sábado, 8 de janeiro de 2011

O Dia de Pentecostes

O Dia de Pentecostes

CAPÍTULO 2

Muitos séculos se interpuseram entre a promessa do Messias (até as mais recentes) e sua vinda, mas entre a promessa do Espírito e sua vinda transcorreram apenas alguns dias. Durante esse período, os apóstolos, mesmo tendo recebido ordens para pregar o evangelho a toda criatura e começando por Jerusalém, ficaram totalmente parados por falta de vento, incóguitos e escondidos, sem fazer pregações. Mas, neste capítulo, o vento norte e o vento sul despertando-os, coloca-os no púlpito. Temos aqui: 1. A vinda do Espírito sobre os apóstolos e sobre quem estava com eles no dia de Pentecostes (vv. 1-4). II. As especulações que o fato ocasionou entre as pessoas do mundo todo que, na ocasião, estavam em Jerusalém (vv. 5-13). III. O sermão que Pedro pregou a essas pessoas depois dessas ocorrências.

Na prédica, ele mostra que o derramamento do Espírito era o cumprimento de uma promessa do Antigo Testamento (vv. 14-21), era outra confirmação de que Jesus era o Messias, fato já comprovado por sua ressurreição (vv. 22-32), e era o produto e evidência da sua ascensão ao céu (vv. 33-36). IV O bom efeito deste sermão, que ocasionou a conversão de muitos à fé de nosso Senhor Jesus Cristo e seu acréscimo ao registro de membros da igreja (vv. 37-41). V A devoção eminente e atos de caridade desses primeiros cristãos, e os símbolos manifestados da presença de Deus com eles e do poder neles (vv. 42-47).

O Dia de Pentecostes = vv. 1-4

Temos aqui a narrativa da vinda do Espírito Santo sobre os discípulos de Jesus. Observe: Quando e onde ocorreu a vinda do Espírito Santo, pois são detalhes particularmente notáveis para a maior certeza das coisas.

1. A vinda do Espírito Santo sobre os discípulos de Jesus ocorreu quando o dia de Pentecostes se cumpriu. Esta é referência à maneira de falar sobre a instituição desta festa: Sete semanas inteiras serão (Lv 23.15), contando-se do dia da oferta das primícias, que era o dia logo após a Páscoa, o décimo sexto dia do mês de abibe, o dia em que Jesus ressuscitou.

Cumprindo-se esse dia, ou seja, havia passado completamente a noite precedente e uma parte do dia. (1) O Espírito Santo desceu na hora de uma festa solene, porque havia uma grande multidão em Jerusalém proveniente de todas as regiões da nação e prosélitos de outros países. Essas pessoas tornariam a festa mais pública e espalhariam sua fama mais cedo e mais rápido, contribuindo muito para a propagação do evangelho em todas as nações. Como se deu na Páscoa e se dá hoje, as festas judaicas serviram para divulgar os cultos e as festividades do evangelho. (2) Esta festa de Pentecostes era feita em memória do recebimento da lei no monte Sinai, de onde datamos a incorporação da igreja judaica.
O Dr. Lightfoot entende que foram mil e quatrocentos e quarenta e sete anos antes deste Pentecostes. Era pertinente, pois, que o Espírito Santo fosse dado nessa festa, em fogo e em línguas, para a promulgação da lei evangélica, não para uma nação, mas para toda criatura. (3) Esta festa de Pentecostes ocorreu no primeiro dia da semana (Jo 20.1,19), mais uma referência ao valor desse dia. E outra confirmação de ser ele o sábado cristão (este é o dia que fez o Senhor, Sl 118.24). O domingo é um memorial permanente na igreja destas duas grandes bênçãos: a ressurreição de Jesus e o derramamento do Espírito, ambas ocorridas nesse dia da semana.

