terça-feira, 22 de março de 2011

Os Dons de Cura e Milagres

Os dons de cura e milagres

Nas duas relações de dons, em I Coríntios 12, Paulo faz referência aos dons de curas e milagres. Nos versículos 9 e 10 ele fala sobre “dons de curar” e “operação de milagres”. No versículo 28 ele se refere a “operadores de milagres” e “dons de curar”, invertendo a ordem.

A palavra “curar” é a tradução do vocábulo grego iáomai, geralmente usado para designar a cura milagrosa. Outro verbo, therapéuo, também significa curar, mas pode ser usado na língua grega para indicar a cura por meio de processos medicinais. A palavra “milagres” (dunámeis) também significa “poderes”, dando a idéia de que o milagre é uma expressão do poder de Deus.

Milagre é um termo genérico que pode ser descrito como “um fenômeno que de tal modo transcende os processos naturais, ou se manifesta em tais circunstâncias que só pode ser atribuído à interferência de algum poder sobrenatural”9. A cura é também um milagre, mas tem a ver com a restauração da integridade física.

1. Curas e milagres no ministério de Jesus - Mt 4.23-25; 10.1,8

Mateus 4.23-25 descreve o ministério tríplice de Jesus. Ele ensinava, pregava e curava, O texto especifica alguns dentre os vários tipos de doenças que Jesus curava e descreve o interesse das multidões que o seguiam, atraídas pelas curas.
Além das curas, Jesus realizou também milagres que demonstraram o seu poder sobre as forças da natureza, como aconteceu na tempestade que foi acalmada (Mt 8.23-27), multiplicação dos pães e peixes (Mt 14.13- 21; 15.29-39), na caminhada sobre o mar(Mt 14.22-36) e com a figueira infrutífera (Mt 21.18-22).

No ministério de Jesus, as curas e milagres tiveram uma finalidade específica: provar a sua divindade. Nesse particular, as expulsões de demônios ocuparam lugar especial, pois significaram que em Jesus o reino de Deus já estava presente neste mundo para sobrepujar o reino de Satanás e libertar os homens de suas garras malignas (Mt 12.22-32).

A passagem dos Evangelhos que talvez fale mais objetivamente a respeito da finalidade dos milagres e curas de Jesus é João 20.30,31. João entendeu que os sinais que Jesus operou eram a maior prova de que ele era o Filho de Deus e o melhor meio de conduzir as pessoas à fé salvadora.

Ainda durante o seu ministério, Jesus comissionou os 12 apóstolos a quem escolhera e deu-lhes poder sobre todo tipo de enfermidades (Mt 10.1,8). O relato da história da igreja primitiva, no livro de Atos dos Apóstolos, mostra-nos como se desenvolveu essa atividade entre os apóstolos.



2. Curas e milagres na era apostólica - At 2.43; 5.12,16; 19.11,12; Tg 5.14-16

Os apóstolos realizaram curas miraculosas, de acordo com o que está registrado no livro de Atos. Na primeira parte do livro, sobressaem as figuras de Pedro e João, especialmente a de Pedro. A primeira referência fala da cura de um homem coxo que estava à porta do templo em Jerusalém (At 3.1-10), envolvendo a Pedro e João. Mais adiante, Pedro, na cidade de Lida, cura Enéias, que havia oito anos era paralftico (At 9.32- 35), e na cidade de Jope ressuscita Tabita, ou Dorcas (At 9.36-43).

É interessante notar a afirmação, em Atos 2.43, de que “muitos prodígios e sinais eram feitos pelos apóstolos”, o que leva a crer que os demais, além de Pedro e João, também estivessem envolvidos nesse ministério. Mais interessante ainda é a referência em Atos 5.12-16, onde se lê que os doentes eram trazidos às ruas de Jerusalém para que ao menos a sombra de Pedro pudesse cobri-los, talvez na esperança de que fossem curados.

