias prometido não seria apenas
humano. Na plenitude dos tempos, esse Filho eterno “se fez carne” (Jo 1.14, NVI). Aqui, a Escritura
afirma uma das verdades mais profundas da fé cristã. Jesus possui duas
naturezas completas, a divina e a humana, unidas em uma só pessoa. Ele não
deixou de ser Deus ao assumir a humanidade, nem sua humanidade foi anulada por
sua divindade. Essa união é perfeita, sem confusão ou separação, conforme a fé
histórica da igreja.
Essa verdade não é apenas doutrinária,
mas profundamente pastoral. Porque Jesus é verdadeiro Deus, sua obra tem valor
eterno e suficiente. Porque Ele é verdadeiro homem, pode nos representar diante
do Pai. Somente assim Ele se torna o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5). Não há outro caminho, outra
ponte ou outro nome que possa cumprir essa função redentora. Crer na divindade
de Jesus é mais do que aceitar um dogma. É reconhecer sua autoridade sobre a
vida, sua palavra como definitiva e sua obra como suficiente. Quem diminui
Cristo, inevitavelmente enfraquece o evangelho. Quem o confessa como Deus
encarnado encontra segurança, esperança e vida. Essa verdade nos chama a uma fé
reverente e obediente. O Cristo eterno, que existia antes de todas as coisas, é
o mesmo que caminha conosco hoje. Conhecê-lo não é apenas compreender uma
doutrina elevada, mas render-se ao Senhor que é Deus conosco, ontem, hoje e
eternamente.
3. Os
atributos divinos de Jesus. A fé cristã não se sustenta apenas na
afirmação de que Jesus é chamado de Deus, mas na convicção bíblica de que Ele
possui, em sua própria essência, tudo aquilo que define quem Deus é. Quando a
Escritura revela os atributos de Cristo, ela não apresenta um ser exaltado ou
delegado, mas o próprio Deus que se deu a conhecer de forma pessoal, histórica
e redentora. A cristologia bíblica é, desde o início, uma confissão de
divindade plena.
A eternidade de Jesus afirma que Ele
não teve começo nem origem criada. Isaías o chama de “Pai da Eternidade” (Is 9.6, NVI), expressão que ultrapassa
qualquer leitura meramente funcional. O Filho não surge no tempo, mas entra no
tempo. O Novo Testamento confirma essa verdade ao apresentá-lo como aquele que
existe antes de todas as coisas e por meio de quem todas elas foram feitas.
A
eternidade de Cristo garante que a salvação não é um
improviso histórico, mas um propósito eterno de Deus. Essa eternidade se
expressa na imutabilidade do Filho. Hebreus declara que, enquanto a criação
envelhece, Ele permanece o mesmo (Hb
1.12). A ideia bíblica é que o ser e o caráter de Cristo não sofrem
variação. O verbo implícito aponta para constância absoluta. Jesus não se torna
melhor nem pior com o tempo. Sua fidelidade não depende das circunstâncias, e
sua graça não se desgasta com a fraqueza humana.
A
onipresença de Jesus confirma sua identidade divina de
modo pastoral e prático. Ao afirmar: “Onde se reunirem dois ou três em meu
nome, ali eu estou no meio deles” (Mt
18.20, NVI), Cristo reivindica uma presença que não pode ser limitada por
espaço físico. Não se trata apenas de memória simbólica ou influência
espiritual. Trata-se de presença real. Somente Deus pode estar plenamente com
todos, em todos os lugares, ao mesmo tempo.
A
onisciência de Cristo revela seu conhecimento absoluto e
pessoal. Em João 21.17, Pedro
confessa: “Senhor, tu sabes todas as coisas” (NVI). O termo grego oídas indica
conhecimento pleno, imediato e intuitivo. Jesus não aprende, não deduz, não
investiga. Ele conhece. Conhece os fatos, os corações e as intenções mais
profundas. Isso traz consolo ao crente sincero e confronto ao coração que tenta
se esconder.
A
onipotência de Jesus manifesta sua soberania suprema. Em Apocalipse 1.8, Ele se apresenta como o
Todo-Poderoso, expressão que afirma autoridade ilimitada e domínio absoluto.