Isso serve para justificar nossa observância desse dia sob o nome oficial e título honorifico de odiado Senhor (Ap 1.10), fazendo-nos ainda vivenciar a santificação desse dia em louvores a Deus particularmente por duas grandes bênçãos. Na minha opinião, a cada dia do Senhor, durante o ano, devemos mencionar de modo pleno e específico, em nossas orações e louvores, estas duas bênçãos. E o que fazem algumas comunidades ao mencionarem a ressurreição de Jesus no dia da Páscoa e o derramamento do Espírito em pequena dose aos domingos. Quando o fizermos, que o seja com sentimento apropriado!

2. A vinda do Espírito Santo sobre os discípulos de Jesus ocorreu quando estavam todos reunidos no mesmo lugar. O texto não diz em particular que lugar era esse. Talvez tenha sido no templo, para onde se dirigiam em ocasiões públicas (Lc 24.53), ou no próprio cenáculo onde se reuniam em outros tempos.

Seja como for, aconteceria em Jerusalém, porque esta fora a cidade onde o Senhor escolhera colocar seu nome. A profecia anunciava que dessa cidade sairia a palavra do Senhor para todas as nações (Is 2.3). Agora, eis o lugar do encontro geral de todas as pessoas devotas; ali Deus prometera encontrá-las e abençoá-las; ali Ele as encontra com a bênção das bênçãos. Jerusalém desonrou por demais a pessoa de Cristo. Mesmo assim, Ele lhe prestou essa declaração como ensino para o seu remanescente de todos os lugares e tempos; Ele o fez em Jerusalém.

Nessa cidade, os discípulos se reuniram num único recinto, num espaço pequeno que não conteria todos. E ali estavam todos reunidos de comum acordo. Não nos esqueçamos quantas vezes, enquanto o Mestre estava com os discípulos, houve [...] entre eles contenda sobre qual deles parecia ser o maior (Lc 22.24). Mas agora todas estas disputas e querelas acabaram, pois ninguém mais procedia assim. A porção que já tinham recebido do Espírito Santo, quando Jesus o assoprou sobre eles, corrigira em boa medida os erros nos quais essas contendas se fundamentavam e os dispusera ao amor santo.

Ultimamente, eles oravam mais juntos que o habitual (v. 14), e isso os fez amar uns aos outros ainda mais. Por sua graça, Ele assim os preparou para o dom do Espírito Santo, pois a pomba santa não vem onde há barulho e tumulto, mas se move sobre a face de águas tranqüilas e não turbulentas. Queremos que do alto o Espírito seja derramado em nós (Lc 24.49)?
Então, estejamos todos reunidos no mesmo lugar de comum acordo, e, a despeito da diversidade de sentimentos e interesses, como sem dúvida havia entre esses discípulos, concordemos em amar uns aos outros. Onde os irmãos vivem em união, [...] ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre (Sl 133.1,3).

Como o Espírito Santo veio sobre os discípulos de Jesus. Lemos muitas vezes no Antigo Testamento que Deus desceu em uma nuvem, como quando Ele tomou posse do tabernáculo e, tempos depois, do templo, evidenciando a escuridão daquela dispensação. E Jesus subiu ao céu em uma nuvem para nos dar a entender que somos mantidos na escuridão em relação ao mundo superior. Mas o Espírito Santo não desceu em uma nuvem. Ele viria para dispersar e espalhar as nuvens que cobrem a mente humana e para trazer luz ao mundo.

1. Esta é uma convocação audível dada aos discípulos para despertar suas expectativas de algo grande (v. 2). O texto sacro diz: (1) Que o Espírito Santo veio de repente, não se foi formando gradualmente, como fazem os ventos comuns, mas atingiu sua força subitamente. Veio mais cedo do que esperavam, assustando até os que estavam juntos esperando e provavelmente ocupados em exercícios religiosos. (2) Que veio do céu um som, como uma trovoada (Ap 6.1).

As Escrituras registram que Deus tira os ventos dos seus tesouros (Sl 135.7) e os encerra nos seus punhos (Pv 30.4). Este som veio dele, como a voz de alguém clamando: Preparai o caminho do Senhor (Mt 3.3). (3) Que era o som, como de um vento, pois o modo de o Espírito proceder é igual ao do vento: ouves a sua voz, mas não sabes donde vem (Jo 3.8). Quando o Espírito de vida estava para entrar nos ossos secos, o profeta recebe a ordem de profetizar ao espírito: Assim diz o Senhor Jeová: Vem dos quatro ventos, ó espírito (Ez 37.9). E embora o Senhor não viesse a Elias no vento; contudo, isso o preparou para receber a descoberta de si mesmo na voz mansa e delicada (1 Rs 19.11,12).