Na segunda parte do livro, que se dedica à narrativa da obra missionária de Paulo, encontramos, no ministério desse apóstolo, ocorrências de milagres semelhantes aos que aconteceram no ministério de Pedro. Paulo também curou um paralítico (At 14.8-10), expulsou um espírito adivinhador (At 16.16-18), curou por meio de meios estranhos (At 19.11,12), ressuscitou um morto (At 20.9-12), curou Públio, que estava acometido de febre, e muitos outros enfermos na Ilha de Malta (At 28.7-10).

Dois pontos importantes devem ser observados nestes registros do livro de Atos. O primeiro é que os apóstolos sempre atribuíam as curas ao poder do Senhor Jesus Cristo e não a algum poder que eles mesmos possuíssem. É significativa a pergunta que Pedro dirigiu ao povo que estava atônito por contemplar um milagre: “Por que fitais os olhos em nós, como se por nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar?” (At 3.12). Na cura de Enéas, o apóstolo desfaz, de antemão, qualquer dúvida com respeito ao autor do milagre - “Enéias, Jesus Cristo te cura’ (At 9.34). Não era Pedro o autor, mas o Senhor. Em Listra, as multidões queriam oferecer sacrifícios a Paulo e Bamabé, por causa da cura do homem aleijado, pensando que eles fossem deuses. Paulo procurou desfazer essa falsa concepção, dizendo que ele e Barnabé eram também humanos. O milagre da cura tinha sido efetuado por Deus.

O segundo ponto a salientar refere-se aos resultados das curas milagrosas. Em Jope, o resultado foi que “muitos creram no Senhor” quando tomaram conhecimento de que Pedro havia ressuscitado Tabita (At 9.42). Os sinais e prodígios que Pedro e os demais apóstolos realizavam em Jerusalém faziam com que cada vez mais se agregassem “crentes ao Senhor em grande número, tanto de homens como de mulheres” (At 5.14).
Os milagres extraordinários que Deus operou pelas mãos de Paulo em Éfeso fizeram com que o nome do Senhor fosse engrandecido e a palavra de Deus crescesse poderosamente naquela cidade (At 19.11-20).

Assim, na era apostólica, as curas e milagres foram utilizados por Deus para autenticar a mensagem do evangelho que estava sendo proclamada. Tanto entre os judeus como entre os gentios, os milagres produziram fé. Os que presenciavam os milagres criam no Senhor Jesus Cristo, agregavam-se à igreja, promovendo o seu crescimento e expansão, e dessa maneira o nome do Senhor era engrandecido.

Há, portanto, uma seqüência entre o ministério de Jesus e a era apostólica. Em ambas as fases os milagres produziram fé. Primeiramente, fé na pessoa de Jesus como Filho de Deus. Depois, fé na mensagem que a igreja proclamava acerca de Jesus.

No estudo de curas e milagres na era apostólica, uma passagem que alguns acham difícil de entender é Tiago 5.14-16, especialmente por causa da referência ao óleo. Algumas considerações sobre esse texto poderão ser úteis.

Em primeiro lugar, deve-se perceber que a ênfase de toda a passagem (v. 13-18) não está em curas, mas no poder da oração. Esta é prescrita para várias situações da vida, inclusive em casos de doença.

Os anciãos ou presbíteros eram, na igreja cristã primitiva, os que exerciam a função de liderança. A orientação que Tiago dá para chamar os anciãos reflete algo que a igreja já vinha fazendo. Não é um mandamento para começar algo novo, pois este era um costume proveniente do judaísmo. Nas comunidades judaicas, os anciãos oravam em favor dos enfermos. Como a igreja cristã, na fase inicial, era composta essencialmente de judeus, essa prática continuou sendo adotada.

O ato de ungir com óleo é significativo. Este ato reflete também um costume daquela época. O óleo era usado como remédio para várias doenças. A parábola do bom samaritano reflete esse emprego, quando diz que ele colocou óleo e vinho nas feridas do homem assaltado (Lc 10.34). Mas o óleo passou a ter também um sentido simbólico, sendo aplicado mesmo em curas milagrosas (Mc 6.13).