Nada foge ao seu controle. A criação obedece à sua palavra, os poderes
espirituais se submetem à sua autoridade e a morte é vencida por sua ação
soberana. Seu poder não é concedido. É inerente à sua natureza divina.
Esses atributos não existem de forma
fragmentada, mas em perfeita harmonia. Jesus não é eterno sem ser presente, nem
poderoso sem ser sábio. Nele, os atributos divinos coexistem sem tensão ou
contradição. Isso demonstra que sua divindade não é funcional, representativa
ou simbólica, mas essencial. Ele é Deus em sua plenitude, revelado em carne
para a redenção da humanidade.
Negar qualquer um desses atributos é
comprometer o próprio coração do evangelho. Se Jesus não é eterno, não pode
conceder vida eterna. Se não é onisciente, não pode nos conhecer plenamente. Se
não é onipotente, não pode salvar de forma completa. A fé cristã depende de um
Cristo que seja plenamente Deus e plenamente digno de confiança. Por isso, o
evangelho de João afirma que essas verdades foram registradas “para que vocês
creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus” (Jo 20.31).
Crer corretamente em quem Jesus é não
é um detalhe secundário da doutrina, mas o fundamento da fé salvadora.
Reconhecer os atributos divinos de Cristo conduz à adoração reverente, à
obediência confiante e a uma vida cristã sustentada pela certeza de que o Jesus
que caminha conosco é o mesmo que sustenta todas as coisas.
A divindade de Jesus não começa após o
nascimento, nem se desenvolve ao longo de sua vida terrena. Ela é anterior à
encarnação e permanece intacta durante toda a gestação no ventre de Maria. O
Novo Testamento é claro ao afirmar que aquele que foi concebido no seio da
virgem é o próprio Filho eterno de Deus que assume a natureza humana sem deixar
de ser quem sempre foi. Desde o ventre, não temos um homem que mais tarde se
torna divino, mas o Deus eterno que se faz verdadeiramente homem.
Lucas afirma que o ente concebido em
Maria seria chamado “Filho de Deus” porque sua concepção foi obra direta do
Espírito Santo (Lc 1.35, NVI). O
verbo grego klēthēsetai indica identidade, não mera designação honorífica. O
texto não diz que Ele se tornaria Filho de Deus depois, mas que já o é no
momento da concepção. O que ocorre no ventre de Maria não é o início da
existência do Filho, mas o início de sua existência humana. Aquele que é eterno
entra no tempo sem perder sua eternidade. É nesse ponto que a antiga doutrina
do Theotókos se torna essencial para uma cristologia bíblica equilibrada. O
termo grego Theotókos significa literalmente “aquela que gera Deus” ou
“portadora de Deus”. Essa expressão foi afirmada no Concílio de Éfeso, em 431
d.C., não para exaltar Maria, mas para proteger a verdade sobre quem Jesus é. A
igreja primitiva entendeu corretamente que negar esse título era comprometer a
unidade da pessoa de Cristo.
Chamar Maria de Theotókos não
significa dizer que ela é a origem da divindade do Filho, nem atribuir-lhe
qualquer papel redentor. Significa afirmar que o ser que ela concebeu, gestou e
deu à luz é uma única pessoa, o Filho eterno de Deus encarnado. Maria não gerou
uma natureza divina isolada, nem apenas um corpo humano separado. Ela deu à luz
uma pessoa.
E essa pessoa é Deus Filho. Aqui se
encontra um erro recorrente em muitos ambientes evangélicos: Ao tentar evitar
excessos mariológicos, alguns acabam cometendo um erro cristológico grave – de
fato, uma heresia. Afirma-se que Maria é mãe apenas da “parte humana” de Jesus,
como se fosse possível separar maternidade pessoal de natureza. Essa linguagem,
ainda que bem-intencionada, fragmenta Cristo. Não existem duas pessoas em
Jesus. Existe uma única pessoa com duas naturezas inseparáveis.