O Senhor tem o seu caminho na tormenta e na tempestade (Na 1.3), e Ele falou com Jó de um redemoinho (Jó 38.1). (4) Que era um vento veemente e impetuoso. Era forte e violento, e veio com grande estrondo e com muita força, como se fosse derrubar tudo que estivesse pela frente. O propósito disso era demonstrar a poderosa te- fluência e operação do Espírito de Deus na mente dos homens, e através deles, no mundo, para que eles fossem poderosos em Deus para a destruição de fortalezas (2 Co 10.4). (5) Que encheu toda a casa em que estavam assentados.

Provavelmente isso alarmou a cidade inteira, mas para mostrar que era sobrenatural, concentrou-se meramente naquela casa. E semelhante ao que pensam certos estudiosos ao afirmarem que o vento enviado para deter Jonas afetou somente o navio onde ele se encontrava (Jn 1.4) e também que a estrela dos magos posicionou-se somente por cima da casa onde o menino se achava. Isso dirigiria as pessoas que observavam o fenômeno a ir ao local investigar o significado do que acontecia.
O vento que encheu a casa deixou os discípulos apavorados, ajudando-os a ficar em posição multo séria, reverente e tranqüila para o recebimento do Espírito Santo. Assim as convicções do Espírito abrem caminho para os seus consolos; e as rajadas violentas desse vento santo preparam a alma para as suas brisas suaves e sussurrantes.

2. Este é um sinal visível do dom que os discípulos receberam. Eles viram línguas repartidas, como que de fogo (v. 3), as quais pousaram — ekhatise. Não foram as línguas repartidas que pousaram, mas Ele, o Espírito (assim significado), que pousou sobre cada um deles, como ocorreu com os profetas de antigamente. Ou conforme a descrição do Dr. Hammond: “Houve o surgimento de algo parecido com a luz de fogo em chamas sobre cada um deles, que se dividiu e, assim, assumiu a semelhança de línguas divididas ou repartidas próximo das suas cabeças”. A chama de uma vela é algo semelhante a uma lingua. Existe um meteoro que os naturalistas chamam ignis lambens — uma chama suave, não um fogo voraz, como fora este. Observe:

(1) Houve um sinal exterior perceptível para confirmar a fé dos discípulos e convencer as outras pessoas. O mesmo sucedia com os profetas de antigamente. Eles tinham sua primeira missão confirmada por sinais para que todo o Israel soubesse que eles foram consagrados profetas.

(2) O sinal dado foifogo para que a predição de João Batista relativa a Jesus se cumprisse: Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo (Mt3.11), ou seja, com o Espírito Santo como com fogo. Os discípulos estavam na festa de Pentecostes celebrando o recebimento da lei no monte Sinai. A lei foi dada em fogo, por isso foi chamada lei de fogo como o evangelho é chamado evangelho de fogo. A missão de Ezequiel foi confirmada por uma visão de brasas de fogo ardentes (Ez 1.13), e a de Isaías por uma visão de brasa viva que lhe tocou os lábios (Is 6.6,7). O Espírito, como fogo, derrete o coração, separa e queima a escória, e acende sentimentos santos e devotos na alma. E na alma, como no fogo que está sobre o altar, que são oferecidos os sacrifícios espirituais. Este é o fogo que Jesus veio lançar na terra (Lc 12.49).