O fato importante é que o texto não afirma que a cura é realizada pelo óleo, mas pela eficácia da oração e pela intervenção direta do Senhor: “E a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará” (v. 15). O óleo era apenas um símbolo da presença do Senhor naquela cura. Tiago, mais uma vez, não está prescrevendo algo novo, pois já se usava o óleo simbolicamente. Ele não está dizendo aos crentes de sua época que em todos os casos de doença deve-se usar o óleo.
Também não está dizendo que essa prática deveria perpetuar-se para todas as épocas e estender-se para todos os povos e culturas. O que ele ensina é que o crente deve confiar no poder da oração como meio de receber uma cura do Senhor.

A expressão “e se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados”, na parte final do versículo 15, remonta a um pensamento corrente no primeiro século, e entre alguns ainda hoje, de que toda enfermidade é conseqüência de pecado. É verdade que o estado espiritual e psicológico de uma pessoa pode afetar o seu físico. A ciência atesta a realidade das doenças psicossomáticas, produzidas por estados emocionais. Por outro lado, problemas físicos podem gerar problemas psicológicos. Também há doenças que são causadas por atitudes pecaminosas, mas nem toda doença é fruto direto de um pecado. A literatura do judaísmo registra afirmações de que uma pessoa não seria curada de uma enfermidade enquanto seus pecados não fossem confessados e perdoados. Esse ponto de vista está refletido no versículo 16 do texto de Tiago.

3. Curas e milagres hoje

O assunto deste capítulo levanta a questão da possibilidade de curas e milagres em nossos dias. À luz do ensino geral da Bíblia, Deus sempre operou e sempre poderá operar milagres. Não há limites de tempo para o seu poder. No entanto, é necessário que consideremos alguns pontos.

Em primeiro lugar, a Bíblia mostra que houve épocas específicas na história que se caracterizaram pela presença marcante dos milagres. Três períodos principais podem ser identificados, de acordo com Schaly, em “Doutrina do Espírito Santo, Parecer da Comissão dos Treze”, pp. 110-113):

1) O período da libertação do povo de Israel do cativeiro egípcio até a sua consolidação como nação, destacando-se as figuras de Moisés e Josué;

2) O período da restauração do culto de Jeová no Reino do Norte, quando estão em evidência os profetas Elias e Eliseu;

3)0 período da instituição da igreja, com milagres realizados por Jesus e seus discípulos. Nesses períodos os milagres se realizaram com uma função específica, em épocas especiais da revelação de Deus. Houve intervalos de vários séculos entre cada período. Nesses intervalos houve milagres, não como regra geral, mas como casos esporádicos. Os milagres realizados por Jesus e pelos apóstolos aconteceram num período específico para provarem a divindade de Jesus e estabelecerem a igreja cristã. Após os tempos apostólicos, os milagres diminuíram gradativamente.

Em segundo lugar, mesmo no Novo Testamento encontramos indicações de que não se deve desprezar os recursos médicos para a cura.
Paulo recomendou que Timóteo usasse um pouco de vinho por causa de seu estômago e de suas freqüentes enfermidades (l Tm 5.23). Deus nos concede recursos científicos de que devemos dispor para a restituição da saúde. O uso do óleo, no primeiro século, é também uma evidência dc que não se desprezava os recursos medicinais daquela época.

Finalmente, reafirmamos que Deus cura ainda hoje. No entanto, não é atribuição da igreja fazer das curas e milagres a sua plataforma, como se esta fosse a razão de ser da sua presença no mundo. A missão ampla da igreja inclui evangelizar os perdidos, doutrinar os crentes, adorar a Deus, ajudar os necessitados e praticar a comunhão cristã. O maior milagre que a igreja pode ostentar é o poder do evangelho para transformação de vidas.

A Doutrina do Espírito Santo – Roberto Alves de Souza

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