A fé cristã histórica sempre afirmou a
união hipostática. Duas naturezas distintas, divina e humana, unidas em uma
única pessoa, sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação. Quando se
diz que Maria é mãe apenas da humanidade de Jesus, cria-se, ainda que de forma
implícita, uma divisão pessoal em Cristo. Isso se aproxima perigosamente do
nestorianismo, rejeitado pela igreja antiga justamente por dividir o Cristo em
dois sujeitos. Desde o ventre de Maria, portanto, o Filho eterno assume
plenamente a natureza humana. O corpo formado pelo Espírito Santo pertence ao
próprio Filho de Deus. O sangue que corre em suas veias é humano, mas pertence
à pessoa divina do Verbo. Por isso, Atos pode falar do “sangue de Deus” (At 20.28), não porque a divindade
tenha sangue, mas porque o sujeito que derramou seu sangue é Deus Filho encarnado.
Essa compreensão preserva tanto a
glória de Cristo quanto a integridade do evangelho. Se aquele que morreu na
cruz não é verdadeiramente Deus, o sacrifício perde seu valor infinito. Se
aquele que nasceu de Maria não é o próprio Filho eterno, a encarnação se torna
um mero revestimento temporário.
A salvação exige que o mesmo que é
Deus seja também plenamente homem, desde a concepção até a glorificação. Reconhecer
Maria como Theotókos não nos aproxima de um culto mariano, mas de uma
cristologia bíblica saudável. Isso nos leva a adorar um Cristo indiviso,
inteiro, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Desde o ventre até a cruz, da
ressurreição à exaltação, é o mesmo Senhor. E é esse Cristo completo, não
fragmentado, que salva plenamente aqueles que nele creem.
II. A
CENTRALIDADE DO DEUS FILHO
1. A glória
sobrenatural de Jesus. A transfiguração não é um episódio
periférico na vida de Jesus, mas uma revelação decisiva de quem Ele é. Ao subir
ao monte com Pedro, Tiago e João (Mt
17.1, NVI), Cristo conduz as testemunhas-chave a um momento pedagógico e
revelatório. Ali, o que estava velado pela humildade da encarnação se manifesta
por instantes. O monte torna-se um espaço teológico onde a identidade do Filho
é confirmada, não por palavras humanas, mas pela glória divina que irrompe
diante dos discípulos. Mateus afirma que Jesus “transfigurou-se diante deles” (Mt 17.2, NVI).
O verbo grego metamorphóō descreve uma
mudança de forma que revela a realidade interior. Não se trata de uma
transformação da natureza de Cristo, como se Ele se tornasse algo que não era,
mas da revelação visível daquilo que sempre foi. A glória não lhe é
acrescentada. Ela é desvelada. O rosto que resplandece como o sol e as vestes
que se tornam brancas como a luz apontam para a glória intrínseca do Filho
eterno. Esse momento antecipa a realidade escatológica do Cristo glorificado.
A transfiguração funciona como um
prólogo da ressurreição e da exaltação do Filho, oferecendo aos discípulos um
vislumbre do Jesus que João mais tarde contemplaria em Apocalipse 1. A glória
futura invade o presente, confirmando que o caminho da cruz não anula a glória,
mas conduz a ela. O sofrimento que virá não contradiz a divindade do Filho. Ele
a pressupõe. Ao mesmo tempo, a transfiguração preserva a unidade da pessoa de
Cristo. Aquele que resplandece em glória é o mesmo que subiu o monte com pés
humanos, cansados da caminhada.
João
1.14 afirma que o Verbo se fez carne sem deixar de
ser Deus. No monte, essa verdade se torna visível. As duas naturezas não se
alternam nem se confundem. Elas coexistem perfeitamente em uma única pessoa. O
Filho não deixa de ser humano para manifestar sua glória, nem deixa de ser Deus
ao assumir a carne. Por fim, a transfiguração reafirma a centralidade do Deus
Filho na revelação e na fé cristã. Filipenses
2.6–9 mostra que aquele que se humilhou é o mesmo que foi exaltado
sobremaneira. A glória revelada no monte chama a igreja à reverência, à escuta
obediente e à adoração centrada em Cristo. Contemplar a glória do Filho
transforma nossa compreensão do discipulado. Seguimos não apenas um mestre
terreno, mas o Senhor glorioso que, mesmo velado por amor, nunca deixou de ser
Deus.