(3) Este fogo apareceu na forma de línguas repartidas. As operações do Espírito são muitas. O falar em diversas línguas é uma dessas operações e foi separado para ser a primeira evidência do dom do Espírito Santo, ao qual este sinal serve de referência. [1] Eram línguas, pois é proveniente do Espírito que temos a palavra de Deus, e é pelo Espírito que Jesus falaria com o mundo. Ele deu o Espírito aos discípulos para dotá-los de conhecimento e de poder para espalhar e proclamar ao mundo o que eles sabiam, visto que a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útíl (1 Co 12.7). [2] Estas línguas eram repartidas, dando a entender que Deus dividiria entre todas as nações o conhecimento da sua graça, assim como está escrito que Ele, por sua providência, reparte a elas a luz dos corpos celestes (Dt 4.19).
As línguas foram divididas, mas mesmo assim os discípulos continuavam de comum acordo, pois pode haver uma unidade sincera de sentimentos onde há diversidade de expressão. O Dr. Lightfoot observa que a divisão de línguas na torre de Babel foi a expulsão dos pagãos. Quando eles perderam o único idioma no qual pregavam sobre Deus, perderam todo o conhecimento de Deus e da religião, e caíram na idolatria. Mas agora, depois de cerca de dois mil anos, Deus, por meio de outra divisão de línguas, restabeleceu o conhecimento de si mesmo para as nações.

(4) Este fogo pousou sobre os discípulos durante algum tempo para denotar a habitação constante do Espírito Santo neles. Os dons proféticos de outrora eram conferidos esparsamente e apenas em poucas ocasiões, mas os discípulos de Jesus sempre teriam consigo os dons do Espírito, embora o sinal talvez logo desaparecesse. Não sabemos se estas chamas de fogo passaram de um para o outro, ou se havia tantas chamas quantas pessoas. Mas tinham de ser chamas fortes e brilhantes para que fossem visíveis à luz do dia, pois o dia, que ainda é hoje, chegara.

Quais foram os efeitos imediatos disso? (v. 4). 1. Todos foram cheios do Espírito Santo de maneira mais plena e poderosa que antes. Eles foram cheios com a graça do Espírito e ficaram mais que nunca sob a sua influência santificadora. Agora eles eram santos, espirituais, menos apegados a este mundo e mais bem familiarizados uns com os outros. Eles ficaram mais cheios do consolo do Espírito, alegraram-se mais que nunca no amor de Jesus e na esperança celestial, e, nisso, todas as suas aflições e medos foram absorvidos.
Eles também foram, como prova disso, enchidos com os dons do Espírito Santo, que é o propósito específico do evento narrado nesse texto. Eles foram dotados de poderes milagrosos para proveito do evangelho. Para mim, está claro que não só os doze apóstolos, mas todos os cento e vinte discípulos foram igualmente cheios do Espírito Santo nessa ocasião. Todos os setenta discípulos, que eram homens apostólicos e envolvidos na mesma obra, bem como todos os demais que também pregariam o evangelho.

Em Efésios 4.8,11, está escrito expressamente: Subindo ao alto, quando Jesus ascendeu ao céu (que se refere a isso, v. 33), Ele deu dons aos homens: uns para apóstolos (como foram os doze), outros para profetas, outros para evangelistas (como eram muitos dos setenta discípulos, pregadores itinerantes) e outros para past ores e doutores estabelecidos em determinadas igrejas, como supomos que mais tarde alguns deles foram. O todos aqui tem de se referir ao todos que estavam reunidos (v. 1; cap. 1.14,15). 2. Todos [...] começaram o,falar em outras línguas, além da língua materna que cada um falava, mesmo sem nunca haver aprendido essas outras línguas. Os assuntos de que tratavam não eram conversas comuns, mas eram a palavra de Deus e louvores ao seu nome, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem, ou lhes dava a falar, apophthengesthai — proferir apotegmas, declarações significativas e de peso, dignas de se manter na memória.
A situação, provavelmente, não era uma pessoa falando uma língua e outra, uma segunda e, assim por diante (como ocorreu com as muitas famílias que se espalharam em Babel), mas a cada um era permitido falar diversas línguas, conforme a ocasião. E presumimos que entendiam aquilo que diziam e também o que os outros diziam, privilégio de que os construtores de Babel não dispunham (Gn 11.7).