2. O
testemunho da Lei e dos Profetas. A
aparição de Moisés e Elias no monte da transfiguração não é um detalhe
narrativo, mas um poderoso sinal teológico. Mateus registra que ambos “lhes
apareceram, falando com Jesus” (Mt 17.3,
NVI). O texto deixa claro que não se trata de uma evocação dos mortos ou de
qualquer prática proibida pelas Escrituras. O próprio Jesus ensina que Deus
“não é Deus de mortos, mas de vivos” (Mc
12.27), e o abismo intransponível entre os vivos e os mortos exclui
qualquer possibilidade de comunicação autônoma (Lc 16.26).
Estamos diante de uma iniciativa
soberana de Deus, carregada de significado redentivo e escatológico. Moisés
surge como representante da Lei. Ele é o mediador da Antiga Aliança, aquele por
meio de quem Deus entregou sua vontade escrita ao povo (Êx 24.7–8). Sua presença no monte não aponta para a continuidade
do regime mosaico, mas para o seu cumprimento. O próprio Jesus afirmou que não
veio revogar a Lei, mas cumpri-la plenamente (Mt 5.17).
Assim, Moisés não rivaliza com Cristo.
Ele o confirma. A Lei encontra seu sentido último não em tábuas de pedra, mas
na pessoa viva do Filho. Elias, por sua vez, representa os Profetas. Sua figura
está associada à fidelidade profética, ao zelo pela glória de Deus e à
esperança messiânica. Malaquias anuncia Elias como precursor do “grande e
terrível dia do Senhor” (Ml 4.5–6),
expectativa que o Novo Testamento reconhece como cumprida tipologicamente em
João Batista. A presença de Elias no monte reafirma que toda a tradição
profética apontava para o Messias. As promessas, advertências e anúncios
convergem em Jesus. O ponto central do episódio não é Moisés nem Elias, mas o
Cristo com quem ambos conversam. Lucas esclarece que eles falavam sobre a
“partida” de Jesus, termo que remete ao êxodo que Ele cumpriria em Jerusalém (Lc 9.31).
A cruz não é um acidente histórico,
mas o centro do plano redentor anunciado pela Lei e pelos Profetas. O
testemunho conjunto dessas duas figuras declara que toda a Escritura encontra
sua unidade, coerência e consumação no Filho. Por fim, a cena proclama a superioridade
de Jesus. Hebreus afirma que Deus falou outrora pelos profetas, mas agora falou
definitivamente pelo Filho (Hb 1.1–2).
Quando Moisés e Elias desaparecem, resta apenas Jesus. Isso ensina à igreja que
nenhuma revelação anterior pode ocupar o lugar central que pertence somente a
Cristo. Ouvir a Lei e os Profetas corretamente é reconhecer que eles nos
conduzem ao Filho. A aplicação pastoral é clara. A fé cristã não se sustenta em
tradições isoladas, mas em uma leitura das Escrituras que culmina na pessoa e
na obra de Jesus.
3. A
aprovação divina do Pai. A transfiguração alcança seu ponto
mais elevado quando o próprio Pai intervém na cena. Mateus registra que “uma
nuvem luminosa os envolveu, e dela saiu uma voz” (Mt 17.5a, NVI). A nuvem não é um elemento decorativo, mas um
símbolo veterotestamentário da presença santa de Deus. No Êxodo, ela guiava o
povo e manifestava a glória divina no deserto (Êx 13.21; 40.34). Agora, essa mesma glória envolve o Filho,
indicando que a revelação definitiva de Deus não está mais associada a um lugar
ou a um sistema, mas a uma Pessoa. A voz que ecoa da nuvem retoma as palavras
pronunciadas no batismo de Jesus: “Este é o meu Filho amado, em quem me
comprazo” (Mt 3.17; 17.5b, NVI).
A repetição não é acidental. No batismo,
o Pai aprova o início do ministério público do Filho. Na transfiguração, Ele
confirma sua identidade antes do caminho da cruz. O Pai não declara apenas
afeição, mas identidade. Jesus não é Filho apenas por função ou missão, mas por
natureza eterna. Trata-se de filiação ontológica, não adotiva. A expressão “em
quem me comprazo” traduz o verbo grego eudokéō, que comunica deleite profundo,
aprovação plena e satisfação perfeita.
O Pai se deleita no Filho porque o
Filho reflete perfeitamente seu caráter, sua vontade e sua glória. Aqui, Mateus
dialoga com Isaías 42.1, onde o
Servo do Senhor é apresentado como aquele em quem Deus se agrada. A
transfiguração une o Filho glorioso ao Servo sofredor, mostrando que a
obediência de Jesus até a cruz não diminui sua glória, mas expressa o prazer do
Pai. Em seguida, a ordem divina sela a centralidade absoluta do Filho:
“Escutem-no” (Mt 17.5c, NVI).
Essa palavra desloca qualquer
tentativa de colocar Moisés ou Elias no mesmo nível de Cristo. A revelação
agora é cristocêntrica. Ouvir o Filho é ouvir o próprio Deus. João afirmará
mais tarde que quem vê o Filho vê o Pai (Jo
14.9), e que rejeitar a palavra de Jesus é rejeitar o próprio Deus que o
enviou. A voz do Pai, portanto, não apenas exalta o Filho, mas estabelece sua autoridade
final sobre toda a fé e prática.
Pastoralmente, essa cena confronta a
igreja com uma pergunta essencial: a quem estamos realmente ouvindo? A
aprovação do Pai nos chama a uma obediência reverente e confiante. Seguir Jesus
não é aderir a uma tradição religiosa, mas submeter-se à voz do Filho amado, em
quem Deus se revela plenamente. Quando a igreja escuta o Filho, ela caminha sob
a aprovação do Pai e na luz da glória que transforma.
III. A
MISSÃO REDENTORA DO DEUS FILHO
1. O Filho
como revelação suprema. A transfiguração não apenas revela a
glória do Filho, mas define de forma inequívoca a autoridade final da revelação
divina. No auge da cena, o Pai ordena: “Escutem-no” (Mt 17.5c, NVI). Essa palavra não é um simples convite à atenção,
mas um imperativo teológico. O verbo grego akoúō envolve mais do que ouvir
sons; implica escuta obediente, acolhimento interior e submissão prática. Deus
não apenas apresenta o Filho. Ele exige que sua voz seja recebida como
definitiva.
Essa ordem ecoa diretamente a promessa
feita por Moisés em Deuteronômio 18.15.
Ali, o Senhor anuncia que levantaria um profeta semelhante a Moisés, a quem o
povo deveria ouvir. O Novo Testamento identifica de modo explícito esse Profeta
como o próprio Jesus. João registra que o povo reconheceu em Jesus o profeta
prometido (Jo 6.14), e Pedro afirma,
em Atos, que rejeitar esse Profeta é colocar-se sob juízo (At 3.20–23). A transfiguração, portanto, confirma que Jesus não é
apenas mais um porta-voz de Deus, mas o porta-voz final.
Ao dizer “escutem-no”, o Pai
estabelece uma hierarquia revelacional clara. Moisés e Elias, representantes da
Lei e dos Profetas, cedem lugar ao Filho. Lucas observa que, após a voz, os
discípulos não viram mais ninguém, senão Jesus (Mt 17.8). Isso não desvaloriza as Escrituras antigas, mas revela
seu propósito. A Lei e os Profetas conduzem a Cristo e encontram nele seu
cumprimento. João declara que a Lei foi dada por meio de Moisés, mas a graça e
a verdade vieram por meio de Jesus Cristo (Jo
1.17). A revelação agora é pessoal, encarnada e definitiva.
Esse momento sinaliza a transição da
Antiga para a Nova Aliança. As sombras dão lugar à realidade. Paulo afirma que
as prescrições antigas eram apenas sombra do que havia de vir, e que a
realidade encontra-se em Cristo (Cl
2.17). O autor de Hebreus reforça que a antiga ordem era apenas figura e
antecipação, incapaz de aperfeiçoar plenamente o adorador (Hb 10.1). Ouvir o Filho é reconhecer que a revelação alcançou sua
plenitude e que não há necessidade de acréscimos ou substituições. Ignorar a
voz de Cristo, relativizar seus ensinos ou colocá-lo ao lado de outras
autoridades espirituais é rejeitar o próprio Deus. João é categórico ao afirmar
que quem tem o Filho tem a vida, e quem não tem o Filho não tem a vida (1Jo 5.12). A igreja é chamada a uma
escuta obediente, reverente e constante.