Não falavam, aqui e ali, uma palavra em outra língua, ou gaguejavam algumas frases incompletas, mas falavam com exatidão, fluência e elegância como se fosse sua língua nativa, pois tudo o que é produzido por milagre tem de ser da melhor qualidade. Eles não falavam por haverem pensado ou meditado previamente, mas conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. Era o Espírito Santo que lhes concedia o conteúdo e a língua. (1) Este era um milagre de grande porte, um milagre ocorrido na mente (e assim tinha muito da natureza de um milagre do evangelho), pois é na mente que as palavras são formadas.

Eles nunca tinham aprendido estas línguas, nem também qualquer língua estrangeira que poderia ter-lhes facilitado o aprendizado dessas. Ao que parece, nunca tinham sequer ouvido tais línguas, nem tampouco possuído a mínima noção delas. Não eram nem estudantes nem viajantes, nem haviam possuído qualquer oportunidade de aprender idiomas por intermédio de livros ou conversação. Pedro era bastante atrevido para falar em sua própria língua, mas os demais não eram porta-vozes, nem eram ágeis de entendimento. Mas agora o coração dos imprudentes entenderá a sabedoria; e a língua dos gagos estará pronta para falar distintamente (Is 32.4). Quando Moisés reclamou: Sou pesado de boca, Deus respondeu: Eu serei com a tua boca. E acrescentou:

Arão [...]falará por ti ao povo (Ex 4.10,12,16). Mas Deus fez mais para estes seus mensageiros: aquele que fez a boca do homem refez a boca destes. (2) Este era um milagre extremamente adequado, necessário e útil. Os discípulos falavam aramaico, um dialeto hebraico. Por isso, era necessário que eles fossem dotados com a capacidade para entenderem o hebraico, idioma em que o Antigo Testamento foi originalmente escrito, e o grego, idioma em que o Novo Testamento será originalmente redigido. Mas isso não era tudo.

Eles foram comissionados a pregar o evangelho a toda criatura (Mc 16.15), a ensinar todas as nações (Mt 28.19). Há aqui uma dificuldade insuperável se revelando: Como eles dominariam os muitos idiomas para que falassem inteligentemente a todas as nações? Seria o trabalho de uma vida inteira alguém aprender todas as línguas da época. Portanto, para provar que Jesus lhes daria autoridade para pregar às nações, Ele lhes dá a capacidade de pregar na língua de cada uma dessas nações. Ao que parece, este foi o cumprimento desta promessa que Jesus fez aos discípulos: Aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço e as fará maiores do que estas (Jo 14.12).

Para que isto fosse devidamente reconhecido e considerando todos os fatos, as obras maiores teriam de ser maiores que as curas miraculosas que Jesus fez. O próprio Jesus não falava em outras línguas, nem capacitou os discípulos a fazê-lo, enquanto estava com eles. Este foi o primeiro efeito do derramamento do Espírito sobre eles (v. 18). O arcebispo Tillotson pensa que se agora pessoas de mente genuína procurassem sincera e vigorosamente converter os infléis ao cristianismo, Deus favoreceria extraordinariamente tal tentativa dispondo-lhes toda assistência adequada, como fez na primeira proclamação do evangelho.

O Dia de Pentecostes = vv 5-13

Há aqui um relato da notícia que se espalhou em Jerusalém sobre o dom extraordinário que todos os discípulos subitamente receberam. Observe:
IA grande confluência de pessoas em Jerusalém era maior que o habitual em época de festa do Pentecostes (v. 5). Em Jerusalém estavam habitando ou havia judeus que eram varões religiosos, inclinados à religião e que tinham o temor de Deus diante dos olhos (conforme significa a palavra corretamente).

Alguns eram prosélitos de justiça, porque foram circuncidados e aceitos na igreja judaica, ao passo que outros eram apenas prosélitos de portão, porque abandonaram a idolatria e se entregaram à adoração do verdadeiro Deus, sem, contudo, obedecerem à lei cerimonial. Parte desses que agora estavam em Jerusalém era de todas as nações que estão debaixo do céu, para onde os judeus foram espalhados ou de onde foram feitos prosélitos.