Ouvir o Filho não é apenas um ato
doutrinário, mas uma postura diária de fé, submissão e transformação. É nessa
escuta que a vida cristã encontra direção, sentido e verdade.
2. A
exclusividade de Cristo na redenção. O
relato da transfiguração caminha para uma conclusão teologicamente decisiva
quando Mateus afirma: “erguendo eles os olhos, não viram ninguém, a não ser
Jesus” (Mt 17.8, NVI). Essa frase
simples carrega um peso doutrinário profundo. Moisés e Elias desaparecem da cena,
não porque sejam irrelevantes, mas porque cumpriram sua função. A revelação
converge, se estreita e repousa exclusivamente na pessoa do Filho. Onde Cristo
está plenamente revelado, nada pode ocupar o mesmo lugar.
Esse detalhe narrativo ensina que a
economia da redenção é cristocêntrica. A Lei e os Profetas tiveram um papel
pedagógico, preparatório e provisório. Jesus mesmo afirmou que veio para
cumprir, e não para abolir, a Lei (Mt
5.17). Cumprir, aqui, significa levar à plenitude, revelar o sentido último
e encarnar aquilo que antes estava expresso em palavras, símbolos e promessas.
Quando Cristo permanece sozinho no monte, o texto proclama que o cumprimento
substitui a sombra, e a realidade supera a antecipação.
Lucas afirma que toda a Escritura aponta
para Cristo (Lc 24.27). Isso
significa que Ele não é apenas parte da mensagem bíblica, mas o seu centro
interpretativo. Ler a Bíblia corretamente é enxergar Cristo como fio condutor
da história da salvação. A transfiguração visualiza essa verdade. A revelação
não termina em Moisés nem se completa em Elias. Ela se consuma no Filho. Esse
princípio protege a igreja de leituras fragmentadas e de espiritualidades que
exaltam personagens, leis ou experiências acima de Cristo. A exclusividade de
Jesus na redenção repousa, antes de tudo, em sua identidade. Ele não é apenas
um profeta inspirado, mas o próprio Deus revelado. João registra as palavras de
Jesus: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14.9).
O autor de Hebreus afirma que o Filho é “o resplendor da glória de Deus e a
expressão exata do seu ser” (Hb 1.3).
Aqui, o termo grego charaktḗr comunica a ideia de impressão perfeita, marca
fiel. Cristo não reflete Deus parcialmente. Ele o revela plenamente.
Por essa razão, a mediação de Cristo é
absolutamente única. As Escrituras afirmam que “não há salvação em nenhum
outro” (At 4.12) e que “há um só
mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem” (1Tm 2.5). A encarnação não diminui essa mediação. Pelo contrário,
a fundamenta. Somente alguém que é plenamente Deus e plenamente homem pode
reconciliar ambas as partes.
Qualquer tentativa de multiplicar
mediadores ou relativizar essa exclusividade compromete o coração do evangelho.
A suficiência da obra de Cristo decorre dessa exclusividade. Paulo declara que,
por meio do sangue da cruz, Deus reconciliou consigo todas as coisas (Cl 1.20–22). Nada precisa ser
acrescentado. Nenhum outro sacrifício é necessário. Nenhuma obra humana pode
completar o que já foi consumado. A transfiguração antecipa essa verdade ao
mostrar que, diante da glória do Filho, todas as figuras da Antiga Aliança
cedem lugar. O altar, o profeta e o legislador apontam para o Cordeiro.
Pastoralmente, essa cena confronta a
igreja com uma decisão contínua. A quem estamos olhando quando levantamos os
olhos? A espiritualidade madura é aquela que aprende a ver somente Jesus como
fundamento da fé, esperança e salvação. Onde Cristo é central, a fé encontra
descanso. Onde Ele é relativizado, a fé se fragmenta. A transfiguração nos
ensina que, no fim, somente Jesus permanece. E isso não empobrece a fé. Isso a
salva.