A expressão é hiperbólica, denotando que havia pessoas das regiões mais bem conhecidas do mundo de então. Tanto como Tiro foi, ou Londres é, o local de encontro de homens de negócio do mundo inteiro, Jerusalém, naquela época, era o local de encontro de pessoas religiosas de todas as regiões. 1. Temos uma lista de alguns países de onde esses estrangeiros vieram a Jerusalém (vv. 9-11).

Alguns vieram de países orientais, como os partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, que são a posteridade de Sem. Então passamos para a Judéia, a qual deve ser mencionada, porque, embora a língua dos habitantes da Judéia fosse a mesma dos discípulos, contudo eles a falavam com o sotaque e dialeto do norte do país (és também galileu, Mc 14.70, pois a tua fala te denuncia, Mt 26.73). Mas agora, depois do Pentecostes, empregavam-na tão corretamente quanto os próprios habitantes da Judéia.

Em seguida, vêm os habitantes de Capadócia, Ponto e daquele país ao longo do Proponto, denominado particularmente de Asia, sendo estes os países para os quais esses estrangeiros foram dispersos e para quem Pedro mais tarde escreveu (1 Pe 1.1). Depois, vêm os moradores da Frígia e Panfília, que se situavam em direção oeste, sendo a posteridade de Jafé como também o eram os forasteiros romanos.
Havia também alguns que moravam na região sul do Egito e partes da Líbia, junto a Cirene; outros que residiam na ilha de Creta e outros que habitavam os desertos da Arábia. Mas, originalmente, compunham-se todos ou de judeus que foram espalhados nesses países, ou de prosélitos convertidos à religião judaica, sendo nativos desses países. O Dr. Whitby observa que os escritores judeus dessa época, como Fion e Josefo, falam que os judeus habitavam em todas as regiões
da terra inteira e que não há um povo na terra entre os quais não habitem alguns judeus. 2. O motivo que reuniu todos esses judeus e prosélitos em Jerusalém nesta época.

Não foi para fazer urna visita passageira em Jerusalém durante a festa do Pentecostes, porque o texto diz que eles estavam habitando lá. Eles alugavam quartos em casas particulares, porque nesse tempo havia a expectativa geral do aparecimento do Messias. As semanas de Daniel haviam acabado de se cumprir, o cetro se arredara de Judá e o pensamento geral era que logo se havia de manifestar o Reino de Deus (Lc 19.11). Isso fez com que as pessoas que eram mais zelosas e devotas fossem a Jerusalém e permanecessem temporariamente lá, para que tivessem parte antecipada no Reino do Messias e as bênçãos desse reino.

O temor que tomou conta dos estrangeiros quando ouviram os discípulos falar nas suas próprias línguas. Pelo visto, os discípulos falaram em vários idiomas antes que as pessoas desses respectivos idiomas viessem a eles, pois se subentende (v. 6) que foi a propagação dessas notícias que ajuntou a multidão. Foram, sobretudo, as pessoas de diferentes países que ficaram mais abaladas com esta operação de maravilhas (1 Co 12.10) que os próprios habitantes de Jerusalém.

1. Os estrangeiros observaram que os que falavam eram todos galileus, pessoas que não conheciam outra língua exceto a materna (v. 7). Eram pessoas de baixo nível cultural, de quem ninguém esperaria nada culto ou educado. Deus escolheu as coisas loucas e fracas loucas deste mundo para confundir as sábias e fortes (1 Co 1.27). O povo pensava que Jesus fosse galileu, mas seus discípulos realmente eram pessoas incultas e ignorantes.

2. Os estrangeiros reconheceram que os discípulos falavam inteligente e prontamente cada um na língua desses estrangeiros (os quais eram juízes muito competentes). Falavam de modo tão correto e fluente que nenhum dos seus próprios compatriotas poderia falar melhor: Nós os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos (v. 8), ou seja, ouvimos um ou outro deles falando em nossa língua nativa. Os partos ouviam um deles falar seu idioma, os medos ouviam outro falar o seu e assim sucessivamente: Todos os temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus (v. 11). Seus respectivos idiomas eram desconhecidos em Jerusalém e, provavelmente, menosprezados e subestimados.
Portanto, não só era uma surpresa, mas uma surpresa agradável eles ouvirem o idioma do próprio país deles sendo falado, como ocorre naturalmente com os que são estrangeiros em terra estrangeira. (1) As palavras que os estrangeiros ouviam os discípulos pronunciarem diziam respeito às grandezas de Deus, megaleia tou Theou — Magnalia Dei, as grandes coisas de Deus. E provável que os discípulos falassem sobre Jesus, a redenção por meio dele e a graça do evangelho. Essas são realmente as grandes coisas de Deus, que serão para sempre coisa maravilhosa aos nossos olhos (Sl 118.23). (2) Os estrangeiros ouviram os discípulos louvarem a Deus por essas grandes coisas e ensinarem as pessoas acerca destas coisas, na língua de cada uma delas, segundo percebiam a língua das pessoas que os ouviam ou daqueles que lhes faziam perguntas.

Mas talvez por estarem habitando há algum tempo em Jerusalém, esses estrangeiros ganharam certo domínio no idioma hebraico, habilitando-os a entender o que os discípulos queriam dizer, caso tivessem falado nesse idioma. [1] O fato era muito estranho e ajudava a convencer o juízo dos estrangeiros de que esta doutrina era de Deus, pois as línguas eram um sinal [...] paro. Os incrédulos (1 Co 14.22, versão RA). [2] O fato era muito prazeroso aos sentidos e ajudava a prender as emoções dos estrangeiros, visto que era indicação clara do privilégio estendido aos gentios.

Esse fato também sinalizava que o conhecimento e o culto a Deus já não estariam restritos aos judeus e que a parede de separação seria derribada. Para nós é alusão clara da mente e vontade de Deus de que os registros sagrados das grandezas de Deus seriam preservados por todas as nações e em sua própria língua. As Escrituras seriam lidas e o culto público feito nas línguas comuns das nações.

3. Os estrangeiros ficaram curiosos em saber o que era que estava acontecendo e consideraram o fato surpreendente: Todos se maravilhavam e estavam suspensos (ou seja, em êxtase, que é o significado da palavra, v. 12). Eles estavam em dúvida sobre qual era o significado disso. Supunham que tinha a ver com o estabelecimento do Reino do Messias, do qual possuíam altas expectativas. Eles perguntavam a si mesmos e uns aos outros: Ti an theloi touto einai; — Quid hoc sibi unlt? — Qual é a tendência disso? Seguramente é para dignificar e, assim, distinguir estes homens como mensageiros do céu. Portanto, como aconteceu com Moisés junto à sarça ardente, assim eles se viraram para lá e viram esta grande visão (Ex 3.3).

O desprezo que alguns nativos da Judéia e Jerusalém deram ao fato, provavelmente os escribas, os fariseus e os principais dos sacerdotes que sempre resistiam ao Espírito Santo. Diziam: Estes homens estão cheios de mosto, ou seja, vinho doce, dando a entender que eles beberam demais neste tempo de festa (v. 13). Não que eles fossem tão faltos de entendimento a ponto de pensar que vinho em excesso faria as pessoas falarem línguas que nunca aprenderam. Mas estes, sendo judeus nativos, não sabiam, como os estrangeiros, que o que era falado era realmente os idiomas de outras nações.
Por isso, para eles soava palavreado desconexo e sem sentido, como bêbedos, como às vezes falavam aqueles loucos de Israel (2 Sm 13.13). E semelhante à ocasião em que eles resolveram não crer no dedo do Espírito nos milagres de Cristo, e eles saíram com esta: Ele expulsa os demônios pelo príncipe dos demônios (Mt 9.34). Assim, quando resolveram não crer na voz do Espírito na pregação dos apóstolos, eles saíram com esta: Estes homens estão cheios de vinho novo. Portanto, se chamaram beberrão ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos? (Mt 10.25; 11.19).


Elaboração pelo:- Evangelista Isaias Silva de Jesus
Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Em Dourados – MS
Comentário Bíblico Mathew Henry - Novo Testamento Edição Compelta

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