3. O
aprendizado pela experiência. A
transfiguração não foi apenas uma revelação de glória. Foi, também, um ato
pedagógico cuidadosamente dirigido aos discípulos. No monte, eles não receberam
uma nova doutrina, mas uma experiência que moldaria sua fé para enfrentar o
escândalo da cruz. Antes de verem o Cristo humilhado, precisavam contemplar o
Cristo glorificado. A pedagogia divina prepara o coração antes da prova,
fortalecendo a fé antes do sofrimento. Esse encontro com a glória teve um
propósito pastoral claro.
A Palavra ensina que Jesus foi
transfigurado, do grego metamorphóō, termo que indica uma manifestação exterior
de uma realidade interior já existente. A glória não começou ali. Ela apenas
foi revelada. Os discípulos aprenderam que a cruz não seria derrota, mas
caminho. A experiência ensinou que o sofrimento de Cristo não anularia sua
majestade, mas a revelaria plenamente. Anos depois, Pedro retorna a esse
episódio com maturidade espiritual. Ele não o trata como uma lembrança
emocional, mas como evidência histórica e teológica. “Nós mesmos vimos a sua
majestade” (2Pe 1.16, NVI). O
apóstolo afirma que a fé cristã não se baseia em mitos engenhosamente inventados,
mas em testemunho ocular da glória do Filho. A voz do Pai, ouvida no monte,
confirmou publicamente a identidade divina de Jesus e selou sua autoridade
messiânica.
A transfiguração, portanto, antecipa
realidades maiores. Ela é um vislumbre do Reino, um anúncio silencioso da
ressurreição e uma prévia da exaltação final do Filho.
O Cristo que resplandece no monte é o
mesmo que reina eternamente no trono. Hebreus afirma que seu cetro é de justiça
e que seu reino é eterno e inabalável (Hb
1.8-12). O que os discípulos viram por instantes, a igreja confessa para
sempre. Paulo amplia essa visão ao declarar que Deus exaltou soberanamente o
Filho e lhe deu o Nome que está acima de todo nome (Fp 2.9-11). A transfiguração aponta para esse triunfo
escatológico. Ela revela que nenhum domínio, nem mesmo a morte, pode resistir à
autoridade do Cristo glorificado. O monte antecipa o trono. A glória revelada
ali garante a vitória final.
Esse texto nos ensina que a fé cristã
amadurece quando aprendemos a interpretar a dor à luz da glória futura. Assim
como os discípulos, somos chamados a guardar no coração aquilo que Deus nos
revela nos montes, para permanecermos firmes nos vales. A experiência com
Cristo sustenta a esperança quando a caminhada se torna pesada. Diante dessa
glória, o chamado permanece atual. Fixar os olhos em Jesus, o Autor e
Consumador da fé (Hb 12.2).
Contemplá-lo não apenas com admiração, mas com confiança obediente. A
transfiguração nos convida a viver com esperança escatológica, adoração
reverente e perseverança fiel, certos de que aquele que foi revelado em glória
reina hoje e triunfará plenamente no fim.
CONCLUSÃO
A doutrina do Deus Filho nos conduz
inevitavelmente ao centro da fé cristã. Cristo não é um tema entre outros, nem
um capítulo isolado da teologia. Ele é o eixo em torno do qual toda a revelação
bíblica se organiza. Conhecer o Filho é conhecer o Pai, pois é nele que o
coração de Deus se torna visível e acessível ao ser humano (Jo 14.9). A cristologia não é um exercício abstrato, mas o
fundamento vivo da fé da Igreja. A Escritura apresenta Jesus como o Verbo
eterno que “se fez carne” (Jo 1.14).
O termo grego lógos não indica apenas palavra falada, mas a autoexpressão plena
de Deus. Em Cristo, Deus não apenas fala, mas se entrega, se aproxima e habita
entre nós. Sua encarnação não diminui sua divindade. Antes, revela sua glória
de forma redentora, acessível e salvadora. O eterno entrou na história sem
deixar de ser eterno. A divindade do Filho é inseparável de sua missão. Ele não
veio apenas ensinar verdades morais ou revelar princípios espirituais. Veio
reconciliar o homem com Deus. Somente aquele que é plenamente Deus pode revelar
Deus. Somente aquele que é plenamente homem pode representar a humanidade. Por
isso, a obra da redenção repousa na união hipostática das duas naturezas em uma
só pessoa. Cristo é o único mediador eficaz entre Deus e os homens (1Tm 2.5).
Nele contemplamos também a glória do
Pai em ação pelo Espírito. A obra do Filho nunca é isolada da Trindade. O Pai
envia. O Filho obedece e se oferece. O Espírito aplica essa obra aos corações.
Assim, a centralidade de Cristo não exclui o Pai nem o Espírito, mas revela a
perfeita harmonia do agir trinitário na salvação. Onde Cristo é exaltado, o Pai
é glorificado e o Espírito age com poder. Diante dessa revelação, a resposta
humana não pode ser neutra. Reconhecer Jesus como Deus Filho implica reconhecê-lo
como Senhor absoluto.
A fé cristã não se reduz à admiração
intelectual, mas exige rendição. Prostrar-se diante dele é um ato teológico.
Adorá-lo é confessar sua divindade. Ouvi-lo é submeter-se à sua autoridade.
Segui-lo é aceitar que ele governe toda a vida. Essa obediência não nasce do
medo, mas da gratidão. Quem contempla a glória do Filho encarnado entende que
foi amado antes de merecer, buscado antes de responder e reconciliado quando
ainda era inimigo (Rm 5.8-10). A
doutrina correta gera devoção correta. Cristologia sadia produz vida cristã
transformada.
Portanto, afirmar a centralidade de
Cristo é mais do que uma confissão doutrinária. É um chamado diário à
reverência, à obediência e à gratidão. Seguir o Filho é caminhar na luz da
revelação plena de Deus, com fé firme, esperança viva e adoração sincera, até o
dia em que o veremos não mais pela fé, mas face a face. Concluímos assim, esta
preciosa lição, com três aplicações práticas para vida do nosso aluno:
1.
Colocar Cristo no centro real da vida cristã: A
transfiguração nos ensina que, quando a revelação plena acontece, “ninguém
viram, senão a Jesus”. Isso nos confronta a avaliar o que ocupa o centro de
nossa fé hoje. Programas, tradições, líderes e experiências não podem
substituir a centralidade do Filho. Na prática, isso significa submeter
decisões, prioridades, valores e planos à autoridade de Cristo revelada nas
Escrituras. Uma fé madura não gira em torno do que sentimos, mas de quem Cristo
é. Viver cristocentricamente é ouvir o Filho antes de ouvir qualquer outra voz.
2.
Aprender a interpretar o sofrimento à luz da glória de Cristo: A
experiência da transfiguração não foi dada para evitar a cruz, mas para
preparar os discípulos para ela. O mesmo vale para nós. A vida cristã não é
isenta de dor, perdas ou crises. Contudo, quem contempla a glória do Cristo
exaltado aprende a enxergar o sofrimento como parte do caminho da redenção.
Na prática, isso nos leva a perseverar
na fé, mesmo quando não entendemos os processos de Deus, confiando que a glória
futura supera qualquer aflição presente. A esperança cristã é moldada pela
ressurreição, não pelas circunstâncias.
3.
Responder à revelação com adoração, obediência e testemunho: A
voz do Pai não apenas revela quem Jesus é, mas ordena: “Escutai-o”. A aplicação
direta é clara. Não basta conhecer doutrina correta sobre Cristo. É necessário
obedecer à sua palavra. Isso se expressa em uma vida de adoração sincera,
submissão diária e compromisso com o testemunho cristão. Ouvir o Filho implica
viver de modo coerente com o Evangelho, refletindo sua glória no caráter, nas
relações e no serviço cristão. A verdadeira cristologia sempre desemboca em uma
vida transformada.
Essas aplicações conduzem a Igreja não
apenas a entender quem Cristo é, mas a viver sob o senhorio daquele que é o
Filho amado, exaltado e glorificado.
OTIMA AULA
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